{"id":3318,"date":"2010-05-14T10:58:57","date_gmt":"2010-05-14T10:58:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2010\/05\/14\/entrevista-com-joao-pedro-stedile-sobre-agricultura-e-reforma-agraria-no-jornal-pagina-64\/"},"modified":"2017-10-02T21:35:13","modified_gmt":"2017-10-02T21:35:13","slug":"entrevista-com-joao-pedro-stedile-sobre-agricultura-e-reforma-agraria-no-jornal-pagina-64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2010\/05\/14\/entrevista-com-joao-pedro-stedile-sobre-agricultura-e-reforma-agraria-no-jornal-pagina-64\/","title":{"rendered":"Entrevista com Joao Pedro Stedile, sobre agricultura e reforma agraria.  no Jornal PAGINA 64"},"content":{"rendered":"<p><!--[if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]--> <!--  \/* Font Definitions *\/  @font-face \t{font-family:Tahoma; \tpanose-1:2 11 6 4 3 5 4 4 2 4; \tmso-font-charset:0; \tmso-generic-font-family:swiss; \tmso-font-pitch:variable; \tmso-font-signature:1627421319 -2147483648 8 0 66047 0;}  \/* Style Definitions *\/  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal \t{mso-style-parent:\"\"; \tmargin:0cm; \tmargin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:Tahoma; \tmso-fareast-font-family:\"Times New Roman\";} @page Section1 \t{size:612.0pt 792.0pt; \tmargin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; \tmso-header-margin:36.0pt; \tmso-footer-margin:36.0pt; \tmso-paper-source:0;} div.Section1 \t{page:Section1;} --> <!--[if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\";} <\/style>\n\n <![endif]--><span style=\"font-size: 10pt; font-family: Tahoma\">Projeto de reforma agr&aacute;ria mais avan&ccedil;ada apresentada at&eacute; hoje continua sendo a do governo Jo&atilde;o Goulart. Uma reforma republicana e democr&aacute;tica necess&aacute;ria para o Brasil <\/p>\n<p> Por M&aacute;rio Augusto Jakobskind &#8211; Editor Chefe \/ P&aacute;gina 64<\/p>\n<p> Nesta entrevista exclusiva concedida ao P&aacute;gina 64, o coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais (MST), Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile faz um hist&oacute;rico da luta dos brasileiros em favor da reforma agr&aacute;ria, uma reforma democr&aacute;tica e republicana, anda n&atilde;o executada em todo a sua plenitude no Brasil e que at&eacute; serviu de pretexto para a derrubada do Presidente constitucional Jo&atilde;o Goulart, em 1 de abril de 1964. St&eacute;dile, al&eacute;m de admitir que o projeto de reforma agr&aacute;ria idealizado por Celso Furtado no governo Goulart foi o mais adiantado apresentado at&eacute; hoje e se tivesse sido colocado em pr&aacute;tica transformaria o Brasil tornando um pa&iacute;s fortalecido com o desenvolvimento do mercado interno. O coordenador do MST analisa ainda o atual momento brasileiro e explica o papel que vem sendo desempenhado pelos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, alguns deles fortemente vinculados ao agroneg&oacute;cio, na quest&atilde;o fundi&aacute;ria. St&eacute;dile demonstra otimismo em rela&ccedil;&atilde;o ao Brasil p&oacute;s-Lula, por entender que o pa&iacute;s ingressar&aacute; em um novo ciclo hist&oacute;rico de maior consci&ecirc;ncia das massas e de maior participa&ccedil;&atilde;o, o que ajudar&aacute; na mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade no sentido de resolver os problemas hist&oacute;ricos do povo. <!--[if !supportLineBreakNewLine]--><br \/> <!--[endif]--><\/span><br \/><!--[if gte mso 9]><xml>  <w_WordDocument>   <w_View>Normal<\/w_View>   <w_Zoom>0<\/w_Zoom>   <w_HyphenationZone>21<\/w_HyphenationZone>   <w_Compatibility>    <w_BreakWrappedTables\/>    <w_SnapToGridInCell\/>    <w_WrapTextWithPunct\/>    <w_UseAsianBreakRules\/>   <\/w_Compatibility>   <w_BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4<\/w_BrowserLevel>  <\/w_WordDocument> <\/xml><![endif]--> <!--  \/* Font Definitions *\/  @font-face \t{font-family:Tahoma; \tpanose-1:2 11 6 4 3 5 4 4 2 4; \tmso-font-charset:0; \tmso-generic-font-family:swiss; \tmso-font-pitch:variable; \tmso-font-signature:1627421319 -2147483648 8 0 66047 0;}  \/* Style Definitions *\/  p.MsoNormal, li.MsoNormal, div.MsoNormal \t{mso-style-parent:\"\"; \tmargin:0cm; \tmargin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:Tahoma; \tmso-fareast-font-family:\"Times New Roman\";} @page Section1 \t{size:612.0pt 792.0pt; \tmargin:70.85pt 3.0cm 70.85pt 3.0cm; \tmso-header-margin:36.0pt; \tmso-footer-margin:36.0pt; \tmso-paper-source:0;} div.Section1 \t{page:Section1;} --> <!