{"id":3507,"date":"2015-12-25T10:08:37","date_gmt":"2015-12-25T10:08:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2015\/12\/25\/amigos-do-mst-na-alemanha-planejam-intercmbio-de-tecnologias-agroecolgicas\/"},"modified":"2017-10-02T21:44:09","modified_gmt":"2017-10-02T21:44:09","slug":"amigos-do-mst-na-alemanha-planejam-intercmbio-de-tecnologias-agroecolgicas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2015\/12\/25\/amigos-do-mst-na-alemanha-planejam-intercmbio-de-tecnologias-agroecolgicas\/","title":{"rendered":"Amigos do MST na Alemanha planejam interc\u00e1mbio de tecnologias agroecol\u00f3gicas"},"content":{"rendered":"<p>Grupo realizou sua reuni&atilde;o anual na &uacute;ltima semana, e planeja intensificar trocas de experi&ecirc;ncias em produ&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gica.<\/p>\n<p><em>Por Alan Tygel e Uschi Silva<br \/> Da P&aacute;gina do MST<\/em><\/p>\n<p> Na entrada da casa, bandeiras do MST, Via Campesina e do Movimento dos  Pequenos Agricultores (MPA). Quadros com fotos da exposi&ccedil;&atilde;o Terra, de  Sebasti&atilde;o Salgado sobre o MST decoram a parede, junto a bon&eacute;s vermelhos.  Um pequeno caboclo de lan&ccedil;a, personagem do Maracatu Rural pernambucano,  desce do teto, aparentemente para proteger o local. Antes da porta,  sacos de feij&atilde;o-preto rec&eacute;m colhidos esperam para ser entregues.<\/p>\n<p><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio do que se poderia pensar, esta cena n&atilde;o aconteceu no  Brasil, mas a um oceano de dist&acirc;ncia. Mais precisamente na pequena vila  de Eichstetten, no sul da Alemanha, onde mora o pequeno agricultor  Wolfgang Hees. Em sua casa funciona tamb&eacute;m a sede oficial do Grupo de  Amigos do MST da Alemanha, que realizou seu encontro anual no &uacute;ltimo dia  14 de dezembro.  <\/p>\n<p> O grupo &eacute; formado por pessoas interessadas no Movimento na Alemanha, e  tamb&eacute;m tem conex&atilde;o com outros grupos de amigos pela Europa. Juntos, eles  atuam como porta-vozes do MST na Europa, e elaboram projetos em  parceria. Um dos mais importantes, por exemplo, resultou no apoio &agrave;  constru&ccedil;&atilde;o da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), um dos mais  importantes centros de forma&ccedil;&atilde;o dos movimentos sociais na Am&eacute;rica  Latina.<\/p>\n<p> Entretanto, Wolfgang alerta: &ldquo;N&oacute;s n&atilde;o somos como um f&atilde;-clube do MST,  tamb&eacute;m criticamos o MST. Participamos dos Congressos Nacionais, e  ficamos muito felizes com o 6&ordm; Congresso com essa amplia&ccedil;&atilde;o da reforma  agr&aacute;ria popular com os outros grupos que sofrem no Brasil. O Movimento  Sem Terra e os Zapatistas s&atilde;o grandes movimentos sociais que nos  inspiram aqui na Europa, pelo grau da sua organiza&ccedil;&atilde;o e das suas lutas.&rdquo;<\/p>\n<p> No momento, os amigos do MST da Alemanha pretendem refor&ccedil;ar o  interc&acirc;mbio de experi&ecirc;ncias. A ideia &eacute; levar jovens da AbL, movimento  que re&uacute;ne pequenos agricultores e agricultoras alem&atilde;es, para conhecer a  ENFF e os assentamentos brasileiros, e tamb&eacute;m trazer jovens do MST para  conhecer e vivenciar o modelo de produ&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gico europeu.<\/p>\n<p> Confira a seguir a entrevista com Wolfgang Hees:<\/p>\n<p> <strong>Quem s&atilde;o os amigos do MST da Alemanha?<\/strong><\/p>\n<p> Os Amigos do MST na Alemanha t&ecirc;m uma liga&ccedil;&atilde;o de muitos anos com MST.  Somos um grupo de 20 a 30 pessoas mais ativas, e cerca de 120 que  recebem nossos informes e fazem doa&ccedil;&otilde;es. Nosso primeiro objetivo aqui  foi contribuir para o financiamento da constru&ccedil;&atilde;o da ENFF.