{"id":3428,"date":"2012-10-01T09:22:09","date_gmt":"2012-10-01T09:22:09","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2012\/10\/01\/agroecologia-x-agronegcio-a-resistncia-contra-o-poder\/"},"modified":"2017-10-02T21:45:02","modified_gmt":"2017-10-02T21:45:02","slug":"agroecologia-x-agronegcio-a-resistncia-contra-o-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2012\/10\/01\/agroecologia-x-agronegcio-a-resistncia-contra-o-poder\/","title":{"rendered":"Agroecologia X Agroneg\u00f3cio: a resist\u00e9ncia contra o poder"},"content":{"rendered":"<p><!--[if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_PunctuationKerning\/>   <w_ValidateAgainstSchemas\/>   <w_SaveIfXMLInvalid>false<\/w_SaveIfXMLInvalid>   <w_IgnoreMixedContent>false<\/w_IgnoreMixedContent>   <w_AlwaysShowPlaceholderText>false<\/w_AlwaysShowPlaceholderText>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>    <w_DontGrowAutofit\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]-->  <\/p>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt; font-family: Tahoma\"><!--[if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_PunctuationKerning\/>   <w_ValidateAgainstSchemas\/>   <w_SaveIfXMLInvalid>false<\/w_SaveIfXMLInvalid>   <w_IgnoreMixedContent>false<\/w_IgnoreMixedContent>   <w_AlwaysShowPlaceholderText>false<\/w_AlwaysShowPlaceholderText>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>    <w_DontGrowAutofit\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]--><\/span><\/h2>\n<h2><span style=\"font-size: 10pt; font-family: Tahoma\"><!--[if gte mso 9]><xml>  <w_LatentStyles DefLockedState=\"false\" LatentStyleCount=\"156\">  <\/w_LatentStyles> <\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\"; \tmso-ansi-language:#0400; \tmso-fareast-language:#0400; \tmso-bidi-language:#0400;} <\/style>\n\n <![endif]-->  <\/p>\n<p class=\"headline-link\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: Tahoma\">Najar Tubino <\/span><\/p>\n<p>  Em 2001, a FAO previu que demoraria 60 anos, seguindo o ritmo atual, para acabar com a fome no mundo. O poder dominante do agroneg&oacute;cio vende a ideia de que est&aacute; matando a fome do mundo, como se a distribui&ccedil;&atilde;o de alimentos fosse gratuita e generalizada. O que &eacute; uma mentira hist&oacute;rica. As culturas de exporta&ccedil;&otilde;es, como soja, cana, caf&eacute; sempre acabaram com as comunidades tradicionais de agricultores familiares, parceiros, ou trabalhadores rurais. <\/span><\/h2>\n<p>  <!--[if gte mso 9]><xml>  <w_LatentStyles DefLockedState=\"false\" LatentStyleCount=\"156\">  <\/w_LatentStyles> <\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\"; \tmso-ansi-language:#0400; \tmso-fareast-language:#0400; \tmso-bidi-language:#0400;} <\/style>\n\n <![endif]--><br \/><!--[if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_PunctuationKerning\/>   <w_ValidateAgainstSchemas\/>   <w_SaveIfXMLInvalid>false<\/w_SaveIfXMLInvalid>   <w_IgnoreMixedContent>false<\/w_IgnoreMixedContent>   <w_AlwaysShowPlaceholderText>false<\/w_AlwaysShowPlaceholderText>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>    <w_DontGrowAutofit\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]-->  <\/p>\n<p class=\"texto\"><span style=\"font-size: 10pt; font-family: Tahoma\">Esta &eacute; a hist&oacute;ria