{"id":3337,"date":"2010-09-04T23:41:37","date_gmt":"2010-09-04T23:41:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2010\/09\/04\/a-questo-agraria-no-brasil-entrevista-com-prof-paulo-alentejano\/"},"modified":"2017-10-02T21:35:08","modified_gmt":"2017-10-02T21:35:08","slug":"a-questo-agraria-no-brasil-entrevista-com-prof-paulo-alentejano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2010\/09\/04\/a-questo-agraria-no-brasil-entrevista-com-prof-paulo-alentejano\/","title":{"rendered":"A quest\u00e3o agraria no Brasil. Entrevista com prof. Paulo Alentejano-"},"content":{"rendered":"<p>30 de agosto<\/p>\n<p><font face=\"&#39;PrimaSans BT,Verdana,sans-serif&#39;\"><span><font face=\"Arial\" size=\"2\"><font size=\"3\"><font face=\"Times New Roman\">A  QUEST&Atilde;O AGRARIA NO BRASIL<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/templates\/interna\/images\/pontilhado_news.jpg\" alt=\"\" width=\"417\" height=\"1\" \/> &nbsp; <\/font><\/font> <\/p>\n<p>O ge&oacute;grafo <strong>Paulo Alentejano<\/strong>, professor da Universidade do  Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Escola Polit&eacute;cnica de Sa&uacute;de Joaquim  Ven&acirc;ncio (EPSJV\/Fiocruz),&nbsp; conta nesta entrevista como o limite do tamanho  da propriedade rural no Brasil pode reduzir a desigualdade no campo. Ao  contr&aacute;rio do que os opositores da medida fazem parecer, ele explica por que a  proposta n&atilde;o &eacute; radical e como outros pa&iacute;ses j&aacute; limitaram o tamanho das fazendas,  inclusive implementando reformas agr&aacute;rias. Segundo o pesquisador, nenhum projeto  de reforma agr&aacute;ria foi colocado em pr&aacute;tica em toda a hist&oacute;ria do Brasil.<\/p>\n<p><\/font><\/span><\/font> <\/p>\n<p><font face=\"&#39;PrimaSans BT,Verdana,sans-serif&#39;\"><span><font face=\"Arial\" size=\"2\"><\/p>\n<p>A entrevista &eacute; de&nbsp;<strong>Raquel J&uacute;nia<\/strong> e publicada pelo s&iacute;tio  da <strong>Escola Polit&eacute;cnica de Sa&uacute;de Joaquim Ven&acirc;ncio<\/strong>, Fiocruz,  30-08-2010.<\/p>\n<p><strong>Eis a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Qual &eacute; o quadro brasileiro em termos de concentra&ccedil;&atilde;o  fundi&aacute;ria?<\/strong><\/p>\n<p>A concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra no Brasil &eacute; algo n&atilde;o apenas  persistente como crescente. O Brasil est&aacute; entre os pa&iacute;ses com maior grau de  concentra&ccedil;&atilde;o, seja pelos dados do IBGE, seja pelos dados do Incra. O  <strong>IBGE<\/strong> trabalha com a categoria&nbsp; de &lsquo;estabelecimentos  agropecu&aacute;rios&rsquo;, que leva em considera&ccedil;&atilde;o a unidade gest&atilde;o, enquanto o Incra leva  em considera&ccedil;&atilde;o o documento de propriedade, trabalhando com im&oacute;veis. Pelo IBGE,  a compara&ccedil;&atilde;o &eacute; que a parcela dos maiores estabelecimentos, com mais de mil  hectares, que s&atilde;o menos de 1% do total, tem 44% das terras, enquanto os menores  estabelecimentos, que s&atilde;o 47% do total, somam apenas 2,36%. Ao se tomar como  base os dados do Incra de im&oacute;veis rurais no cadastro de 2003, isso n&atilde;o &eacute; muito  diferente &ndash; a grande maioria dos im&oacute;veis tem menos de 10 hectares, mas ocupam a  menor &aacute;rea.. Pelo <strong>Incra<\/strong> os dados mostram que propriedades com  menos de 10 hectares s&atilde;o 31,8% do total e ocupam s&oacute; 1,8% das terras  agr&iacute;colas&nbsp;&nbsp; Os im&oacute;veis com mais de cinco mil hectares s&atilde;o apenas 0,2%  do total e tem 13% das terras .