--[if gte mso 10]> \n\n<style>  \/* Style Definitions *\/  table.MsoNormalTable \t{mso-style-name:\"Tabla normal\"; \tmso-tstyle-rowband-size:0; \tmso-tstyle-colband-size:0; \tmso-style-noshow:yes; \tmso-style-parent:\"\"; \tmso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; \tmso-para-margin:0cm; \tmso-para-margin-bottom:.0001pt; \tmso-pagination:widow-orphan; \tfont-size:10.0pt; \tfont-family:\"Times New Roman\";} <\/style>\n\n <![endif]-->  <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong><span>P&aacute;gina 64 &#8211; Como anda o processo de reforma agr&aacute;ria no pa&iacute;s?<br \/> <\/span><\/strong><span><br \/> Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile; A express&atilde;o reforma agr&aacute;ria gera sempre diferentes interpreta&ccedil;&otilde;es. E cada uma quem interpreta com seu grau de informa&ccedil;&atilde;o. Muita gente no pov&atilde;o influenciado pela televis&atilde;o confunde sempre reforma agr&aacute;ria com conflitos de terra. Reforma agr&aacute;ria &eacute; um programa de pol&iacute;tica p&uacute;blica que determinado governo, em nome da sociedade, atua para democratizar o acesso &agrave; terra a todos os cidad&atilde;os daquela sociedade. E assim, a terra que &eacute; um bem da natureza, &eacute; democratizada, e sua propriedade distribu&iacute;da da melhor maneira poss&iacute;vel entre os membros da sociedade. Portanto, reforma agr&aacute;ria &eacute; sin&ocirc;nimo de democratiza&ccedil;&atilde;o, de desconcentra&ccedil;&atilde;o, de distribui&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra.<br \/> Infelizmente no Brasil nunca houve um processo verdadeiro de reforma agr&aacute;ria. Tanto &eacute; que os &uacute;ltimos dados do censo revelaram que hoje (dados de 2006) a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra no Brasil &eacute; maior do que em 1920, quando rec&eacute;m sa&iacute;amos da escravid&atilde;o.<br \/> Para que os leitores tenham uma ideia, um por cento dos propriet&aacute;rios de terra controlam 46% de todas as terras. E apenas 15 mil fazendeiros que possuem &aacute;reas maiores que dois mil hectares, s&atilde;o donos de 98 milh&otilde;es de hectares.<\/p>\n<p> O Brasil continua sendo o pa&iacute;s do mundo de maior concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra. E, por isso, continua a luta pela terra, continuam se multiplicando movimentos sociais em todo pa&iacute;s, que lutam pela democratiza&ccedil;&atilde;o da terra. E o MST, modestamente procura fazer a sua parte, organizar os pobres do campo, para que tenham consci&ecirc;ncia dos seus direitos e lutem para que a terra seja dividida, como diz inclusive nossa Constitui&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> <strong>P 64 &#8211; Nos &uacute;ltimos tempos o MST tem sido objeto de uma s&eacute;rie de den&uacute;ncias formuladas por ruralistas e com grande divulga&ccedil;&atilde;o nos meios de comunica&ccedil;&atilde;o. Como explica esta razzia? Voc&ecirc; acha que esta ofensiva est&aacute; enfraquecendo o movimento? O MST vem sendo ent&atilde;o desacreditado daquilo que representou no in&iacute;cio. N&atilde;o seria hora de mostrar uma nova pol&iacute;tica de assentamento, deixando um pouco e lado o confronto pela raz&atilde;o pol&iacute;tica da necessidade da reforma agr&aacute;ria?<\/p>\n<p> <\/strong>St&eacute;dile: As elites brasileiras sempre combateram e procuraram impedir que os pobres do campo e da cidade se organizassem para lutar por seus direitos. Em cada per&iacute;odo hist&oacute;rico eles adotam uma t&aacute;tica diferente ou complementar. Lembram-se o que eles faziam durante os 400 anos de escravid&atilde;o? Os trabalhadores que ariscavam fugir eram sumariamente condenados a morte. Ou ent&atilde;o, se pegos em tentativa de fuga, eram sistematicamente torturados, a&ccedil;oitados nos pelourinhos que ainda se encontram nas fazendas por esse mund&atilde;o a fora.<\/p>\n<p> No s&eacute;culo vinte, eles se modernizaram e a&iacute; passaram a adotar a t&aacute;tica, de primeiro tentar cooptar as lideran&ccedil;as. Se isso n&atilde;o funcionar, a&iacute; eles tentam desmoralizar os movimentos inventando qualquer coisa. E se nada disso funcionar, ent&atilde;o eles apelam de novo para a repress&atilde;o, que pode ser judicial, com pris&otilde;es, processos, ou pode mesmo ser f&iacute;sica, com assassinatos e tentativas de assassinato. Vejam que todo ano s&atilde;o assassinados no campo ao redor de 40 trabalhadores, a mando de fazendeiros.