da luta dos novos guerreiros e guerreiras da humanidade. N&atilde;o, tradicionais guerreiros armados. No caso, as armas s&atilde;o alimentos produzidos sem veneno, respeitando os princ&iacute;pios fundamentais dos sistemas naturais, n&atilde;o degradando o solo, aniquilando matas na beira dos rios ou no interior das terras, conservando as diversas formas de vida e, principalmente, conseguindo sobreviver. Mesmo sendo considerados os pobres do mundo. As estat&iacute;sticas da ONU sempre apontam o um bilh&atilde;o de pessoas que passam fome, concentradas basicamente em sete pa&iacute;ses &ndash; Bangladesch, Indon&eacute;sia, Eti&oacute;pia, &Iacute;ndia e China, os principais. Tamb&eacute;m registra as popula&ccedil;&otilde;es que n&atilde;o tem saneamento b&aacute;sico, atinge um n&uacute;mero superior a 2,5 bilh&otilde;es. Em 1974, uma comiss&atilde;o de pesquisadores e autoridades mundiais previa que era poss&iacute;vel acabar com a mis&eacute;ria em uma d&eacute;cada.<\/p>\n<p> Em 1996, a ONU decidiu estabelecer uma meta menos ambiciosa: reduzir o n&uacute;mero pela metade at&eacute; 2015. Faltam tr&ecirc;s anos, e a percentagem dos famintos n&atilde;o caiu dos quase 15% da popula&ccedil;&atilde;o mundial. Em 2001, a FAO, organismos da ONU para agricultura e alimenta&ccedil;&atilde;o, previu que demoraria 60 anos, seguindo o ritmo atual, para acabar com a fome no mundo. &Eacute; tamb&eacute;m conhecida a pol&iacute;tica expansionista do modelo agroindustrial mundial, que prev&ecirc; necessidade de aumentar a produ&ccedil;&atilde;o em at&eacute; 60%, em face do aumento populacional &ndash; para nove bilh&otilde;es em 2050.<\/p>\n<p> Significaria, seguindo o mesmo racioc&iacute;nio, um aumento de mais 120 milh&otilde;es de hectares, uma &aacute;rea equivalente ao dobro do que os Estados Unidos plantam hoje &ndash; 64 milh&otilde;es de hectares. A pergunta &eacute; &oacute;bvia: como ser&aacute; a expans&atilde;o? No modelo industrial, seguindo o coquetel de qu&iacute;micos (fertilizantes), conforme a previs&atilde;o dos cart&eacute;is do agroneg&oacute;cio a venda de fertilizantes aumentar&aacute; de 120 milh&otilde;es de toneladas para 180, em 2020. <\/p>\n<p> Mais os agrot&oacute;xicos, conforme previs&atilde;o da Syngenta, maior fabricante mundial, o mercado dever&aacute; crescer de US$70 para US$200 bilh&otilde;es at&eacute; 2025. O faturamento do pr&oacute;prio grupo dever&aacute; saltar de US$11,6 bilh&otilde;es para US$17 bilh&otilde;es, crescimento de 46%. Inclui semente e agrot&oacute;xico, na verdade &eacute; quase a mesma coisa. A planta j&aacute; cont&eacute;m o veneno, n&atilde;o sobrevive, nem cresce, sem o outro. <\/p>\n<p> Portanto, no manual das sete irm&atilde;s agroqu&iacute;micas &ndash; Basf, Bayer, Dupont, Syngenta, Monsanto, entre elas-, n&atilde;o h&aacute; nenhuma previs&atilde;o de mudan&ccedil;a em suas posturas. Muito pelo contr&aacute;rio, a Monsanto, l&iacute;der mundial em venda de sementes transg&ecirc;nicas, tem comprado empresas na &aacute;rea de hortali&ccedil;as, desde 2005. Muito menos o cartel dos processadores e compradores de gr&atilde;os, reduzidos a quatro grandes grupos &ndash; ADM, Cargill, Bunge e Dreyfus, duas delas, Cargill e Dreyfus ainda sob controle dos herdeiros dos fundadores.