<\/p>\n<p><strong>E historicamente, como o pa&iacute;s chegou a esta situa&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>Esta hist&oacute;ria se inicia sem d&uacute;vida j&aacute; com o processo da coloniza&ccedil;&atilde;o, quando,  atrav&eacute;s das chamadas Sesmarias, se distribui o controle da terra para poucos  amigos do rei de Portugal. Eles passam a ter o direito de explorar a terra, mas  tamb&eacute;m a responsabilidade sobre o controle pol&iacute;tico do territ&oacute;rio, em um sistema  que articula economia e pol&iacute;tica. H&aacute; a explora&ccedil;&atilde;o da terra, via explora&ccedil;&atilde;o do  trabalho escravo, e tamb&eacute;m controle pol&iacute;tico sobre o territ&oacute;rio, para que outras  pot&ecirc;ncias estrangeiras n&atilde;o viessem se apoderar disso. Ent&atilde;o, h&aacute; j&aacute; no in&iacute;cio da  coloniza&ccedil;&atilde;o o estabelecimento do latif&uacute;ndio, que se reafirma em 1850 com a  <strong>Lei de Terras<\/strong>. A lei transforma a terra numa mercadoria e, ao  dizer que as pessoas s&oacute; podem ter acesso &agrave; terra&nbsp; na medida em que t&ecirc;m  recursos para compr&aacute;-la, alija os escravos que est&atilde;o em processo de liberta&ccedil;&atilde;o,  os imigrantes que v&atilde;o vir para substituir os escravos, os homens livres e  pobres. Mant&eacute;m-se o monop&oacute;lio da terra e a concentra&ccedil;&atilde;o ap&oacute;s a <strong>Lei de  Terras<\/strong> e ao longo de toda a hist&oacute;ria do s&eacute;culo XX. E agora, no s&eacute;culo  XXI, as sucessivas tentativas de realizar a reforma agr&aacute;ria no Brasil foram  barradas pelo poder pol&iacute;tico do latif&uacute;ndio. Isso, inclusive, se acentua nos  &uacute;ltimos anos em fun&ccedil;&atilde;o do car&aacute;ter da moderniza&ccedil;&atilde;o que se deu na agricultura  brasileira a partir dos anos 1970. Essa moderniza&ccedil;&atilde;o vem refor&ccedil;ar a  concentra&ccedil;&atilde;o,&nbsp; na medida em que aumenta a capacidade produtiva com a  expuls&atilde;o cada vez maior de trabalhadores da terra. Portanto, h&aacute; uma persist&ecirc;ncia  hist&oacute;rica da concentra&ccedil;&atilde;o da terra no Brasil que se refaz e se refor&ccedil;a at&eacute; o  momento pela incapacidade de os movimentos sociais&nbsp; transporem essas  barreiras pol&iacute;ticas e de moderniza&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica.<\/p>\n<p><strong>Voc&ecirc; considera que o Brasil em algum momento tentou ou colocou em  pr&aacute;tica algum projeto de reforma agr&aacute;ria?<\/strong><\/p>\n<p>O momento que chegou mais pr&oacute;ximo disso foi antes do golpe [civil-militar] de  1964. Naquele momento existia uma mobiliza&ccedil;&atilde;o muito forte no campo, as  <strong>Ligas Camponesas<\/strong>, a<strong> Uni&atilde;o dos Trabalhadores da  Agricultura-ULTABs<\/strong>, o <strong>Movimento dos Agricultores sem  Terra<\/strong> (<strong>M&aacute;ster<\/strong>), havia uma diversidade grande de  movimentos sociais rurais naquele momento, com uma articula&ccedil;&atilde;o importante  naquela hist&oacute;ria. E havia tamb&eacute;m por parte do governo <strong>Jo&atilde;o  Goulart<\/strong> uma aposta na possibilidade da reforma agr&aacute;ria como parte das  reformas de base. Entretanto, as for&ccedil;as conservadoras mais uma vez acabaram por  triunfar. Jo&atilde;o Goulart anunciou em com&iacute;cio na <strong>Central do  Brasil<\/strong>, no dia 13 de mar&ccedil;o de 1964, a desapropria&ccedil;&atilde;o das terras  localizadas nas imedia&ccedil;&otilde;es das rodovias e ferrovias federais. Menos de um m&ecirc;s  depois&nbsp; houve o golpe militar, em 1&ordm; de abril, e uma das raz&otilde;es  fundamentais&nbsp; foi justamente a rea&ccedil;&atilde;o &agrave; proposta de reforma agr&aacute;ria no  Brasil. De l&aacute; para c&aacute; isso se repetiu muitas vezes: quando h&aacute; uma for&ccedil;a maior  dos movimentos, h&aacute; regress&atilde;o do processo pela rea&ccedil;&atilde;o conservadora. Isso  aconteceu em 1964, aconteceu com a Nova Rep&uacute;blica, quando <strong>Tancredo  Neves<\/strong> e a&nbsp;<strong>Confer&ecirc;ncia&nbsp;Nacional dos Bispos do  Brasil<\/strong> constru&iacute;ram o primeiro plano nacional de reforma agr&aacute;ria e a  <strong>UDR<\/strong> [<strong>Uni&atilde;o Democr&aacute;tica Ruralista<\/strong>] reagiu  fortemente, esvaziando o plano, e, depois, na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988, quando a  luta pela reforma agr&aacute;ria tamb&eacute;m foi esvaziada. Imaginava-se que o  <strong>governo Lula<\/strong> iria efetivar a reforma agr&aacute;ria,&nbsp;  construiu-se a perspectiva do segundo plano nacional de reforma agr&aacute;ria e, mais  uma vez, a for&ccedil;a do agroneg&oacute;cio&nbsp; se contrap&ocirc;s com a justificativa de que  tem uma import&acirc;ncia enorme para a balan&ccedil;a comercial. E a&iacute; se desconstruiu  novamente a possibilidade da reforma. Ent&atilde;o,&nbsp;reafirmou-se a todo momento  este esvaziamento da reforma agr&aacute;ria. Quando os movimentos colocam na pauta as  for&ccedil;as conservadoras se rearticulam e impedem que ela se efetive.<\/p>\n<p><strong>E h&aacute; experi&ecirc;ncias em outras partes do mundo que tenham implementado  propostas de reforma agr&aacute;ria que deram certo?<\/strong><\/p>\n<p>Podemos falar isso em movimentos que foram conduzidos na l&oacute;gica da  moderniza&ccedil;&atilde;o capitalista, como &eacute; o caso dos Estados Unidos, que impuseram o  processo na &Aacute;sia no final da Segunda Guerra Mundial &#8211; inclusive estabelecendo  limite para o tamanho da propriedade da terra no Jap&atilde;o, na Cor&eacute;ia do Sul e em  Taiwan. Na Am&eacute;rica Latina houve processos diferenciados e amplos de reforma  agr&aacute;ria, alguns a partir da base, da mobiliza&ccedil;&atilde;o popular &#8211; o caso do M&eacute;xico &eacute; o  mais emblem&aacute;tico, mas h&aacute; tamb&eacute;m o da Nicar&aacute;gua &#8211;&nbsp; e outras&nbsp; propostas  de natureza reformista, como no Peru, no Chile ena Bol&iacute;via, em v&aacute;rios momentos  hist&oacute;ricos. A reforma agr&aacute;ria surge no mundo como uma medida de desenvolvimento  do capitalismo e em outros casos foi associada a processos revolucion&aacute;rios, que  &eacute; o caso da Uni&atilde;o Sovi&eacute;tica, da China, de Cuba e outras situa&ccedil;&otilde;es sui generis.  Ent&atilde;o, a reforma agr&aacute;ria &eacute; algo que ao longo dos &uacute;ltimos 200 anos ocorre muitas  vezes, em muitos pa&iacute;ses, com muitos sentidos e situa&ccedil;&otilde;es diferenciadas.N&atilde;o h&aacute;  uma regra &uacute;nica&nbsp; para esse processo.<\/p>\n<p><strong>A reforma agr&aacute;ria n&atilde;o &eacute; ent&atilde;o algo necessariamente radical, como  fazem parecer ser?<\/strong><\/p>\n<p>N&atilde;o, em alguns casos ela foi exatamente um processo de moderniza&ccedil;&atilde;o  capitalista. Ali&aacute;s, na d&eacute;cada de 1960, o governo <strong>Kennedy<\/strong>, nos  Estados Unidos, formula na chamada <strong>Alian&ccedil;a para o Progresso<\/strong> a  ideia de que era preciso fazer reforma agr&aacute;ria na Am&eacute;rica Latina para conter  processos mais amplos &agrave; semelhan&ccedil;a do de Cuba. Ent&atilde;o, inclusive, h&aacute; uma  constru&ccedil;&atilde;o da reforma agr&aacute;ria como uma medida anti-revolucion&aacute;ria. No Brasil,  nada disso se