&nbsp;<\/p>\n<p> Quando havia aquela ideia inicial do projeto, necessitava um  co-financiamento da Uni&atilde;o Europeia. Com a exposi&ccedil;&atilde;o e o livro Terra, do  fot&oacute;grafo Sebasti&atilde;o Salgado, foi poss&iacute;vel juntar um dinheiro aqui dos  Amigos do MST da Europa, principalmente da Alemanha, Fran&ccedil;a, Espanha,  It&aacute;lia, B&eacute;lgica, e mais tarde entraram mais forte Su&eacute;cia e Finl&acirc;ndia. O  grupo europeu se encontra a cada dois anos.<\/p>\n<p> <strong>Como come&ccedil;ou o grupo na Alemanha?<\/strong><\/p>\n<p> Tinham pessoas na Alemanha que trabalhavam no Brasil e tinham contatos  com o MST. Eram principalmente sindicalistas metal&uacute;rgicos, sindicato dos  qu&iacute;micos que tinham contato com parceiros no Brasil e sempre com uma  conex&atilde;o com o MST.<\/p>\n<p> Funda&ccedil;&otilde;es como a Heinrich B&ouml;ll e a Rosa Luxemburgo tamb&eacute;m apoiam o  Movimento h&aacute; bastante tempo. H&aacute; tamb&eacute;m os produtores organizados aqui  dentro da AbL e a Via Campesina da Alemanha.&nbsp;<\/p>\n<p> Em 1999 formamos a pessoa jur&iacute;dica dos Amigos do MST da Alemanha. Somos  uma associa&ccedil;&atilde;o com fim social, o que possibilitou receber doa&ccedil;&otilde;es e  repassar ao Movimento Sem Terra, principalmente para a constru&ccedil;&atilde;o da  ENFF.<\/p>\n<p> <strong>Como foi na Europa a repercuss&atilde;o do Massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s?<\/strong><\/p>\n<p> Foi bastante forte, esse foi um ponto que levou a apoiar mais o MST. O  massacre foi muito discutido por aqui, e foi um fator inicial para  entrar mais forte na parceria com MST.<\/p>\n<p> Continuamos com a exposi&ccedil;&atilde;o Terra [que inclui imagens de Massacre], e  sempre fazemos essa exposi&ccedil;&atilde;o com organiza&ccedil;&otilde;es locais e regionais.  Muitas vezes eles convidam para dar palestra sobre o MST, sobre a  hist&oacute;ria e os desafios.&nbsp;<\/p>\n<p> N&atilde;o nos entendemos n&atilde;o como um f&atilde;-clube do MST, mas como uma certa massa  cr&iacute;tica. Tamb&eacute;m fazemos criticas&nbsp;ao MST e&nbsp;participamos dos Congressos  Nacionais. Ficamos muito felizes com o 6&ordm; Congresso em que&nbsp;ampliou a  reforma agr&aacute;ria popular com outros grupos que sofrem no Brasil.&nbsp;<\/p>\n<p> Nos entendemos um pouco como porta-vozes do MST aqui na Alemanha, porque  temos clareza de que a reforma agr&aacute;ria &eacute; necess&aacute;ria, de que &eacute; preciso  uma outra economia no Brasil, e tamb&eacute;m de que s&atilde;o os movimentos como os  Movimentos Zapatistas e Sem Terra que nos inspiram aqui na Europa, pelo  grau da organiza&ccedil;&atilde;o e das suas lutas.<\/p>\n<p> <strong>Quais s&atilde;o as linhas de atua&ccedil;&atilde;o do grupo?<\/strong><\/p>\n<p> Estamos com dois projetos; um com os jovens da AbL, a Via Campesina  alem&atilde;, que queremos que conhe&ccedil;am a ENFF&nbsp;e que fa&ccedil;am cursos por l&aacute;.&nbsp;<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m temos um projeto de convidar jovens do MST para fazer uma pr&aacute;tica  aqui de um ano na agricultura ecol&oacute;gica. Isso tamb&eacute;m &eacute; resultado do 6&ordm;  Congresso, a orienta&ccedil;&atilde;o de investir fortemente na agroecologia.&nbsp;<\/p>\n<p> Temos uma experi&ecirc;ncia de 60 anos com uma agricultura org&acirc;nica e  agroecol&oacute;gica, e pensamos que podemos passar alguma experi&ecirc;ncia para o  Brasil e&nbsp;para o MST.<\/p>\n<p> <strong>Ent&atilde;o teremos em breve uma brigada do MST tamb&eacute;m na Alemanha?