<\/p>\n<p> Claro, o mundo precisa de 2,3 bilh&otilde;es de toneladas de gr&atilde;os, contando milho, trigo e arroz, as tr&ecirc;s mais produzidas, e depois soja, em menor escala, usada, no modelo industrial, como ra&ccedil;&atilde;o para o gado europeu, galinhas e porcos na China. Tamb&eacute;m no Brasil, que &eacute; o segundo maior produtor mundial, e deve chegar a 80 milh&otilde;es de toneladas, no pr&oacute;ximo ano. Mas n&atilde;o s&atilde;o para a boca do bilh&atilde;o de famintos, 75% vivendo na zona rural. O &iacute;ndice de &ldquo;inseguran&ccedil;a alimentar&rdquo;, usando o termo do momento, &eacute; 9,3% no nordeste, enquanto a m&eacute;dia no Brasil rural &eacute; 7%e a urbana 4,3%.<\/p>\n<p> Na Am&eacute;rica Latina e Caribe atinge 35%, conforme o estudo recente da FAO. N&atilde;o &eacute; uma coincid&ecirc;ncia: a Am&eacute;rica Latina produz metade da soja mundial, Brasil e Argentina s&atilde;o especialistas na produ&ccedil;&atilde;o de alimentos, mas o povo que n&atilde;o come, mora ao lado. Acontece que o poder dominante do agroneg&oacute;cio vende a ideia de que est&aacute; matando a fome do mundo, como se a distribui&ccedil;&atilde;o de alimentos fosse gratuita e generalizada. O que &eacute; uma mentira hist&oacute;rica. As culturas de exporta&ccedil;&otilde;es, como soja, cana, caf&eacute; sempre acabaram com as comunidades tradicionais de agricultores familiares, parceiros, ou trabalhadores rurais que pelo menos mantinham um quintal para plantar o feij&atilde;o, milho, mandioca e algumas verduras, al&eacute;m da cria&ccedil;&atilde;o de pequenos animais, para o sustento da fam&iacute;lia.<\/p>\n<p> O planeta tem uma &aacute;rea de 8,7 bilh&otilde;es de hectares. Dois bilh&otilde;es j&aacute; foram detonados desde a segunda guerra mundial. Est&atilde;o degradados por eros&atilde;o, perda de solo, perda de nutrientes, perda da vegeta&ccedil;&atilde;o e, por &uacute;ltimo, perda de esp&eacute;cies naturais dos ecossistemas. Um hectare de terra do cerrado, por exemplo, tem 150 toneladas de micro-organismos, que se proliferam na mesma quantidade em que morrem. N&atilde;o existe solo sem vida microbiana. As leguminosas, inclusive a soja, que fixam nitrog&ecirc;nio no solo, fazem por interm&eacute;dio de microrrizas, que s&atilde;o associa&ccedil;&otilde;es de fungos e bact&eacute;rias. O nitrog&ecirc;nio faz parte da atmosfera, mas a agricultura usa o nitrog&ecirc;nio processado do petr&oacute;leo, ou do g&aacute;s metano (CH4). <\/p>\n<p> Por isso, o setor agr&iacute;cola &eacute; citado como grande emissor de gases de efeito estufa: pela mudan&ccedil;a no uso do solo, pelo nitrog&ecirc;nio liberado dos fertilizantes, pelo metano liberado pelos animais &ndash; bovinos, segundo invent&aacute;rio do Minist&eacute;rio de Ci&ecirc;ncia e Tecnologia, liberam 170 milh&otilde;es de toneladas por ano. Um boi precisa comer 10% do seu peso vivo de pasto. <\/p>\n<p> O Programa do Meio Ambiente da ONU (PNUMA) calcula que o solo, no planeta, armazena 2,2 trilh&otilde;es de toneladas de CO2, tr&ecirc;s vezes mais do que a quantidade na atmosfera. Tamb&eacute;m j&aacute; anunciou recentemente que 25% da &aacute;rea agr&iacute;cola do mundo est&aacute; degradada pelo uso intensivo da agricultura industrial.