concretizou, nem sequer reformas agr&aacute;rias t&iacute;midas pontuais,  anti-socialistas ou anti-revolucion&aacute;rias. Na verdade sempre foram obstaculizadas  pelas for&ccedil;as do latif&uacute;ndio que n&atilde;o abrem m&atilde;o do monop&oacute;lio da terra. A terra tem  se constitu&iacute;do como um bem econ&ocirc;mico, que significa poder pol&iacute;tico e que d&aacute;  acesso a fundos p&uacute;blicos, este &eacute; um outro elemento fundamental. A terra no  Brasil &eacute; um dos mecanismos de acesso a financiamento e isso &eacute; uma estrat&eacute;gia que  faz com que grandes grupos econ&ocirc;micos sejam grandes propriet&aacute;rios de terra,  embora n&atilde;o sejam exatamente grandes produtores. Hoje no Par&aacute;, por exemplo, o  grupo <strong>Oportunity<\/strong> do <strong>Daniel Dantas<\/strong> tem enormes  extens&otilde;es de terra para pretensos projetos agropecu&aacute;rios como lavagem de  dinheiro, evas&atilde;o de impostos e uma s&eacute;rie de mecanismos que existem tamb&eacute;m do  ponto de vista financeiro e que justificam o controle sobre a terra. <\/p>\n<p><font size=\"1\">(nota do editor: O Banco comprou 56 fazendas que totalizam  aproximadamente 600 mil hectares no sul do Para.&nbsp; Recentemente o conselho  Nacional de Justi&ccedil;a- CNJ, cancelou os titulos de mais de 6 mil fazendeiros no  Par&aacute; que havia se apropriado de milh&otilde;es de hectares de terras publicas de forma  fraudulenta. entre eles havia uma fazenda do Oportunity)<\/font><\/p>\n<p><strong>Essa nova configura&ccedil;&atilde;o que voc&ecirc; descreve com a presen&ccedil;a de grandes  corpora&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m propriet&aacute;rias de terra muda a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as no  campo?<\/strong><\/p>\n<p>Sem d&uacute;vida. Embora o latif&uacute;ndio seja persistente no Brasil, ele tem caras  diferentes ao longo do tempo. O latif&uacute;ndio j&aacute; foi a cara do velho coronel das  oligarquias agr&aacute;rias, do senhor de engenho, e hoje o latif&uacute;ndio, embora exista  tamb&eacute;m assim, tem fundamentalmente a cara de grandes empresas capitalistas,  grandes monop&oacute;lios financeiros, grandes empresas transnacionais e grandes grupos  empresariais brasileiros tamb&eacute;m, que, inclusive, se utilizam de instrumentos  como grilagens de terras para se apropriar das terras p&uacute;blicas, e se utilizam de  trabalho escravo ainda hoje. No ano passado, o Rio de Janeiro foi o estado com o  maior &iacute;ndice de trabalho escravo no Brasil em fun&ccedil;&atilde;o de casos identificados na  usina Santa Cruz, que &eacute; arrendada pelo grupo <strong>J. Pessoa<\/strong>, o maior  grupo usineiro do Brasil. Ent&atilde;o, n&atilde;o estamos falando de um coronel atrasado no  sert&atilde;o, mas de grandes grupos empresariais, que trabalham com trabalho escravo  aqui e alt&iacute;ssima tecnologia l&aacute;. O capital hoje articula as formas mais  desenvolvidas poss&iacute;veis tecnologicamente com as formas mais arcaicas de  explora&ccedil;&atilde;o do trabalho, n&atilde;o h&aacute; contradi&ccedil;&otilde;es desse ponto de vista. Ent&atilde;o, s&atilde;o  interesses extremamente poderosos que existem hoje contra qualquer tipo de  reforma agr&aacute;ria, e por que isso? Porque mesmo o agroneg&oacute;cio dito altamente  produtivo necessita permanentemente de terras novas para sua expans&atilde;o. At&eacute;  porque desgasta profundamente o solo e, desgastando o solo, precisa de novas  terras para se expandir, e se n&atilde;o tiver estoque de terras improdutivas n&atilde;o tem  para onde avan&ccedil;ar e n&atilde;o tem com se recompor. Por