{"id":3411,"date":"2012-04-19T11:29:28","date_gmt":"2012-04-19T11:29:28","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2012\/04\/19\/por-que-o-massacre-de-eldorado-dos-carajs-permanecer-impune\/"},"modified":"2017-10-03T13:16:08","modified_gmt":"2017-10-03T13:16:08","slug":"por-que-o-massacre-de-eldorado-dos-carajs-permanecer-impune","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2012\/04\/19\/por-que-o-massacre-de-eldorado-dos-carajs-permanecer-impune\/","title":{"rendered":"Por que o Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s permanecer\u00e1 impune?"},"content":{"rendered":"<p><!-- [if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]--><!-- [if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\";} <\/style>\n\n <![endif]--><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">18 de abril de 2012 <strong><em>Por\u00a0 Leonardo Sakamoto<br \/>\n<\/em><\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">O Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, que matou 19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos ap\u00f3s uma a\u00e7\u00e3o violenta da Pol\u00edcia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, no Sudeste do Par\u00e1, completa 16 anos nesta ter\u00e7a. Duas pessoas foram condenadas por reprimir com morte a manifesta\u00e7\u00e3o: o coronel Mario Colares Pantoja (a 228 anos) e o major Jos\u00e9 Maria Pereira Oliveira (a 154 anos), que estavam \u00e0 frente dos policiais. Eles recorreram em liberdade. No final do m\u00eas passado, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, negou o direito de continuarem nessa condi\u00e7\u00e3o. Agora, n\u00e3o h\u00e1 impedimento para que sejam presos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><!-- [if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]--><!-- [if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\";} <\/style>\n\n <![endif]--><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Alguns v\u00eam na pris\u00e3o de ambos o fim da impunidade do caso \u2013 o que, para dizer o m\u00ednimo, \u00e9 uma vis\u00e3o muito limitada da realidade. Pois, pergunto a voc\u00eas:<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre se faz com duas pessoas?\u00a0<\/strong><br \/>\nOs respons\u00e1veis pol\u00edticos na \u00e9poca, o ent\u00e3o governador Almir Gabriel (que ordenou a desobstru\u00e7\u00e3o da rodovia) e o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica, Paulo C\u00e2mara (que autorizou o uso da for\u00e7a policial), nunca foram processados. Outros 142 policiais militares que participaram da matan\u00e7a foram absolvidos. Isso sem contar que as den\u00fancias de fazendeiros locais que teriam dado apoio para a a\u00e7\u00e3o policial ficaram por isso mesmo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre se faz da noite para o dia?\u00a0<\/strong><br \/>\nSe fossemos contar todos os casos anteriores de sindicalistas, trabalhadores rurais, camponeses, ind\u00edgenas cujos carrascos nunca foram punidos no Par\u00e1, ter\u00edamos o maior post de todos os tempos. Por exemplo, na d\u00e9cada de 80 e 90, os fazendeiros resolveram acabar com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Rio Maria, no Sul do Par\u00e1, e assassinaram uma s\u00e9rie de lideran\u00e7as. Foram a julgamentos, houve condena\u00e7\u00f5es, fuga de pistoleiros, mandantes que viveram em paz at\u00e9 a sua morte natural. A certeza da impunidade pavimenta a tortura e a viol\u00eancia contra trabalhadores e popula\u00e7\u00f5es tradicionais no Par\u00e1.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre solucionado gera filhos?<\/strong><br \/>\nA Justi\u00e7a, quando se refere ao Par\u00e1, tem servido para proteger o direito de alguns mais ricos em detrimento dos que nada t\u00eam. Mudan\u00e7as positivas t\u00eam acontecido, gra\u00e7as \u00e0 sociedade civil, \u00e0 imprensa e a promotores, procuradores e ju\u00edzes que t\u00eam a coragem de fazer o seu trabalho, mesmo com o risco de uma bala atravessar o seu caminho. Mas tudo isso \u00e9 muito pouco diante do not\u00f3rio fracasso em garantir a dignidade daqueles que lutam com melhores condi\u00e7\u00f5es de vida at\u00e9 o presente momento. Praticamente toda a semana, uma lideran\u00e7a social \u00e9 morta na Amaz\u00f4nia. Algumas s\u00e3o mais conhecidas e ganham m\u00eddia nacional e internacional, mas a esmagadora maioria passa como an\u00f4nimos e s\u00e3o velados apenas por seus companheiros. Al\u00e9m da import\u00e2ncia do trabalho de Maria e Z\u00e9 Cl\u00e1udio, lideran\u00e7as extrativistas de Nova Ipixuna assassinadas no ano passado, a morte deles ocorreu no dia de vota\u00e7\u00e3o do novo C\u00f3digo Florestal na C\u00e2mara dos Deputados, o que contribuiu em dar visibilidade ao crime. E aqueles que morrem em dias de jogos da Copa do Mundo em que n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m prestando aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre ocorre aleatoriamente?