<\/p>\n<p> O Brasil tem uma refer&ecirc;ncia dessa degrada&ccedil;&atilde;o. A desertifica&ccedil;&atilde;o, conforme dados do Minist&eacute;rio do Meio Ambiente, j&aacute; atinge 16% do territ&oacute;rio, atingindo 1,3 milh&atilde;o de quil&ocirc;metros quadrados em 1.488 munic&iacute;pios. E mais de 30 milh&otilde;es de brasileiros. As perdas de solo alcan&ccedil;am mais de tr&ecirc;s bilh&otilde;es de toneladas por ano. Al&eacute;m disso, 1.500 bacias hidrogr&aacute;ficas precisam de interven&ccedil;&atilde;o. Somente nos estados de SP, PR, MG e MS foram detectadas 2.250 vo&ccedil;orocas (crateras no meio do campo, na beira de estradas). Uma vo&ccedil;oroca carrega uma tonelada de terra por ano. Em Rondon&oacute;polis (MT), a terra levada pela &aacute;gua para os c&oacute;rregos e afluentes do rio Taquari, empanturraram o rio de areia, e ele perdeu o sentido, literalmente. Espraiou e invadiu outras &aacute;reas. Rondon&oacute;polis &eacute; a sede hist&oacute;ria do Grupo Amaggi. As lavouras engoliram as matas ciliares.<\/p>\n<p> Muito interessante tamb&eacute;m &eacute; o estudo que a UNESCO junto com o WorldWatch Institute apresentou na Rio + 10, num dos cap&iacute;tulos do livro &ldquo;Estado do Mundo&rdquo;, sobre agricultura: mundialmente os agricultores gastam 10 vezes mais fertilizantes hoje (2002) do que em 1950, com um aumento de tr&ecirc;s vezes na produ&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m gastam 17 vezes mais em valores com pesticidas (valores deflacionados), entretanto, as perdas na colheita em consequ&ecirc;ncia de pragas continuam as mesmas. Da&iacute; a conclus&atilde;o:<\/p>\n<p> -&ldquo;Talvez a maior comprova&ccedil;&atilde;o da disfun&ccedil;&atilde;o do nosso sistema alimentar seja o fato dos agricultores como grupo serem as pessoas mais pobres do planeta. Dos cerca de 1,2 bilh&atilde;o ganham um d&oacute;lar por dia, 75% trabalham e vivem nas &aacute;reas rurais da &Aacute;frica, Am&eacute;rica Latina e &Aacute;sia&rdquo;.<\/p>\n<p> S&oacute; para acrescentar mais uma dado do estudo: das sete mil esp&eacute;cies de culturas foram domesticadas pela humanidade, apenas 30 esp&eacute;cies proporcionam 90% do consumo global de calorias, sendo que o milho, trigo e arroz s&atilde;o respons&aacute;veis por mais de 50%.<\/p>\n<p> <strong>A Hist&oacute;ria dos guerreiros<\/strong><\/p>\n<p> -&ldquo; A medida que avan&ccedil;a o modelo exportador avan&ccedil;am tamb&eacute;m o empobrecimento das &aacute;reas rurais afetadas. As popula&ccedil;&otilde;es perdem o controle sobre os cultivos e os alimentos tradicionais. E perdem poder aquisitivo para poder comprar alimentos importados, que inundam os mercados a pre&ccedil;os subsidiados da agricultura dos pa&iacute;ses ricos. Esse processo de neocoloniza&ccedil;&atilde;o dos sistemas alimentares locais n&atilde;o &eacute; uma mera eros&atilde;o da autossufici&ecirc;ncia alimentar. Sup&otilde;e tamb&eacute;m o desaparecimento de um modo de vida e uma cultura&rdquo;. &Eacute; um trecho do trabalho &ldquo;Sistema Agroalimentar Globalizado&rdquo;, de Manuel Delgado Cabeza, do departamento de economia aplicada da Universidade de Sevilha (Espanha).