isso h&aacute; uma necessidade desses  setores, mesmo os ditos mais desenvolvidos da agricultura brasileira, de  manterem estoques de terras paradas e situa&ccedil;&otilde;es arcaicas de produ&ccedil;&atilde;o. Por que os  empres&aacute;rios n&atilde;o aceitam a atualiza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices de produtividade para  desapropria&ccedil;&atilde;o de terras para reforma agr&aacute;ria, que s&atilde;o de 1975? Porque  necessitam permanecer com estoque de terra parada para que ele possa lan&ccedil;ar m&atilde;o  em algum momento.<\/p>\n<p><font size=\"1\">(nota do editor: O Incra revelou h&aacute; poucos dias que h&aacute;  hoje&nbsp; 130 mil imoveis de propriedade de empresas capitalistas que compraram  terras e que controlam nada menos od que 177 milhoes de ha)<\/font><\/p>\n<p><strong>Esta proposta de atualiza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices de produtividade tamb&eacute;m foi  bastante combatida. Como est&aacute; esta discuss&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>A lei agr&aacute;ria de 1993 estabelece que por decreto interministerial os &iacute;ndices  ser&atilde;o atualizados de tempos em tempos. E quando a lei estipulou os &iacute;ndices, o  fez com base em dados super atrasados, do censo de 1975. Desde o primeiro  <strong>governo Lula<\/strong> existe uma proposta de atualiza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices de  produtividade feita pelo <strong>Minist&eacute;rio do Desenvolvimento Agr&aacute;rio  (MDA<\/strong>), que est&aacute; na mesa do gabinete civil da presid&ecirc;ncia para que seja  assinado. A proposta nunca foi efetivada porque tem que ser um decreto  interministerial e tem que ter assinatura do MDA e tamb&eacute;m do Minist&eacute;rio de  Agricultura, Pecu&aacute;ria e Abastecimento (MAPA), que &eacute; o minist&eacute;rio que representa  os interesses do agroneg&oacute;cio, do latif&uacute;ndio, da grande propriedade da terra no  Brasil. Os sucessivos ministros da agricultura sempre negaram acordo para  atualiza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices de produtividade e a for&ccedil;a pol&iacute;tica deles sempre foi a  bancada ruralista, que sempre disse que se houvesse atualiza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices de  produtividade o <strong>governo Lula<\/strong> perderia qualquer apoio deles.  Ent&atilde;o, h&aacute; um processo claro de press&atilde;o pol&iacute;tica da bancada ruralista, que beira  a chantagem, para a n&atilde;o atualiza&ccedil;&atilde;o dos &iacute;ndices de produtividade e o  <strong>governo Lula<\/strong> sucumbiu &agrave; for&ccedil;a pol&iacute;tica destes setores.<\/p>\n<p><strong>E essa proposta atualiza os &iacute;ndices com base em que  dados?<\/strong><\/p>\n<p>Ela utiliza os <strong>Censos Agropecu&aacute;rios<\/strong> de 1995 &#8211; 1996, n&atilde;o  chega nem a utilizar o de 2006, at&eacute; porque a proposta foi feita antes de o Censo  ser liberado, e utiliza tamb&eacute;m os estudos da Embrapa e uma s&eacute;rie de estudos para  fazer a atualiza&ccedil;&atilde;o desses &iacute;ndices. Mesmo utilizando os dados da d&eacute;cada de 1990,  melhoraria substancialmente em rela&ccedil;&atilde;o aos &iacute;ndices de produtividade de 1975. De  l&aacute; para c&aacute;, os &iacute;ndices m&eacute;dios de produtividade subiram substantivamente.<\/p>\n<p><strong>Para al&eacute;m desta discuss&atilde;o do limite e dos &iacute;ndices de produtividade,  existe a proposta de um novo modelo para a agricultura brasileira levantado  pelos movimentos sociais do campo. Quais s&atilde;o as bases deste modelo?