{"id":3307,"date":"2010-04-20T17:15:59","date_gmt":"2010-04-20T17:15:59","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2010\/04\/20\/eldorado-dos-carajs-chacinas-so-um-bom-negcio-no-brasil\/"},"modified":"2017-10-02T21:35:17","modified_gmt":"2017-10-02T21:35:17","slug":"eldorado-dos-carajs-chacinas-so-um-bom-negcio-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2010\/04\/20\/eldorado-dos-carajs-chacinas-so-um-bom-negcio-no-brasil\/","title":{"rendered":"Eldorado dos Caraj\u00e1s: chacinas s\u00e3o um bom neg\u00f3cio no Brasil"},"content":{"rendered":"<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">O Massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s, no Sul do Par&aacute;, que matou 19 sem-terra e  deixou mais de 60 feridos ap&oacute;s uma a&ccedil;&atilde;o violenta da Pol&iacute;cia Militar para  desbloquear a rodovia PA-150, completa 14 anos hoje. A estrada estava ocupada  por uma marcha do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra que se dirigia &agrave;  Marab&aacute; a fim de exigir a desapropria&ccedil;&atilde;o de uma fazenda, &aacute;rea improdutiva que  hoje abriga o assentamento 17 de Abril. A Pol&iacute;cia recebeu ordens de retir&aacute;-los e  deu no que deu. O Massacre &eacute; considerado o maior caso contempor&acirc;neo de viol&ecirc;ncia  no campo, tanto que esta data passou a ser lembrada como o Dia Mundial de Luta  pela Reforma Agr&aacute;ria.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">Desde ent&atilde;o, a realidade pouco mudou na regi&atilde;o. O Par&aacute;, sob forte influ&ecirc;ncia  de propriet&aacute;rios rurais e de mineradoras, &eacute; o estado com maior n&uacute;mero de casos  comprovados de trabalho escravo e um dos lideres no desmatamento ilegal. &Eacute;  tamb&eacute;m campe&atilde;o no n&uacute;mero de assassinatos de trabalhadores rurais em conflitos  agr&aacute;rios e de lideran&ccedil;as sociais e religiosas que, marcadas para morrer, j&aacute; t&ecirc;m  uma bala batizada com seu nome. Isso sem contar o descaso com a inf&acirc;ncia, que  toma forma de meninas nos bord&eacute;is e de meninos em servi&ccedil;os insalubres no campo.  Garotas com idade de &ldquo;vaca velha&rdquo;, como dizem garimpeiros e pe&otilde;es, ou seja, com  10, 12 anos, trocam a sua alegria pela dos clientes.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">O que &eacute; justi&ccedil;a? &Eacute; punir apenas aqueles que apertaram o gatilho ou inclui os  que, atrav&eacute;s de sua a&ccedil;&atilde;o ou ina&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m garantiram que uma trag&eacute;dia  acontecesse? Em 1992, 111 detentos foram mortos na j&aacute; desativada Penitenci&aacute;ria  do Carandiru ap&oacute;s uma a&ccedil;&atilde;o bizarra da Pol&iacute;cia Militar. Mais de 153 pessoas  ficaram feridas, das quais 23 policiais. O falecido Coronel Ubiratan Guimar&atilde;es,  que coordenou a invas&atilde;o\/banho de sangue para conter a rebeli&atilde;o, foi eleito  posteriormente deputado estadual, tripudiando a mem&oacute;ria dos mortos &ndash;  candidatava-se com o n&uacute;mero 14.111. Luiz Ant&ocirc;nio Fleury Filho, governador na  &eacute;poca do massacre, aprovou a conduta da pol&iacute;cia. Hoje &eacute; deputado federal.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">E por a&iacute; vai: Quem foi respons&aacute;vel pela Chacina da Castelinho, quando um  comboio de supostos criminosos foi parado pr&oacute;ximo a um ped&aacute;gio na rodovia  Castelinho, em Sorocaba (SP), e 12 pessoas executadas em 2002? E pelo Massacre  de Corumbiara (RR), no qual 200 policiais realizaram uma a&ccedil;&atilde;o armada para  retirar cerca de 500 posseiros que ocupavam uma fazenda no munic&iacute;pio, resultando  na morte de dois PMs e nove camponeses, entre eles uma menina de 7 anos em 1995?  