<\/p>\n<p> A partir de 2003-05 terminou a &eacute;poca dos pre&ccedil;os baixos dos alimentos. Chegaram a aumentar 57,1% em 2008, quando aconteceram as revoltas no Haiti, Paquist&atilde;o, M&eacute;xico, Senegal e Bangladesch. O Haiti at&eacute; a d&eacute;cada de 1970 produzia todo o arroz que consumia. Depois, em fun&ccedil;&atilde;o dos empr&eacute;stimos dos organismos internacionais, e a press&atilde;o pela abertura dos mercados, passou a importar arroz dos Estados Unidos, a pre&ccedil;os subsidiados. Em 2008, o Haiti era o terceiro importador de arroz norte-americano. Acabaram com a produ&ccedil;&atilde;o interna do cereal.<\/p>\n<p> No M&eacute;xico aconteceu a mesma coisa com o Nafta e a abertura do milho transg&ecirc;nico americano. O pa&iacute;s plantava 10 mil variedades de milho. Hoje em dia duas ou tr&ecirc;s empresas, s&oacute;cias da Cargill e ADM, casos da Gruma e da Minsa compram todo o milho dos produtores e processam o milho importado. Como o pre&ccedil;o subiu 50%, o povo mexicano tem que comprar p&atilde;o de farinha de trigo, e n&atilde;o a tradicional &ldquo;tortilla&rdquo;. No mesmo per&iacute;odo 1,3 milh&atilde;o de camponeses deixaram suas terras. Foram para a periferia das cidades, ou trabalhar ilegalmente na Calif&oacute;rnia.<\/p>\n<p> Manuel Cabeza tamb&eacute;m relaciona a esquizofrenia do modelo agroindustrial com os n&uacute;meros da obesidade no mundo: 396 milh&otilde;es de obesos e 937 milh&otilde;es com sobrepeso, segundo dados da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial da Sa&uacute;de (OMS). Os americanos consomem em m&eacute;dia 3.830 calorias por dia &ndash; o recomend&aacute;vel &eacute; 2.500 para um adulto. Al&eacute;m disso, nos &uacute;ltimos anos o pa&iacute;s mais poderoso do mundo enfrentou 13 casos nacionais de contamina&ccedil;&atilde;o ou de doen&ccedil;as de origem animal &ndash; contamina&ccedil;&atilde;o em alfaces, tomates, couves, piment&atilde;o enlatados, pepinos e carne. Mais produtos com res&iacute;duos t&oacute;xicos importados da China (alimentos frescos), sem contar os casos de peste su&iacute;na, vaca louca, frango com dioxina, horm&ocirc;nios na cadeia de engorda, ocorridos na Europa.<\/p>\n<p> Na Am&eacute;rica Latina aproximadamente 17 milh&otilde;es de camponeses com suas unidades produtivas ocupam cerca de 60 milh&otilde;es de hectares, corresponde a 34,5% da terra cultivada. S&atilde;o propriedades em m&eacute;dia com 1,8 hectare. A &Aacute;frica tem cerca de 33 milh&otilde;es de pequenos produtores, representam 80% de todas as propriedades da regi&atilde;o. Com m&eacute;dia de dois hectares. Na &Aacute;sia s&atilde;o mais de 200 milh&otilde;es de pequenos produtores de arroz. No Brasil, s&atilde;o mais de quatro milh&otilde;es de unidades da agricultura familiar. <\/p>\n<p> Eles produzem a maior parte do milho, do feij&atilde;o, da mandioca, enfim dos alimentos b&aacute;sicos. &Eacute; a hist&oacute;ria dos pequenos agricultores e agora agricultoras. Na &Iacute;ndia, cerca de 40% das fam&iacute;lias no interior s&atilde;o chefiadas por mulheres. Esses dados s&atilde;o do professor Miguel Altieri, da Universidade da Calif&oacute;rnia. <\/p>\n<p> &ldquo;- Pequenos incrementos nos rendimentos destes agricultores que produzem grande parte dos cultivos b&aacute;sicos a n&iacute;vel mundial t&ecirc;m um maior impacto sobre a disponibilidade de alimentos, em escala local e regional, do que os duvidosos incrementos previstos por corpora&ccedil;&otilde;es em grandes monoculturas manejadas com agrot&oacute;xicos e com sementes geneticamente modificadas.