<\/strong><\/p>\n<p>A proposta do movimento e de setores que trabalham pr&oacute;ximos aos movimentos do  campo vai em quatro dire&ccedil;&otilde;es fundamentais. A primeira &eacute; a necessidade de romper  com a hist&oacute;rica concentra&ccedil;&atilde;o fundi&aacute;ria, porque isso produz injusti&ccedil;a e  desigualdade. A segunda &eacute; chamar aten&ccedil;&atilde;o para o processo recente de  internacionaliza&ccedil;&atilde;o que a agricultura brasileira vem sofrendo, que se expressa  tamb&eacute;m na compra de terras pelos estrangeiros.&ndash; Parece que agora o governo  tentar&aacute; alguma medida de restri&ccedil;&atilde;o a isso, mas&nbsp; problema n&atilde;o se  resume&nbsp; &agrave; compra de terras. Essa quest&atilde;o passa, por exemplo, pela crescente  domina&ccedil;&atilde;o das empresas transnacionais sobre a agricultura brasileira, impondo um  aporte tecnol&oacute;gico com sementes, agroqu&iacute;micos e a pr&oacute;pria compra da produ&ccedil;&atilde;o  agropecu&aacute;ria que cada vez mais &eacute; controlada&nbsp; pelas grandes empresas  internacionais. A terceira cr&iacute;tica &eacute; que, em fun&ccedil;&atilde;o do latif&uacute;ndio, h&aacute; uma  tend&ecirc;ncia cada vez maior de que se privilegie no Brasil a produ&ccedil;&atilde;o de mat&eacute;rias  primas industriais e produtos para exporta&ccedil;&atilde;o, que interessam aos grandes grupos  estrangeiros, e n&atilde;o a alimenta&ccedil;&atilde;o da popula&ccedil;&atilde;o brasileira. <\/p>\n<p>Cada vez mais tem se ampliado no Brasil a produ&ccedil;&atilde;o de soja, de milho, de cana  de a&ccedil;&uacute;car, monoculturas de eucalipto e de pinho para produzir celulose, contra a  &aacute;rea destinada &agrave; produ&ccedil;&atilde;o de arroz, de feij&atilde;o, dos alimentos b&aacute;sicos. &Eacute; um  modelo produtivo que atende a interesses externos e n&atilde;o &agrave;quilo que seria  fundamental para ampliar a seguran&ccedil;a alimentar da popula&ccedil;&atilde;o brasileira. E o  quarto elemento fundamental &eacute; que este modelo agr&aacute;rio vem acompanhado de uma  l&oacute;gica da viol&ecirc;ncia, que expulsa trabalhadores do campo de forma violenta,  realiza o trabalho escravoe explora altamente o trabalho daqueles poucos que  sobram no campo. Um exemplo &eacute; a situa&ccedil;&atilde;o dos cortadores de cana que, para  competir com as colheitadeiras. t&ecirc;m que aumentar cada vez mais a produtividade  do seu trabalho, e isso implica jornadas cada vez mais exaustivas e problemas de  sa&uacute;de cada vez mais danosos&nbsp; aos trabalhadores. <\/p>\n<p>O outro elemento que tamb&eacute;m &eacute; conseq&uuml;&ecirc;ncia deste modelo &eacute; a devasta&ccedil;&atilde;o  ambiental, o avan&ccedil;o sobre as florestas &#8211; est&aacute; a&iacute; a press&atilde;o toda para se mudar o  <strong>C&oacute;digo Florestal<\/strong> para poder avan&ccedil;ar ainda mais este processo de  desmatamento. E aliado&nbsp; a isso h&aacute; tamb&eacute;m um crescente uso de agroqu&iacute;micos  que fazem do Brasil hoje o campe&atilde;o no uso de agrot&oacute;xicos, com um grau cada vez  mais intenso de contamina&ccedil;&atilde;o dos alimentos que ingerimos. &Eacute; nesse sentido que os  movimentos tem se contraposto a isso com o limite da propriedade da terra, a  proposta da agroecologia como base de uma produ&ccedil;&atilde;o que ao mesmo tempo evite a  devasta&ccedil;&atilde;o e conviva com os ecossistemas de forma mais equilibrada, e,  sobretudo, n&atilde;o use essa enormidade de agrot&oacute;xicos que vem sendo utilizada. Esta  proposta se baseia tamb&eacute;m em rela&ccedil;&otilde;es de trabalho muito mais justas do que as  que est&atilde;o