<\/p>\n<p> Ent&atilde;o, o MST, nos seus 25 anos de vida, enfrentou todas essas situa&ccedil;&otilde;es. E a cada per&iacute;odo hist&oacute;rico, vamos vendo como as elites v&atilde;o aplicando esses m&eacute;todos contra n&oacute;s. J&aacute; tivemos muitos presos, processos, campanhas difamat&oacute;rias na televis&atilde;o, persegui&ccedil;&atilde;o no legislativo. Vejam, durante o governo Lula eles temiam que a reforma agr&aacute;ria ganhasse &iacute;mpeto, de programa de governo, ent&atilde;o, para inibir o governo e nos atacar criaram tr&ecirc;s Comiss&otilde;es Parlamentares de Inqu&eacute;rito contra n&oacute;s. N&atilde;o registro igual grau de tamanha persegui&ccedil;&atilde;o na historia do legislativo brasileiro, em sete anos, tr&ecirc;s CPI Mista. E assim, tamb&eacute;m usam os instrumentos que eles t&ecirc;m maior hegemonia como o Poder Judici&aacute;rio, onde transformaram o Gilmar Mendes, no porta voz do conservadorismo rural, que chegou a fazer conv&ecirc;nio com a Cofedera&ccedil;&atilde;o Nacional de Agricultura (CNA). Ora, o Judici&aacute;rio tem que estar acima das classes. Imaginem se algum tribunal fizesse conv&ecirc;nio com MST? E o outro instrumento que eles est&atilde;o usando &eacute; a m&iacute;dia, pois a&iacute; t&ecirc;m controle absoluto.<\/p>\n<p> Mas nada disso arrefece nossa vontade de lutar. Enquanto n&atilde;o houver reforma agr&aacute;ria verdadeira no Brasil continuar&atilde;o existindo os pobres do campo, e eles lutar&atilde;o sempre contra as injusti&ccedil;as e a opress&atilde;o. As elites brasileiras s&atilde;o ignorantes e n&atilde;o se deram conta que o que provoca a luta &eacute; a injusti&ccedil;a.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; O epis&oacute;dio da empresa Cutrale, mesmo sendo ao que tudo indica as terras da empresa subtra&iacute;das ilegalmente da Uni&atilde;o, n&atilde;o serviu para indispor o MST com a opini&atilde;o p&uacute;blica?. Qual o papel da Rede Globo nesta hist&oacute;ria? &Egrave; fato que a empresa midi&aacute;tica tem ramifica&ccedil;&otilde;es no mundo do agroneg&oacute;cio?<\/strong> <\/p>\n<p> St&eacute;dile: Claro. O exemplo &eacute; emblem&aacute;tico. A Cutrale faz parte do oligop&oacute;lio que tem controle absoluto do mercado de laranjas no Brasil, juntamente com outras duas empresas. Ela vende 80% do suco para o mercado externo, em associa&ccedil;&atilde;o com a Coca-Cola. A Cutrale invadiu uma fazenda de terras da Uni&atilde;o, que est&atilde;o registradas em cart&oacute;rio e tudo. O Incra (Instituto Nacional de Coloniza&ccedil;&atilde;o e Reforma Agr&aacute;ria) entrou com processo de despejo para reaver as terras. N&oacute;s ent&atilde;o ocupamos aquela fazenda at&eacute; para denunciar a grilagem da empresa. A rea&ccedil;&atilde;o da Globo foi pat&eacute;tica, aliada com o servi&ccedil;o de intelig&ecirc;ncia da PM do governo Jos&eacute; Serra, produziram imagens que repetiram insistentemente para criar uma ojeriza contra o MST. <br \/> A&iacute; est&atilde;o interesses econ&ocirc;micos, pois a Coca-Cola &eacute; um dos maiores anunciantes da Globo, interesses pol&iacute;ticos, que interessava ao governo Serra nos desmoralizar para a opini&atilde;o p&uacute;blica, e interesses ideol&oacute;gicos da classe dominante. N&atilde;o &eacute; por nada que a empresa Globo &eacute; tamb&eacute;m associada a Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Agroneg&oacute;cio. Interessante, n&eacute;? Por que ser&aacute; que uma empresa de televis&atilde;o &eacute; associada a uma entidade de classe do agroneg&oacute;cio? E l&aacute; na associa&ccedil;&atilde;o h&aacute; apenas umas 30 empresas, a maioria transnacionais, como a Monsanto, Bungue, Cargill, a Cutrale, e a Globo. A Globo se transformou na zeladora dos interesses ideol&oacute;gicos do capital instalado no Brasil.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; Ao longo da hist&oacute;ria brasileira, inclusive no imp&eacute;rio, j&aacute; se falava de uma reforma no campo brasileiro. Jos&eacute; Bonif&aacute;cio, patriarca da independ&ecirc;ncia, &eacute; um dos que se preocupou com a quest&atilde;o e falava sobre isso . Enfim, por que at&eacute; hoje a reforma agr&aacute;ria, uma reforma presente na Revolu&ccedil;&atilde;o francesa, n&atilde;o se concretizou no Brasil? <\/p>\n<p> <\/strong>St&eacute;dile: O Brasil perdeu v&aacute;rias oportunidades hist&oacute;ricas de aplicar um programa de reforma agr&aacute;ria que pudesse democratizar a propriedade da terra e criar condi&ccedil;&otilde;es para o desenvolvimento de um modelo econ&ocirc;mico mais justo e igualit&aacute;rio. Quando sa&iacute;mos da escravid&atilde;o, ao contr&aacute;rio de outros pa&iacute;ses que fizeram a reforma agr&aacute;ria, como