Ou ainda Vig&aacute;rio Geral, em que 50 policiais militares, que estavam fora de seu  hor&aacute;rio de servi&ccedil;o, entraram atirando na favela e mataram 21 inocentes em 1993  como uma &ldquo;presta&ccedil;&atilde;o de contas&rdquo;? <br \/>No caso de Eldorados dos Caraj&aacute;s, as  autoridades pol&iacute;ticas na &eacute;poca, o governador Almir Gabriel e o secret&aacute;rio de  Seguran&ccedil;a P&uacute;blica, Paulo C&acirc;mara, n&atilde;o foram nem indiciados.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">Todos esses massacres e chacinas t&ecirc;m em comum o fato de vitimarem pessoas  exclu&iacute;das socialmente: camponeses, trabalhadores rurais, pobres da periferia,  presos. Enquanto isso, o envolvimento de policiais militares tem sido uma  constante. Se, hoje, massacres como os de 10, 20 anos atr&aacute;s s&atilde;o mais raros, o  mesmo n&atilde;o se pode dizer da viol&ecirc;ncia policial. Comportamento que, muitas vezes,  &eacute; aplaudido pela classe m&eacute;dia, pois isso lhes garante o sono diante das hordas  b&aacute;rbaras. Muitas chacinas passaram a ocorrer em conta-gotas, no varejo, de forma  silenciosa que n&atilde;o chame a aten&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia da&iacute; e aqui de fora.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">O Poder Judici&aacute;rio tem sua grande parcela de responsabilidade no clima de  impunidade que alimenta a viol&ecirc;ncia. A Justi&ccedil;a, que normalmente &eacute; &aacute;gil em  conceder liminares de reintegra&ccedil;&atilde;o de posse e determinar despejos no caso de  ocupa&ccedil;&otilde;es na cidade, &eacute; lenta para julgar e punir assassinatos e outras formas de  viol&ecirc;ncia contra trabalhadores.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">Para que direitos humanos sejam efetivamente respeitados no pa&iacute;s s&atilde;o  necess&aacute;rias mudan&ccedil;as reais, pois h&aacute; impunidade tamb&eacute;m quando o governo n&atilde;o atua  para acabar com a situa&ccedil;&atilde;o de desigualdade ou explora&ccedil;&atilde;o que estava na origem do  conflito. Seja ao permitir que garimpeiros continuem a explorar reservas  ind&iacute;genas, seja ao tolerar que crian&ccedil;as durmam na rua ou trabalhadores precisem  perder a vida na luta pela reforma agr&aacute;ria.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">H&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o carnal que se estabelece entre o patrim&ocirc;nio p&uacute;blico e a  propriedade privada n&atilde;o s&oacute; na Amaz&ocirc;nia, mas em outras partes do pa&iacute;s. Muito  similar ao que se enraizou com o coronelismo nordestino da Primeira Rep&uacute;blica, o  detentor da terra exerce o poder pol&iacute;tico, atrav&eacute;s de influ&ecirc;ncia econ&ocirc;mica e da  coer&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica. O j&aacute; t&ecirc;nue limite entre as duas esferas se rompe. &Eacute; freq&uuml;ente,  por exemplo, encontrar policiais que fazem bicos como jagun&ccedil;os de fazendas. O  Massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s &eacute; um dos tristes epis&oacute;dios brasileiros em que o  Estado usou de sua for&ccedil;a contra os trabalhadores e a favor dos grandes  propriet&aacute;rios de terra.<\/font><\/p>\n<p><font face=\"Arial\" size=\"2\">E, ao final, quem estava no topo da cadeia de responsabilidade pode continuar  indo para sua casa tomar um u&iacute;sque e co&ccedil;ar a barriga. Pois sabe que sua  contribui&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia &eacute; apenas mais uma, entre outras tantas que povoam a  m&iacute;dia ou, pior, passam despercebidos dela e da opini&atilde;o  p&uacute;blica<\/font><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Massacre de Eldorado dos Caraj&aacute;s, no Sul do Par&aacute;, que matou 19 sem-terra e deixou mais de 60 feridos ap&oacute;s uma a&ccedil;&atilde;o violenta da Pol&iacute;cia Militar para desbloquear a rodovia PA-150, completa 14 anos hoje. 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