colocadas atualmente.O conjunto desaas coisas &eacute; que est&aacute; colocado como  o contraponto da articula&ccedil;&atilde;o. A cr&iacute;tica a esse modelo agr&aacute;rio dominante se  rebate na defesa de um outro modelo que embasaria a proposta de reforma agr&aacute;ria,  com base na democratiza&ccedil;&atilde;o das condi&ccedil;&otilde;es de vida no campo e na rejei&ccedil;&atilde;o desaas  caracter&iacute;sticas que est&atilde;o postas com este modelo &#8211; viol&ecirc;ncia, superexplora&ccedil;&atilde;o do  trabalho e devasta&ccedil;&atilde;o ambiental.<\/p>\n<p><strong>De acordo com a marca&ccedil;&atilde;o do Incra, propriedades com mais de 15  m&oacute;dulos fiscais s&atilde;o consideradas grandes. Ent&atilde;o, mesmo com a limita&ccedil;&atilde;o em 35  m&oacute;dulos fiscais proposta pelo plebiscito, ainda teremos grandes propriedades no  pa&iacute;s. O que precisa ser esclarecido nesse sentido &agrave; popula&ccedil;&atilde;o?<\/strong><\/p>\n<p>Pela legisla&ccedil;&atilde;o brasileira, im&oacute;veis de um a quatro m&oacute;dulos fiscais s&atilde;o  considerados como pequena propriedade, de cinco a 15 s&atilde;o m&eacute;dia propriedade e,  acima de 15, grande propriedade. E o m&oacute;dulo varia de regi&atilde;o para regi&atilde;o de  acordo com qualidade do solo, clima, infraestrutura, proximidade dos mercados.  Tudo isso influi na defini&ccedil;&atilde;o do m&oacute;dulo fiscal de tal maneira que h&aacute; m&oacute;dulos de  5 hectares, pr&oacute;ximos aos grandes centros, at&eacute; 110 hectares, que &eacute; o maior que  temos no Brasil. Com a proposta do limite em 35 m&oacute;dulos fiscais, o tamanho  variar&aacute; de 175 hectares, pr&oacute;ximo aos grandes centros, o que &eacute; muito, at&eacute; 3.500  hectares em &aacute;reas mais distantes como a Amaz&ocirc;nia. Veja que a proposta n&atilde;o est&aacute;  propondo acabar com a grande propriedade, que &eacute; acima de 15 m&oacute;dulos fiscais,  est&aacute; apenas acabando com as gigantescas &#8211; trata-se de reduzir a desigualdade e  n&atilde;o acabar com ela. Ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; no n&iacute;vel de radicalidade que alguns pa&iacute;ses  fizeram. <\/p>\n<p>H&aacute; pa&iacute;ses no mundo que estabeleceram limites muito mais restritos para a  propriedade da terra, como no Jap&atilde;o, onde o limite &eacute; de 12 hectares, ou na  Cor&eacute;ia do Sul, que &eacute; de tr&ecirc;s hectares. O limite que estamos propondo para o  Brasil chega a 3.500 hectares e isso significa que propriedades do tamanho de  aproximadamente 3.500 campos de futebol poderiam ser permitidas no pa&iacute;s,  variando de regi&atilde;o para regi&atilde;o. &Eacute; uma proposta extremamente eficaz porque,  atingindo apenas 50 mil im&oacute;veis, o que corresponde a 2% dos im&oacute;veis rurais do  Brasil, seria poss&iacute;vel obter 200 milh&otilde;es de hectares para a reforma  agr&aacute;ria.&nbsp; Isso corresponde a quase 40% do total da &aacute;rea dos im&oacute;veis do  Brasil. Portanto, atingindo muito poucos, permitiria-se um avan&ccedil;o muito grande  da reforma agr&aacute;ria, beneficiando muitas popula&ccedil;&otilde;es do campo e da cidade. &Eacute; uma  medida com impacto extremamente positivo do ponto de vista social no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Existe uma dimens&atilde;o da demanda por terra no pa&iacute;s?<\/strong><\/p>\n<p>Existem v&aacute;rias proje&ccedil;&otilde;es em rela&ccedil;&atilde;o a isso. H&aacute; aquelas que trabalham com  n&uacute;mero de fam&iacute;lias acampadas, que seria a demanda mais direta pela terra,&nbsp;  cuja estimativa &eacute; de 150 a 200 mil fam&iacute;lias acampadas. Tem uma estimativa que  toma como base uma proposta do <strong>governo Fernando Henrique<\/strong>, de  cadastro de interessados via correio, que chegou a 800 mil fam&iacute;lias cadastradas.  