o caso dos Estados Unidos, em 1862, aqui, a elites fizeram a primeira lei de terras (n. 601 de 1850) para impedir que os trabalhadores escravizados pudessem ter acesso a terra, quando da sua liberta&ccedil;&atilde;o. Perdemos uma segunda oportunidade na Rep&uacute;blica. A Rep&uacute;blica &eacute; a consagra&ccedil;&atilde;o de instala&ccedil;&atilde;o de direitos iguais para toda sociedade. Mas aqui nada se fez depois, na Revolu&ccedil;&atilde;o de 30. A maioria dos pa&iacute;ses industrializados combinou industrializa&ccedil;&atilde;o com distribui&ccedil;&atilde;o de renda e reforma agr&aacute;ria, para criar mercado interno para os bens da ind&uacute;stria. Aqui, as elites organizadas n&atilde;o quiseram fazer reforma agr&aacute;ria, preferiram manter a grande propriedade latifundi&aacute;ria, produzindo para exporta&ccedil;&atilde;o, e usar os d&oacute;lares e libras esterlinas das exporta&ccedil;&otilde;es para pagar as maquinas industriais importadas.<br \/> Quarta oportunidade foi quando esse modelo de industrializa&ccedil;&atilde;o entrou em crise, na d&eacute;cada de 1960. E a&iacute; o governo Goulart apresentou como uma das sa&iacute;das a reforma agr&aacute;ria. Foi derrubado.<\/p>\n<p> Quinta oportunidade, com a redemocratiza&ccedil;&atilde;o, Tancredo Neves tinha convidado o saudoso Jos&eacute; Gomes da Silva, maior especialista da reforma agr&aacute;ria brasileira para ser presidente do Incra. Ele fez o primeiro plano de reforma agr&aacute;ria, que previa assentamento 1, 4 milh&otilde;es de fam&iacute;lias, em quatro anos. Entregou o plano no dia 4 de outubro de 1985 e caiu oito dias depois.<br \/> E a sexta oportunidade perdemos agora com o governo Lula, que preferiu se aliar ao agroneg&oacute;cio, para manter a governabilidade, do que fazer reforma agr&aacute;ria, e adiou mais uma vez. No governo Lula, chegamos ao rid&iacute;culo de termos o Roberto Rodrigues de ministro da Agricultura, quando ele tinha sido convidado para ser antes, ministro do Serra, e tinha feito campanha aberta em favor do Serra.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; Voc&ecirc; que acompanha os movimentos pela reforma agr&aacute;ria ao longo da hist&oacute;ria brasileira pode apontar qual dos projetos apresentados ao povo brasileiro at&eacute; agora pode ser considerado o mais adiantado. E por qu&ecirc;?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: Bem, do ponto de vista hist&oacute;rico, acho que a grande oportunidade perdida, foi n&atilde;o termos entregado terras aos trabalhadores ex-escravos. Eles teriam mudado a forma da sociedade brasileira. Ate 1888, o Brasil e Estados Unidos se equivaliam em produ&ccedil;&atilde;o e economia. Qual &eacute; a causa do salto dos Estados Unidos, que se transformaram em pot&ecirc;ncia mundial? Fizeram uma reforma agr&aacute;ria radical, que imp&ocirc;s o limite m&aacute;ximo da propriedade em 160 acres e distribu&iacute;ram terras para todos.<\/p>\n<p> E do ponto de vista de elabora&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e te&oacute;rica, o melhor projeto que foi feito e que perdemos a oportunidade, foi o projeto preparado pela equipe do Celso Furtado, que era um s&aacute;bio e nordestino, conhecia muito bem os problemas da concentra&ccedil;&atilde;o da terra como causa da pobreza. E ele preparou um projeto, durante o governo Goulart, que para sua &eacute;poca e at&eacute; hoje, teria revolucionado o campo e a sociedade brasileira. Ele recuperou as ideias da Cepal (Comiss&atilde;o Econ&ocirc;mica para a Am&eacute;rica Latina e Caribe), de implementar pol&iacute;ticas de distribui&ccedil;&atilde;o de renda, para gerar mercado interno para a industrial nacional, e assim far&iacute;amos uma industrializa&ccedil;&atilde;o voltada para as massas brasileiras. E nisso a reforma agr&aacute;ria teria um peso fundamental, pois 75% da popula&ccedil;&atilde;o vivia no campo, pobres, sem renda. Com essa concep&ccedil;&atilde;o para um novo projeto de desenvolvimento nacional, sua proposta de reforma agr&aacute;ria, estabelecia a propriedade m&aacute;xima ate 500 hectares. Todas as fazendas acima disso seriam desapropriadas. Mas n&atilde;o em todo pais, apenas ao longo dos 10 quil&ocirc;metros cada lado das rodovias federais. Assim, ele imaginava que os camponeses teriam mais condi&ccedil;&otilde;es de acesso f&aacute;cil para escoar seus produtos ao mercado consumidor das cidades. E no sentido inverso seria mais f&aacute;cil levar luz el&eacute;trica a todos os assentamentos e atr&aacute;s da luz el&eacute;trica, a geladeira, a televis&atilde;o, e os bens da ind&uacute;stria nacional.