<\/strong><br \/>\nAs mortes no campo s\u00e3o resultado de um modelo de desenvolvimento concentrador, excludente, que privilegia o grande produtor e a monocultura, em decorr\u00eancia ao pequeno e o m\u00e9dio. Que explora m\u00e3o-de-obra de uma forma n\u00e3o-contratual, chegando ao limite da escravid\u00e3o contempor\u00e2nea, a fim de facilitar a concorr\u00eancia em cadeias produtivas cada vez mais globalizadas. Que fomenta a grilagem de terras e a especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, at\u00e9 porque tem muita gente gra\u00fada e de sangue azul que se beneficia com as terras esquentadas e prontas para o uso. Que muito antes da \u00e9poca dos verde-oliva j\u00e1 considerava a regi\u00e3o como um \u201cimenso deserto verde\u201d a ser conquistado \u2013 como se o pessoal que l\u00e1 morasse e de l\u00e1 dependesse fossem meros fantasmas. Que est\u00e1 pouco se importando com o respeito \u00e0s leis ambientais, porque o pa\u00eds tem que crescer r\u00e1pido, passando por cima do que for. Tudo com a nossa anu\u00eancia, uma vez que consumimos os produtos de l\u00e1 alegres e felizes com nossa ignor\u00e2ncia, elogiando algumas marcas e empresas que \u2013 ao contr\u00e1rio de n\u00f3s \u2013 n\u00e3o est\u00e3o imersas em ignor\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre \u00e9 um fato isolado?<\/strong><br \/>\nDe acordo com a Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, apenas nas regi\u00f5es Sul e Sudeste do Par\u00e1, h\u00e1 cerca de 50 pessoas marcadas para morrer devido a conflitos rurais. Ali\u00e1s, se tivesse sido aprovado no plebiscito, o Estado de Caraj\u00e1s \u2013 onde fica Eldorado \u2013 nasceria como o mais violento da na\u00e7\u00e3o \u2013 um t\u00edtulo edificante. Entre 1971 e 2007, foram 819 pessoas mortas em fun\u00e7\u00e3o de disputas por terra no Estado. Conta-se nos dedos de uma m\u00e3o os punidos ap\u00f3s condena\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre, como um raio, n\u00e3o cai duas vezes no mesmo lugar?<\/strong><br \/>\nEm novembro de 2009, quase ocorreu uma trag\u00e9dia na \u201cCurva do S\u201d, local onde 19 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados. Policiais amea\u00e7aram ir para cima de mais de mil trabalhadores ligados ao MST durante uma manifesta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica. Faltou pouco, muito pouco. \u00c0 frente, o delegado Raimundo Benassuly, que ficou conhecido nacionalmente por tentar justificar que uma adolescente de 15 anos colocada em uma cela cheia de presos no Par\u00e1 era a culpada pelo epis\u00f3dio. Relembrando: segundo ele, a menina \u201ccertamente tem alguma debilidade mental porque em nenhum momento informou ser menor de idade\u201d. Foi afastado, mas depois voltou ao cargo. Como disse o ultrapassado Marx, \u201ca hist\u00f3ria se repete, a primeira vez como trag\u00e9dia e a segunda como farsa\u201d.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong>Um massacre por policiais \u00e9 responsabilidade do poder p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nA pergunta \u00e9: quem comanda o qu\u00ea? H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o carnal que se estabelece entre o p\u00fablico e o privado na regi\u00e3o amaz\u00f4nica. O detentor da terra exerce o poder pol\u00edtico, atrav\u00e9s de influ\u00eancia econ\u00f4mica e da coer\u00e7\u00e3o f\u00edsica. \u00c9 freq\u00fcente, por exemplo, encontrar policiais que fazem bicos como jagun\u00e7os de fazendas. Em outros casos, as tropas p\u00fablicas estiveram diretamente a servi\u00e7o de particulares. Sabe qual a chance de trabalhadores rurais que solicitam a destina\u00e7\u00e3o de terras griladas para a reforma agr\u00e1ria ou de comunidades tradicionais que exijam a devolu\u00e7\u00e3o de terras roubadas terem o mesmo sucesso que grandes propriet\u00e1rios que pedirem a desocupa\u00e7\u00e3o de terras? Anos atr\u00e1s, grandes propriet\u00e1rios rurais e suas entidade patronais chegaram a demandar interven\u00e7\u00e3o federal no Par\u00e1 uma vez que o poder p\u00fablico local n\u00e3o estava sendo c\u00e9lere \u2013 em sua opini\u00e3o, claro \u2013 para garantir reintegra\u00e7\u00f5es de posse de terras (muitas das quais, com s\u00e9rios ind\u00edcios de grilagem). Se fossem trabalhadores pedindo isso, o ato seria encarado como um levante comunista.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Pegue mat\u00e9rias sobre assassinatos no campo no Par\u00e1 e no Brasil. Ver\u00e1 que \u00e9 s\u00f3 trocar o nome dos mortos, do munic\u00edpio (\u00e0s vezes, nem isso) e onde foi a emboscada para serem a mesma mat\u00e9ria de antes. As mesmas desculpas do governo, os mesmos planos de a\u00e7\u00e3o parecidos, as mesmas reclama\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra, os mesmos grupos sendo criados para debater e encontrar solu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Pode-se prender um ou dois. Mas as condi\u00e7\u00f5es que fizeram Eldorado dos Caraj\u00e1s est\u00e3o a\u00ed produzindo v\u00edtimas. De novo. E de novo. E de novo\u2026<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">Quando algu\u00e9m conseguir dar uma resposta decente a essas indaga\u00e7\u00f5es, considerarei que o massacre n\u00e3o acabou impune. At\u00e9 l\u00e1, vou vendo a hist\u00f3ria feito carrossel, conduzida pelo giro dos tambores de rev\u00f3lveres, acompanhada pelo barulho seco de corpos caindo na terra batida ou no asfalto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>18 de abril de 2012 Por\u00a0 Leonardo Sakamoto O Massacre de Eldorado dos Caraj\u00e1s, que matou 19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos ap\u00f3s uma a\u00e7\u00e3o violenta da Pol\u00edcia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, no Sudeste do Par\u00e1, completa 16 anos nesta ter\u00e7a. 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