<\/strong><\/p>\n<p> No sul da Alemanha temos uma cooperativa de cinco produtores org&acirc;nicos  que se juntaram para avan&ccedil;ar na agricultura social e solid&aacute;ria. Estes  cinco querem convidar jovens do MST para conhecer as culturas do ano  inteiro, ver como adaptamos nossa agricultura para agroecologia e como  n&atilde;o ter tanto trabalho com as ervas,&nbsp;fortalecer o solo aumentando a  fertilidade e tamb&eacute;m o uso de m&aacute;quinas adaptadas para facilitar a  produ&ccedil;&atilde;o de produtos agroecol&oacute;gicos.<\/p>\n<p> <strong>A luta dos camponeses alem&atilde;es tamb&eacute;m &eacute; por Reforma Agr&aacute;ria?<\/strong><\/p>\n<p> N&atilde;o &eacute; tanto reforma agr&aacute;ria. Lutamos mais pela sobreviv&ecirc;ncia da  agricultura familiar porque tamb&eacute;m temos as amea&ccedil;as dos grandes  produtores do agroneg&oacute;cio e das corpora&ccedil;&otilde;es, que sempre compram as  terras na Alemanha.&nbsp;<\/p>\n<p> Como temos juros muito baixos, os investimentos em bolsa de valores se  tornam menos atrativos. Por isso, mesmo as pessoas que n&atilde;o querem  trabalhar na terra&nbsp;sempre compram terra na Alemanha, apenas para  investirem seu dinheiro para ter estabilidade e lucro.&nbsp;<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m temos a pol&iacute;tica agr&aacute;ria da UE que est&aacute; ligada &agrave; exporta&ccedil;&atilde;o, e  somos totalmente contra essa ideia de exportar produtos da Alemanha e da  Europa para pa&iacute;ses da &Aacute;frica, Am&eacute;rica Latina e &Aacute;sia, porque n&atilde;o tem  nada a ver com soberania alimentar. Nossa luta &eacute; para a agricultura  familiar e para o abastecimento regional da popula&ccedil;&atilde;o com produtos  saud&aacute;veis e agroecol&oacute;gicos.<\/p>\n<p> <strong>Mesmo com o per&iacute;odo de inverno, em que &eacute; mais dif&iacute;cil produzir, a Alemanha &eacute; capaz de produzir alimentos para sua popula&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p> Sim. Mas temos um problema aqui na Europa, que &eacute; o consumo muito alto de  carne. Essa carne &eacute; produzida atrav&eacute;s da soja e de produtos que chegam  do Brasil e de outros pa&iacute;ses do Sul. Dessa forma precisamos mudar o  consumo do povo europeu, porque n&atilde;o podemos produzir essa&nbsp;quantidade&nbsp;de  alimentos para o gado, porco e galinha. Por um lado, somos dependentes  das exporta&ccedil;&otilde;es.&nbsp;<\/p>\n<p> Por outro, com essas importa&ccedil;&otilde;es, a Alemanha,&nbsp;e outros pa&iacute;ses como  Dinamarca e Inglaterra, est&atilde;o exportando leite e&nbsp;carne para outros  pa&iacute;ses, principalmente na &Aacute;frica. Nossa autossufici&ecirc;ncia s&oacute; &eacute; poss&iacute;vel  atrav&eacute;s das importa&ccedil;&otilde;es de soja e de outros produtos.&nbsp;<\/p>\n<p> A produ&ccedil;&atilde;o leiteira da Alemanha fica em 115% do consumo do pa&iacute;s, uma  parte do leite produzido aqui &eacute; exportado para &Aacute;frica e Am&eacute;rica do Sul,  complicando nestes pa&iacute;ses&nbsp;a pequena produ&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que s&atilde;o os pequenos os  principais produtores de leite, e acabam sofrendo com os pre&ccedil;os  subsidiados dos produtos leiteiros que n&oacute;s exportamos para o Brasil.<\/p>\n<p> <strong>Como funciona a pol&iacute;tica de subs&iacute;dios da agricultura Europeia?<\/strong><\/p>\n<p> Temos um subs&iacute;dio principal, atrav&eacute;s da UE, que est&aacute; ligado &agrave; quantidade  de terra que voc&ecirc; tem. Os maiores conseguem muito mais subs&iacute;dios do que  os pequenos, porque &eacute; uma cota por hectare.