<br \/> O projeto foi apresentado ao povo dia 13 de mar&ccedil;o de 1964. Foi encaminhado ao Congresso na mesma semana. L&aacute; teve escolhido como relator do projeto do governo um jovem deputado da esquerda crist&atilde;, Pl&iacute;nio de Arruda Sampaio. O resto da hist&oacute;ria voc&ecirc;s j&aacute; conhecem. Dia 1 de abril de 1964, as elites derrubaram o governo Goulart. E Celso Furtado, Pl&iacute;nio, Presidente Goulart, Prestes, Brizola, tiveram que amargar o ex&iacute;lio, e muitos outros pagaram com a vida, ou longos anos de cadeia.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; E hoje, vale a pena desapropriar atrav&eacute;s do Incra enormes &aacute;reas rurais na Amaz&ocirc;nia, Mato Grosso, Rond&ocirc;nia (uma vez que s&oacute; nestes estados se encontram &aacute;reas improdutivas pass&iacute;veis de desapropria&ccedil;&atilde;o), colocando l&aacute; um imenso contingente de pessoas, muitas vezes desempregados urbanos, sem assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica, sem escoamento, sem insumos e sem mercado? N&atilde;o seria mais l&oacute;gico desapropriar nas estradas (Rio-S&atilde;o Paulo, digamos) menos &aacute;rea com tecnologia aplicada? Por exemplo, um piv&ocirc; de 80 hectares, daria para colocar meia. H&aacute; por fam&iacute;lia, somando assim 160 fam&iacute;lias numa agrovila e produzindo 360 dias ao ano verduras e alimentos para duas grandes capitais? E na beira dos a&ccedil;udes federais? Enormes volumes de &aacute;gua, muitas vezes somente produzindo energia el&eacute;trica sem produ&ccedil;&atilde;o alimentar nas suas margens. Como levar a extens&atilde;o agr&aacute;ria a estas enormes &aacute;reas improdutivas, sem condi&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas favor&aacute;veis ao desenvolvimento da produ&ccedil;&atilde;o?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: No Brasil, n&oacute;s n&atilde;o&nbsp;temos atualmente um programa de reforma agr&aacute;ria. N&oacute;s temos uma pol&iacute;tica de assentamentos, para resolver conflitos sociais, ou simplesmente para distribuir terras p&uacute;blicas, j&aacute; ocupadas pelos camponeses na Amaz&ocirc;nia.<br \/> N&atilde;o podemos chamar a pol&iacute;tica do governo Lula, de reforma agr&aacute;ria. Reforma agr&aacute;ria, repito, &eacute; quando a a&ccedil;&atilde;o do governo consegue democratizar a distribui&ccedil;&atilde;o das terras, e impedir a concentra&ccedil;&atilde;o. O que est&aacute; acontecendo &eacute; o contrario. Os assentamentos s&atilde;o apenas conquistas de camponeses teimosos, que lutam, e a&iacute; se geram conflitos e a&iacute; o governo atua como apagador de inc&ecirc;ndio, e ainda, em geral, nas desapropria&ccedil;&otilde;es, os fazendeiros recebem indeniza&ccedil;&otilde;es milion&aacute;rias, que v&atilde;o aplicar em outras regi&otilde;es.<br \/> N&oacute;s precisamos &eacute; construir, debater, com todos os movimentos e for&ccedil;as sociais e pol&iacute;ticas do pa&iacute;s, um novo formato de reforma agr&aacute;ria, que leve em contas as caracter&iacute;sticas regionais, que combine distribui&ccedil;&atilde;o de terras com agroind&uacute;strias cooperativadas. Que mude as t&eacute;cnicas agr&iacute;colas, do uso intensivo de agrot&oacute;xicos, que envenenam os alimentos, para t&eacute;cnicas de agro ecol&oacute;gicas.E que sobretudo levem a escola para o meio rural, como era o sonho de Celso Furtado, Darci Ribeiro e Leonel Brizola.<br \/> Hoje as prefeituras recebem subs&iacute;dios federais para tirar as crian&ccedil;as e adolescentes do meio rural e trazer para as escolas da cidade, gastando horas, dinheiro e desperd&iacute;cio no trajeto. Al&eacute;m do absurdo que &eacute; trazer jovens do campo para outro meio.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; A cria&ccedil;&atilde;o de selos verdes de assentamentos, avisando desta maneira ao p&uacute;blico consumidor que o produto prov&eacute;m de assentamento e por isso com qualidade menor, n&atilde;o &eacute; uma forma de exclus&atilde;o produtiva? Vamos comprar dos coitadinhos que ainda n&atilde;o aprenderam a produzir?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: N&oacute;s temos um enorme mercado interno consumidor de alimentos. &Eacute; uma pena que os fazendeiros e a elite n&atilde;o percebam isso. O maior comprador de alimentos brasileiros, n&atilde;o &eacute; o mercado externo, s&atilde;o os brasileiros. Que se alimentam mal, n&atilde;o t&ecirc;m acesso &agrave; comida etc.