&rdquo;<\/p>\n<p> No mundo tamb&eacute;m existem 37 milh&otilde;es de hectares cultivados com alimentos org&acirc;nicos, sem uso de qu&iacute;micos de qualquer tipo, usando apenas os ensinamentos da agroecologia, onde trabalham 6,5 milh&otilde;es de pessoas. No Brasil s&atilde;o 7,7 milh&otilde;es de hectares com mais de 90 mil estabelecimentos registrados. Esse mundo org&acirc;nico envolve neg&oacute;cios de US$60 bilh&otilde;es.<\/p>\n<p> At&eacute; a d&eacute;cada de 1980, a op&ccedil;&atilde;o de produzir alimentos sem qu&iacute;micos, mas que envolve outros cuidados, era vista como uma alternativa, ou melhor, uma pequena alternativa. Nas &uacute;ltimas tr&ecirc;s d&eacute;cadas os projetos se multiplicaram, as experi&ecirc;ncias se refor&ccedil;aram, o n&uacute;mero de produtos aumentou consideravelmente, e a op&ccedil;&atilde;o alternativa &eacute; uma realidade. N&atilde;o se trata de produzir alimento sem veneno para quem tem dinheiro para comprar, como j&aacute; &eacute; uma moda entre os pa&iacute;ses ricos e mesmo entre a classe m&eacute;dia alta emergente. <\/p>\n<p> <\/span><span style=\"font-size: 10pt; font-family: Tahoma\">Trata-se da realidade de pequenos agricultores e suas fam&iacute;lias, ou fam&iacute;lias chefiadas por agricultoras que tra&ccedil;aram uma nova etapa nos seus projetos. Principalmente: &eacute; uma realidade mundial. Pode ser no semi-&aacute;rido brasileiro, como nos casos descritos num trabalho da Articula&ccedil;&atilde;o Nacional de Agroecologia (ANA), citando a organiza&ccedil;&atilde;o de produtores na Para&iacute;ba, em Pernambuco, na Bahia, ou em Minas Gerais. Ou o caso do MST, que em 2014 completa 30 anos, citando casos do Rio Grande do Sul em 327 assentamentos e mais de 13 mil fam&iacute;lias trabalhando com arroz org&acirc;nico &ndash; marca Terra Livre e fornecendo para a rede P&atilde;o de A&ccedil;&uacute;car -, sementes de hortali&ccedil;as, leite, suco de uva e feij&atilde;o. Produtos comercializados para o Programa de Aquisi&ccedil;&atilde;o de Alimentos ou para o Programa de Merenda Escolar.<\/p>\n<p> Certamente este &eacute; um movimento que a m&iacute;dia brasileira desconhece. O problema, para as elites deste pa&iacute;s, &eacute; que este povo foi se organizando lentamente, com suas pr&oacute;prias for&ccedil;as. Nos &uacute;ltimos anos os canais com o governo federal foram abertos, e os dois programas citados s&atilde;o exemplos disso. Mas tem muito mais coisa acontecendo e que precisa evoluir. A sistematiza&ccedil;&atilde;o de experi&ecirc;ncias da ANA envolve soberania e seguran&ccedil;a alimentar. Mesmo conceito utilizado no vale do Deccan, na &Iacute;ndia, onde cinco mil mulheres trabalham com projetos agroecol&oacute;gicos e de autossufici&ecirc;ncia.<br \/> Uma coisa &eacute; ter um, dois ou tr&ecirc;s d&oacute;lares (ou reais) e comprar comida no armaz&eacute;m ou na bodega mais pr&oacute;xima. A outra &eacute; ter o alimento em casa e poder inclusive, ganhar uns trocados a mais, vendendo o excedente. Ou trocando por outros produtos. Como diz o relato do grupo de Lagoa do Pau Ferro (Ouricuri-PE):<\/p>\n<p> -&ldquo;As fam&iacute;lias t&ecirc;m acesso &agrave; &aacute;gua e aos alimentos em quantidade e qualidade em todas as &eacute;pocas do ano, tendo soberania para escolher o que v&atilde;o plantar e comer. O alimento, inclusive a &aacute;gua, &eacute; entendido como um direito b&aacute;sico de todas as pessoas, sendo isto maior e mais importante que o lucro advindo de sua renda como produto&rdquo;.