&nbsp;<\/p>\n<p> Al&eacute;m desses subs&iacute;dios individuais para os produtores, tem outro  problema: muitas vezes os produtores n&atilde;o s&atilde;o os donos da terra. No meu  caso, s&oacute; 10% da terra que eu trabalho &eacute; minha, a outra parte &eacute;  arrendada.&nbsp;<\/p>\n<p> Como o subs&iacute;dio da UE est&aacute; ligado &agrave; quantidade por hectare, isso aumenta  o pre&ccedil;o da terra, e esse subs&iacute;dio passa diretamente para o dono da  propriedade, porque &eacute; um valor agregado.&nbsp;<\/p>\n<p> Isso faz aumentar o pre&ccedil;o do aluguel das terras, ou seja, quem de fato  produz, que n&atilde;o tem terra suficiente e vive da terra arrendada, passa  esse subs&iacute;dio diretamente para o dono da terra.<\/p>\n<p> Mas temos outros subs&iacute;dios que s&atilde;o para exporta&ccedil;&atilde;o. Outro programa muito  grande da UE foi subsidiar os latic&iacute;nios para ter pre&ccedil;os mais baixos no  mercado mundial.&nbsp;<\/p>\n<p> Por exemplo, a Alemanha facilitou a entrada do etanol, e por outro lado o  Brasil facilitou a importa&ccedil;&atilde;o de produtos leiteiros da Alemanha. S&atilde;o  esses meios da pol&iacute;tica que complicam a vida dos pequenos produtores,  porque <span style=\"line-height: 20.8px\">n&atilde;o s&atilde;o os pequenos produtores&nbsp;<\/span>que&nbsp;produzem  soja e etanol no Brasil. Com isso, os grandes produtores de etanol e  soja t&ecirc;m o acesso mais f&aacute;cil ao mercado Europeu.<\/p>\n<p> <strong>Como funciona o seu sistema de produ&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p> Produzimos principalmente hortali&ccedil;as, frutas e ervas, e vendemos <span style=\"line-height: 20.8px\">uma parte da produ&ccedil;&atilde;o&nbsp;<\/span>diretamente na fazenda.<\/p>\n<p> Tamb&eacute;m temos contratos com distribuidores de alimentos org&acirc;nicos que  vendem nossos produtos para lojas especiais de produtos agroecol&oacute;gicos e  empresas que fazem o processamento de&nbsp;hortali&ccedil;as e frutas.&nbsp;<\/p>\n<p> Vendemos diretamente a maior parte do nosso suco (pera, ma&ccedil;&atilde;, cenoura,  uva) e fazemos v&aacute;rios tipos de produtos, como manteiga com ervas, pesto  de manjeric&atilde;o, de um tipo de alho selvagem. S&atilde;o produtos fabricados por  n&oacute;s com um valor agregado para o mercado.<\/p>\n<p> <strong>Plantam mandioca tamb&eacute;m?<\/strong><\/p>\n<p> (Risos) N&atilde;o, mandioca aqui n&atilde;o d&aacute;. Mandioca n&atilde;o aguenta o frio do nosso  inverno. Mas j&aacute; experimentamos com batata doce, e temos dentro da  cooperativa uma produ&ccedil;&atilde;o de feij&atilde;o preto e soja org&acirc;nica com o  rendimento de 3 a 3,5 toneladas por hectare, que &eacute; vendido para uma  f&aacute;brica que faz tofu em Freiburg.<\/p>\n<p> <strong>Qual &eacute; o seu trabalho hoje na AbL?<\/strong><\/p>\n<p> Estamos cooperando fortemente com a Via Campesina Internacional na  defesa dos direitos dos camponeses. Eu sou delegado da AbL, dentro da  Via Campesina Europeia, para avan&ccedil;ar em Genebra com a constru&ccedil;&atilde;o da  declara&ccedil;&atilde;o dos direitos dos pequenos produtores e de outros grupos, como  os pequenos pescadores, n&ocirc;mades com seus rebanhos pastorais. Essa &eacute; uma  luta que tamb&eacute;m achamos importante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Grupo realizou sua reuni&atilde;o anual na &uacute;ltima semana, e planeja intensificar trocas de experi&ecirc;ncias em produ&ccedil;&atilde;o agroecol&oacute;gica. Por Alan Tygel e Uschi Silva Da P&aacute;gina do MST Na entrada da casa, bandeiras do MST, Via Campesina e do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). 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