E&nbsp; h&aacute; dados do <strong>Censo Agropecu&aacute;rio<\/strong> que apontam os que  seriam os assalariados em condi&ccedil;&atilde;o prec&aacute;ria no campo: os arrendat&aacute;rios,  parceiros, de forma geral, os trabalhadores rurais sem terra &#8211; que chegariam a  quatro milh&otilde;es de fam&iacute;lias aproximadamente. Se agregarmos isso ainda a milh&otilde;es  de fam&iacute;lias que foram expulsas do campo e vivem precariamente nas cidades, e  algumas delas podem ter interesse em voltar para a terra, isso poderia chegar a  10 milh&otilde;es de fam&iacute;lias. <\/p>\n<p>H&aacute; variadas possibilidades de mensurar, desde a forma mais direta at&eacute; a mais  indireta. E de fato a medida poderia resolver tranq&uuml;ilamente essa demanda. Neste  sentido, o plebiscito &eacute; muito importante como instrumento de mobiliza&ccedil;&atilde;o, de  conscientiza&ccedil;&atilde;o da sociedade em rela&ccedil;&atilde;o aos seus problemas, assim como os outros  plebiscitos populares, como o da Alca, o da Vale e o da D&iacute;vida Externa. O  objetivo, sobretudo, &eacute; provocar o debate na sociedade sobre a import&acirc;ncia destas  quest&otilde;es. E neste caso, a import&acirc;ncia fundamental que tem a reforma agr&aacute;ria para  o campo e para a cidade, para transformar esta realidade brasileira. <\/p>\n<p>O plebiscito tem dois objetivos fundamentais: o primeiro &eacute;&nbsp; o&nbsp; de  colocar o debate para a sociedade, e o segundo &eacute;, atrav&eacute;s do n&uacute;mero de votos que  se obtiver e das assinaturas que ir&aacute; se recolher neste processo, poder  impulsionar a proposta de emenda constitucional que visa a estabelecer  efetivamente o limite para o tamanho da propriedade no Brasil. N&atilde;o temos ilus&atilde;o  de que isto ser&aacute; uma batalha f&aacute;cil, pelo contr&aacute;rio, mas &eacute; atrav&eacute;s do plebiscito  que se coloca isso mais amplamente para a sociedade, o que&nbsp; pode vir a  gerar a press&atilde;o popular necess&aacute;ria para que isso possa acontecer. De alguma  forma o plebiscito da Alca teve esse efeito, pelo menos tensionou o governo  brasileiro para a quest&atilde;o e demonstrou que havia uma quantidade expressiva de  brasileiros que rejeitava a proposta da  <strong>Alca<\/strong>.<\/p>\n<p><\/font><\/span><\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>30 de agosto A QUEST&Atilde;O AGRARIA NO BRASIL &nbsp; O ge&oacute;grafo Paulo Alentejano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e da Escola Polit&eacute;cnica de Sa&uacute;de Joaquim Ven&acirc;ncio (EPSJV\/Fiocruz),&nbsp; conta nesta entrevista como o limite do tamanho da propriedade rural no Brasil pode reduzir a desigualdade no campo. Ao contr&aacute;rio do que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[6],"class_list":["post-3337","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-publicaciones","tag-articulos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3337","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3337"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3337\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3797,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3337\/revisions\/3797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3337"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3337"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3337"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}