<\/p>\n<p> O trabalho deles come&ccedil;ou com 200 fam&iacute;lias em 2004 e hoje vendem seus produtos na Cooperativa de Produtores Agroecol&oacute;gicos de Araripe. Trabalham com plantas medicinais, produzem xaropes, sabonetes, e a multimistura usando ingredientes locais, ajudou a combater problemas de verminose e de vis&atilde;o das crian&ccedil;as. No Rio Grande do Sul, na regi&atilde;o de Erechim, norte do estado, os produtores se reuniram na ECOTERRA.<\/p>\n<p> &ldquo;- Com esta cultura produtivista, com o passar dos anos, cada vez mais agricultores est&atilde;o deixando o meio rural e indo para as cidades em busca de uma &lsquo;vida melhor&rsquo;. Ainda existe uma onda forte que s&oacute; a tecnifica&ccedil;&atilde;o total das propriedades poder&aacute; levar a viabiliza&ccedil;&atilde;o dos agricultores, como por exemplo, as integra&ccedil;&otilde;es (aves e su&iacute;nos), chamam de parceria. O sistema exclui a biodiversidade da propriedade levando os agricultores a n&atilde;o produzirem mais para sua autossustenta&ccedil;&atilde;o alimentar e passam a comprar fora sua alimenta&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p> &Eacute; o registro da ECOTERRA que, atualmente, comercializa os produtos em feiras di&aacute;rias na cidade de Erechim e uma regional em Passo Fundo.<\/p>\n<p> <strong>A pamonhada na casa da dona Nen&ecirc;<\/strong><\/p>\n<p> &Eacute; um evento no interior do nordeste, realizada em ocasi&otilde;es especiais, principalmente nas festas juninas. No Polo Sindical da Borborema, envolve mais de 15 munic&iacute;pios no semi-&aacute;rido da Para&iacute;ba, eles usam esse exemplo como encena&ccedil;&atilde;o teatral. A pamonhada come&ccedil;a com o seu Chico indo buscar o milho pontinha, sementes herdadas do av&ocirc;, no ro&ccedil;ado, foi irrigado com &aacute;gua de cisterna, constru&iacute;da com o dinheiro do sistema de microcr&eacute;dito comunit&aacute;rio. Colheram verduras na horta, irrigada com &aacute;gua da barragem subterr&acirc;nea, cultivada usando adubos naturais, enquanto isso, cozinham a galinha de capoeira criada no terreiro, regam as plantas com &aacute;gua da cozinha. O vizinho elogia a diversidade de plantas no quintal e a quantidade de &aacute;rvores no s&iacute;tio. Podiam escolher para cozinhar no almo&ccedil;o feij&atilde;o ou fava. Comeram doce de caju de sobremesa.<\/p>\n<p> Enquanto isso, na casa do seu Jos&eacute; Cosme, no agreste da Borborema &eacute; dia de plantio, mas n&atilde;o h&aacute; semente. Vai comprar fora. A mulher compra &aacute;gua no carro pipa, a filha vai &agrave; bodega comprar cuscuz para o caf&eacute; da manh&atilde;. A terra da fam&iacute;lia &eacute; muito pequena, s&atilde;o obrigados a arrendar um peda&ccedil;o de um fazendeiro. Cada ano fica mais fraca. Para pagar a bodega e a semente a fam&iacute;lia foi obrigada a vender o boi, mas antes espera pelo dinheiro da aposentadoria para comprar um novo bezerro. <\/p>\n<p> A experi&ecirc;ncia da dona Nen&ecirc; representa as inova&ccedil;&otilde;es que mais de quatro mil fam&iacute;lias est&atilde;o realizando desde o ano 2000 na regi&atilde;o da Borborema.