<br \/> Os fazendeiros continuam iludidos em vender mat&eacute;rias primas para o exterior, que quem vai ganhar &eacute; a Bungue, a Monsanto etc.<br \/> Ent&atilde;o, para que os camponeses tenham acesso ao mercado interno, podemos desenvolver v&aacute;rias pol&iacute;ticas. J&aacute; disse que precisamos organizar as cooperativas para agroind&uacute;strias, em pequena escala, a ser instaladas em todas as comunidades rurais. E potencializar a Conab, como a grande empresa estatal, de abastecimento, que garante de um lado a compra de todos os produtos dos camponeses e, por outro lado, distribui esses alimentos para a popula&ccedil;&atilde;o das cidades, em especial os segmentos mais pobres.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; A grande maioria dos assentados no Brasil que tiveram acesso ao Pronaf A, B ou C nunca pagaram nem dez por cento da parcela de investimento, sem falar &eacute; claro do custeio, pois n&atilde;o existe produ&ccedil;&atilde;o compat&iacute;vel com o mercado de consumo. &Eacute; assim que deve prosseguir a pol&iacute;tica de desapropria&ccedil;&atilde;o e assentamento<\/strong>? <\/p>\n<p> St&eacute;dile: A pol&iacute;tica de financiamento, de cr&eacute;dito rural, &eacute; apenas secund&aacute;ria, subsidi&aacute;ria de uma pol&iacute;tica agr&iacute;cola mais ampla. A pol&iacute;tica agr&iacute;cola mais ampla do Estado, de um governo deve estar centrada na garantia de pre&ccedil;os e renda aos agricultores. Com pre&ccedil;o e renda todo mundo planta, e h&aacute; garantia de compra desse produto. Da&iacute; a import&acirc;ncia da CONAB. Por outro lado, devemos ter uma pol&iacute;tica de assist&ecirc;ncia t&eacute;cnica, para fomentar novas t&eacute;cnicas agr&iacute;colas, da agroecologia, sem venenos, e uma pol&iacute;tica de seguro agr&iacute;cola, que garanta a todos agricultores que n&atilde;o perder&atilde;o sua safra, ou seja, seu trabalho.<\/p>\n<p> Bem, o credito &eacute; apenas um adiantamento para comprar bens a prazo da ind&uacute;stria. Ele &eacute; necess&aacute;rio, mas n&atilde;o &eacute; o principal. E por isso que dos quatro milh&otilde;es de pequenos agricultores, apenas um milh&atilde;o vai buscar o Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar). Est&aacute; sobrando dinheiro do Pronaf. Porque o pequeno agricultor sabe que n&atilde;o adianta pegar dinheiro emprestado, se ele n&atilde;o tem para quem vender a produ&ccedil;&atilde;o ou os pre&ccedil;os s&atilde;o injustos.<\/p>\n<p> E os pequenos agricultores que pegam dinheiro do banco, a&iacute; ficam martirizados, n&atilde;o dormem, pois sabem que tem que pagar de qualquer maneira, se n&atilde;o, v&atilde;o perder a terra. Por isso que o grau de inadimpl&ecirc;ncia dos pequenos &eacute; no m&iacute;nimo menos de 10%. J&aacute; entre os grandes fazendeiros, a inadimpl&ecirc;ncia chega a mais de 50%, pois eles fazem justamente isso, desviam os investimentos para outras oportunidades e depois negam a conta, e o governo, por press&otilde;es pol&iacute;ticas, n&atilde;o executa.<\/p>\n<p> Se o governo recolhesse em terras os bilh&otilde;es de reais que os grandes propriet&aacute;rios, acima de mil hectares devem para o Banco do Brasil, n&oacute;s poder&iacute;amos s&oacute; a&iacute; fazer a maior reforma agr&aacute;ria do mundo. Nos pr&oacute;ximos governos &eacute; preciso rever a pol&iacute;tica de financiamento p&uacute;blico.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; No caso de Jango, pouco mais de duas semanas depois do an&uacute;ncio do encaminhamento da reforma agr&aacute;ria, o Presidente foi derrubado por um golpe de Estado apoiado pelo Departamento de Estado norte-americano. Segundo muitos analistas, um dos motivos da quebra da ordem constitucional foi exatamente a reforma agr&aacute;ria. Como voc&ecirc; acha que os nossos governantes poder&atilde;o finalmente realizar uma reforma agr&aacute;ria que favore&ccedil;a de fato a agricultura familiar, consequentemente a maioria da popula&ccedil;&atilde;o brasileira? <br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: A reforma agr&aacute;ria &eacute; uma bandeira republicana, democr&aacute;tica. N&atilde;o &eacute; socialista. Socialismo &eacute; quando uma sociedade estabelece que n&atilde;o haver&aacute; mais propriedade privada desse bem da natureza. N&atilde;o estamos falando disso, estamos defendendo a id&eacute;ia de que todos os brasileiros tenham os mesmos direitos. De ter trabalho, renda, escola, e terra.