<br \/> Um resumo do que o povo do semi-&aacute;rido reivindica: &ldquo;reorienta&ccedil;&atilde;o das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas para fortalecimento da agricultura familiar, garantindo uma pol&iacute;tica agr&iacute;cola que privilegie a&ccedil;&otilde;es de conviv&ecirc;ncia com o semi-&aacute;rido em bases agroecol&oacute;gicas, apoio t&eacute;cnico cont&iacute;nuo e de qualidade, linha de cr&eacute;dito adequada e condi&ccedil;&otilde;es de saneamento b&aacute;sico, eletrifica&ccedil;&atilde;o, educa&ccedil;&atilde;o, sa&uacute;de, moradia e previd&ecirc;ncia social&rdquo;. Atualmente o Polo Sindical da Borborema conta com uma rede de 230 fundos j&aacute; viabilizou a constru&ccedil;&atilde;o de 1.835 cisternas dom&eacute;sticas. Conta com 76 bancos de sementes comunit&aacute;rias que beneficiam diretamente tr&ecirc;s mil fam&iacute;lias. Desde 2004 em parceria com a CONAB foram armazenadas 161 toneladas de variedades locais.<\/p>\n<p> O MST, comemorar&aacute; os 30 anos na Copa do Mundo em 2014, fez um balan&ccedil;o dos 327 assentamentos no Rio grande do sul, em 41 munic&iacute;pios, onde vivem 13.535 fam&iacute;lias. Na regi&atilde;o de Bag&eacute;, munic&iacute;pios de Candiota, Hulha Negra, al&eacute;m de Livramento, Viam&atilde;o e as Miss&otilde;es, 200 fam&iacute;lias trabalham com a produ&ccedil;&atilde;o de sementes em 42 grupos. Na safra de inverno (2011) produziram 10 toneladas de hortali&ccedil;as de 74 variedades, al&eacute;m de 35 toneladas de forrageiras. Na cadeia produtiva do arroz ecol&oacute;gico: 407 fam&iacute;lias, 28 grupos e quatro cooperativas em 12 munic&iacute;pios. Na safra 2011\/12 a previs&atilde;o de colheita era de 285 mil sacas. <\/p>\n<p> Na produ&ccedil;&atilde;o de leite, m&eacute;dia de 35 litros por fam&iacute;lia, 4.400 fam&iacute;lias envolvidas, volume recolhido em Tup&atilde; foi de 5,9 milh&otilde;es de litros, em Hulha Negra e Candiota mais 5,4 milh&otilde;es e em Livramento outros 5,2 milh&otilde;es. A comercializa&ccedil;&atilde;o dos produtos &eacute; feita para os programas PAA e PNAE. Na merenda escolar atendem 255 escolas na regi&atilde;o metropolitana de Porto Alegre, em Livramento em 11 escolas, em Tup&atilde;, o Latic&iacute;nio Santa Maria atende 200 escolas em 11 munic&iacute;pios. A comercializa&ccedil;&atilde;o direta &eacute; realizada em quatro feiras em Canoas, regi&atilde;o metropolitana, cinco feiras em Porto Alegre, duas em Eldorado, duas em Nova Santa Rita e uma em Viam&atilde;o. Uma cooperativa de t&eacute;cnicos com 127 profissionais trabalha no assessoramento, ainda mant&ecirc;m quatro escolas de n&iacute;vel m&eacute;dio e 65 de ensino fundamental. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p>  <!--[if gte mso 9]><xml>  <w_LatentStyles DefLockedState=\"false\" LatentStyleCount=\"156\">  <\/w_LatentStyles> <\/xml><![endif]--><!--[if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\"; \tmso-ansi-language:#0400; \tmso-fareast-language:#0400; \tmso-bidi-language:#0400;} <\/style>\n\n <![endif]--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Najar Tubino Em 2001, a FAO previu que demoraria 60 anos, seguindo o ritmo atual, para acabar com a fome no mundo. 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