<\/p>\n<p> No Brasil est&aacute; sendo dif&iacute;cil aplicar um direito democr&aacute;tico e republicano, precisamente porque existe uma pequena minoria das elites, aliadas com os pol&iacute;ticos, com as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, com as empresas transnacionais, que concentram maior parte das terras, e, portanto, concentram terra, poder econ&ocirc;mico, poder midi&aacute;tico ativo e poder pol&iacute;tico.<\/p>\n<p> A classe dos propriet&aacute;rios de terra est&aacute; misturada com outros setores. Da&iacute; a dificuldade, e por isso que tamb&eacute;m derrubaram o Presidente Goulart, e n&atilde;o deixaram o Lula fazer reforma agr&aacute;ria.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; Hoje h&aacute; um conflito entre a agricultura familiar e o agroneg&oacute;cio. Quais os interesses que est&atilde;o em jogo? E onde entram as empresas multinacionais neste t&oacute;pico? <br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: O Brasil vive hoje a disputa entre dois grandes projetos de agricultura. De um lado a agricultura voltada para o mercado externo, produtora apenas de mat&eacute;ria prima, sem nenhum valor agregado. Produzida na forma de monocultivo, que destr&oacute;i o equil&iacute;brio do meio ambiente, com alto uso de agrot&oacute;xicos. O Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agr&iacute;colas. Que expulsa a m&atilde;o de obra do campo, pois prefere usar m&aacute;quinas agr&iacute;colas de forma intensiva. E agride o meio ambiente, em todos os sentidos. Al&eacute;m de usar sementes transg&ecirc;nicas, que n&atilde;o d&atilde;o nenhuma seguran&ccedil;a para a sa&uacute;de p&uacute;blica, e causa desequil&iacute;brio ambiental, pois os transg&ecirc;nicos n&atilde;o podem conviver com os produtos naturais, eles contaminam a todos. E esse modelo est&aacute; aliado com as empresas transnacionais, que fornecem os venenos, as maquinas, os insumos, e controlam o mercado mundial e os pre&ccedil;os. Esse &eacute; o modelo do agroneg&oacute;cio. E de outro lado temos o modelo da agricultura familiar e ou camponesa.<\/p>\n<p> Nesse modelo, priorizamos uma agricultura diversificada, que produzem diversos produtos numa mesma &aacute;rea. Em pequenas e m&eacute;dias escalas. Combinando com agroind&uacute;stria cooperativa e produzindo para o mercado interno. Esse tipo de agricultura usa muita m&atilde;o de obra, fixa o homem no campo, defende nossos h&aacute;bitos alimentares e cultura. E desenvolve o pa&iacute;s.<\/p>\n<p> Quando um pequeno e m&eacute;dio agricultor ganha dinheiro ele aplica no seu munic&iacute;pio. Quando um fazendeiro ganha dinheiro ele aplica em apartamento na grande cidade. Muito sintom&aacute;tico que Goi&acirc;nia, capital dos fazendeiros do centro-oeste, tenha sido indicada pela ONU, como a cidade de maior desigualdade de renda do Brasil.<\/p>\n<p> A agricultura familiar em pequena e m&eacute;dia escala &eacute; a &uacute;nica capaz de produzir alimentos sadios. Portanto, &eacute; uma quest&atilde;o de sobreviv&ecirc;ncia da sociedade brasileira. A cidade &eacute; que tem que decidir, se vai continuar comendo porcarias, que v&atilde;o virar c&acirc;ncer, apenas para dar lucro aos fazendeiros e a Bungue, Cargill, Nestl&eacute; etc, ou vai querer uma agricultura mais justa socialmente e equilibrada ambientalmente?<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; Quais as diferen&ccedil;as nos dias atuais da luta pela reforma agr&aacute;ria em rela&ccedil;&atilde;o a outros per&iacute;odos?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: Agora a luta pela reforma agr&aacute;ria est&aacute; mais dura, justamente porque h&aacute; uma grande alian&ccedil;a entre os grandes fazendeiros, com a m&iacute;dia e as empresas transnacionais. Ent&atilde;o eles t&ecirc;m muito poder econ&ocirc;mico e pol&iacute;tico.<br \/> Mas eles s&atilde;o cada vez em menor n&uacute;mero de gente. Mesmo a Cutrale, para virar oligop&oacute;lio da laranja com apenas outras duas empresas, tiveram que destruir milhares de pequenos e m&eacute;dios produtores de laranja de S&atilde;o Paulo. <br \/> Essas contradi&ccedil;&otilde;es v&atilde;o se acumulando e um dia se voltar&atilde;o contra eles.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; A partir de quando voc&ecirc; se tornou um batalhador pela reforma agr&aacute;ria?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: Bem, de forma consciente estou envolvido nessas batalhas, mais ou menos desde 1975, quando comecei a milit&acirc;ncia, na minha regi&atilde;o, ajudando o sindicato de trabalhadores rurais a organizar os produtores de uva, a lutarem contra as empresas que os exploravam.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; Voc&ecirc; esperava mais do atual governo ou acha que ele est&aacute; fazendo o poss&iacute;vel pelo avan&ccedil;o das quest&otilde;es sociais?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: Todo governo &eacute; fruto de uma correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as sociais e pol&iacute;ticas existente na sociedade. Claro que se olharmos para os programas que o PT defendia, o governo Lula, n&atilde;o cumpriu o programa do PT.<\/p>\n<p> Mas por outro lado seria idealismo, apenas esperar as mudan&ccedil;as de uma pessoa, de um governo. O que faz mudan&ccedil;as na sociedade &eacute; a capacidade do povo se organizar e lutar por seus interesses hist&oacute;ricos.<br \/> E, infelizmente, vivemos ainda um per&iacute;odo hist&oacute;rico de descenso do movimento de massas, de apatia das lutas, e, portanto, o governo Lula, esteve envolto por essa correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as desfavor&aacute;veis em que a burguesia aliada com o capital inter nacional continua dando as cartas na luta pol&iacute;tica brasileira.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; O Brasil est&aacute; iniciando uma nova campanha presidencial, desta vez pela sucess&atilde;o do Presidente Lula. De que forma o MST pretende se posicionar nesta campanha que escolher&aacute; a 3 de outubro o pr&oacute;ximo presidente brasileiro?<br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile: O MST como movimento social, nunca se posiciona, em nenhuma elei&ccedil;&atilde;o, por este ou aquele candidato. Embora, claro, &eacute; obriga&ccedil;&atilde;o dos militantes, como cidad&atilde;os, analisarem as propostas e tomarem uma decis&atilde;o progressista. Ou seja, a maioria de nossa milit&acirc;ncia sempre vota em candidatos comprometidos com a reforma agr&aacute;ria e com mudan&ccedil;as, seja a n&iacute;vel municipal, estadual ou nacional.<br \/> Agora, nessas elei&ccedil;&otilde;es o que tenho percebido da milit&acirc;ncia do MST, e dos movimentos sociais brasileiros em geral, &eacute; que haver&aacute; uma forte propens&atilde;o a votar e fazer campanha contra o Serra. Ningu&eacute;m quer a volta do neoliberalismo, e tudo o que isso representa como proposta de modelo econ&ocirc;mico e de gest&atilde;o do Estado.<\/p>\n<p> <strong>P64 &#8211; Como voc&ecirc; vislumbra o Brasil p&oacute;s-Lula? <br \/> <\/strong><br \/> St&eacute;dile; Sou otimista. Acho que entraremos em novo ciclo hist&oacute;rico de maior consci&ecirc;ncia das massas, de maior participa&ccedil;&atilde;o, que levar&aacute; ao povo de forma organizada ter que discutir debater e se mobilizar por mudan&ccedil;as estruturais na sociedade brasileira, para podermos resolver de forma hist&oacute;rica, e n&atilde;o apenas com medidas de compensa&ccedil;&atilde;o social, os problemas hist&oacute;ricos do povo brasileiro.<\/p>\n<p> N&oacute;s temos graves problemas na sociedade brasileira. O problema da concentra&ccedil;&atilde;o de riqueza e renda. O problema da falta de trabalho e emprego para quase 50% da popula&ccedil;&atilde;o economicamente ativa. Temos o problema da educa&ccedil;&atilde;o concentrado na exist&ecirc;ncia de 16 milh&otilde;es de analfabetos na parte de baixo, e na exist&ecirc;ncia de apenas 10% dos jovens que tem acesso a universidade. Temos o problemas do de d&eacute;ficit de 10 milh&otilde;es de moradias..Temos a concentra&ccedil;&atilde;o da propriedade da terra, que comentamos nas demais quest&otilde;es .e temos a concentra&ccedil;&atilde;o do poder da m&iacute;dia, em tr&ecirc;s ou quatro grupos econ&ocirc;micos. Temos o problema pol&iacute;tico do Legislativo e do Judici&aacute;rio, que n&atilde;o representam os interesses das maiorias. As elei&ccedil;&otilde;es n&atilde;o s&atilde;o democr&aacute;ticas. E para isso precisamos de uma reforma pol&iacute;tica de fundo.<\/p>\n<p> Esses problemas n&atilde;o se resolvem com medidas compensat&oacute;rias. Se resolvem com um novo modelo econ&ocirc;mico e com mudan&ccedil;as estruturais na forma da sociedade funcionar. E com uma grande reforma pol&iacute;tica.<br \/> Mas tudo isso, repito, s&oacute; acontecer&aacute; quando o povo se organizar e voltar a fazer grandes mobiliza&ccedil;&otilde;es de massa, ou seja, recupere a iniciativa pol&iacute;tica, e construa o reascenso do movimento de massas.<\/span><span style=\"font-size: 12pt\"><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Projeto de reforma agr&aacute;ria mais avan&ccedil;ada apresentada at&eacute; hoje continua sendo a do governo Jo&atilde;o Goulart. 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