{"id":3118,"date":"2008-03-25T09:59:48","date_gmt":"2008-03-25T09:59:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2008\/03\/25\/uma-aula-mgica-o-mst-j-se-sente-em-casa-nessa-universidade\/"},"modified":"2017-10-02T21:39:29","modified_gmt":"2017-10-02T21:39:29","slug":"uma-aula-mgica-o-mst-j-se-sente-em-casa-nessa-universidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2008\/03\/25\/uma-aula-mgica-o-mst-j-se-sente-em-casa-nessa-universidade\/","title":{"rendered":"Uma aula m\u00e1gica : \u00abO MST j? se sente em casa nessa universidade?"},"content":{"rendered":"<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Foi com essa frase que Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile, economista, ativista social e atual dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), demonstrou a satisfa&ccedil;&atilde;o diante do convite do reitor Alo&iacute;sio Teixeira para proferir a Aula Magna 2008. O evento, realizado nesta quarta-feira (19), no audit&oacute;rio Roxinho (CCMN), problematizou o tema Terra, saberes e democracia.<\/span><\/p>\n<p>  <\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Por mais de duas horas, St&eacute;dile tra&ccedil;ou um hist&oacute;rico da rela&ccedil;&atilde;o do homem brasileiro com a terra e contextualizou as lutas por uma melhor distribui&ccedil;&atilde;o dos im&oacute;veis rurais no pa&iacute;s. Para comentar o per&iacute;odo pr&eacute;-colonial, o economista recorreu ao livro O povo brasileiro, no qual Darcy Ribeiro explicita que, na vis&atilde;o do &iacute;ndio, a terra era um bem da natureza pertencente a todos. O modo de produ&ccedil;&atilde;o dos nativos era o comunismo primitivo, organizado de tal forma que sequer o conceito de propriedade coletiva existia.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Com a vinda dos portugueses, explica didaticamente St&eacute;dile, chega tamb&eacute;m o Capitalismo comercial que, al&eacute;m de ter destru&iacute;do as formas naturais da economia nativa, transformou a terra em monop&oacute;lio da Coroa Portuguesa. &ldquo;O Capitalismo n&atilde;o dividiu as terras. Ele apenas implantou a concess&atilde;o de uso, e a Coroa passou a ceder por&ccedil;&otilde;es do territ&oacute;rio aos portugueses que detinham capital suficiente para investir no cultivo. Instaurou-se ent&atilde;o o sistema de plantation, pautado na produ&ccedil;&atilde;o voltada ao mercado externo de uma monocultura cultivada em latif&uacute;ndios e com a utiliza&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o-de-obra escrava&rdquo;, observou.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">A partir da implanta&ccedil;&atilde;o da Lei 601\/1850, que institu&iacute;a a terra como uma propriedade privada, e principalmente depois da aboli&ccedil;&atilde;o da escravatura, inicia-se no Brasil uma pol&iacute;tica de incentivo &agrave; imigra&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o s&oacute; trouxe para o pa&iacute;s mais de um milh&atilde;o de imigrantes em um per&iacute;odo de trinta anos, como tamb&eacute;m propiciou o nascimento de uma classe inexistente at&eacute; ent&atilde;o: os camponeses.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Na contram&atilde;o da maior parte das na&ccedil;&otilde;es desenvolvidas, que, com o advento do Capitalismo industrial, promoveu reformas agr&aacute;rias para aumentar o poder de compra do campesinato e aquecer a economia capitalista, as elites brasileiras mantiveram o controle das terras em suas m&atilde;os. &ldquo;Em 1961, Celso Furtado, ministro do Planejamento da &eacute;poca, elegeu a reforma agr&aacute;ria como a sa&iacute;da para a crise do Capitalismo industrial brasileiro. Isso impulsionou o ent&atilde;o presidente Jo&atilde;o Goulart a fazer a lei de reforma agr&aacute;ria que &eacute;, at&eacute; os dias atuais, a legisla&ccedil;&atilde;o mais radical no que tange &agrave; terra&rdquo;, conta Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile, ressaltando que essa lei foi um das medidas que impulsionaram como contra-resposta a articula&ccedil;&atilde;o do golpe militar de 1964.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">O controle da terra em tempos de Neoliberalismo<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">A partir da d&eacute;cada de 1990, pontua St&eacute;dile, a economia brasileira passa a ser subordinada ao capitalismo financeiro internacional, o que causa significativos impactos sobre o campo. Segundo o economista, as empresas transnacionais controlam, gradativamente, o mercado brasileiro de produtos agr&iacute;colas: &ldquo;Essas empresas oligop&oacute;licas realizam acordos com os propriet&aacute;rios de terra. Nesses tratos, eles fornecem a terra para cultivo, enquanto elas fornecem as sementes, os insumos agr&iacute;colas e as m&aacute;quinas. Isso &eacute; o que a imprensa chama de agroneg&oacute;cio: um casamento diab&oacute;lico onde n&atilde;o existe espa&ccedil;o para o campon&ecirc;s e onde a responsabilidade ambiental n&atilde;o &eacute;, de forma alguma, prioridade&rdquo;, alerta.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Por conta disso, as multinacionais s&atilde;o, na opini&atilde;o do MST, os principais atores a serem combatidos no caminho da solu&ccedil;&atilde;o dos problemas de concentra&ccedil;&atilde;o de terra no Brasil. O movimento n&atilde;o encara a atual pol&iacute;tica de assentamento como uma efetiva reforma agr&aacute;ria. Esses trabalhadores reivindicam a democratiza&ccedil;&atilde;o da terra, da &aacute;gua e das sementes, al&eacute;m de defenderem a produ&ccedil;&atilde;o de alimentos sadios, isentos dos malef&iacute;cios causados por agrot&oacute;xicos e inseticidas.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">St&eacute;dile lembrou tamb&eacute;m que a implanta&ccedil;&atilde;o de pequenas agroind&uacute;strias nos assentamentos para proporcionar melhorias na distribui&ccedil;&atilde;o de renda e na condi&ccedil;&atilde;o de acesso dos jovens ao mercado de trabalho &eacute; outra bandeira do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">&nbsp;<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><strong><span style=\"font-size: 9pt\">O MST e a Educa&ccedil;&atilde;o<\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">&nbsp;<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Ficou claro para o p&uacute;blico a dimens&atilde;o dada pelo MST &agrave; Educa&ccedil;&atilde;o. As lideran&ccedil;as do movimento estimulam os trabalhadores a participarem de diversas iniciativas educacionais. Reflexo disso &eacute; que existem hoje mais de 2.800 militantes cursando a Gradua&ccedil;&atilde;o e cerca de 180 no Mestrado e Doutorado de universidades brasileiras.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">O MST firmou tamb&eacute;m parcerias com cinco institui&ccedil;&otilde;es de Ensino Superior com o objetivo de formar uma nova gera&ccedil;&atilde;o de engenheiros agr&ocirc;nomos. &ldquo;As faculdades de Agronomia pouco sabem sobre agroecologia, pois ainda trabalham na l&oacute;gica das transnacionais. Nossa concep&ccedil;&atilde;o ent&atilde;o &eacute; a de unir reforma agr&aacute;ria e conhecimento&rdquo;, destacou St&eacute;dile. Na UFRJ, est&aacute; em discuss&atilde;o a cria&ccedil;&atilde;o de um curso de especializa&ccedil;&atilde;o em Filosofia para os membros do MST.<\/p>\n<p> O reitor Alo&iacute;sio Teixeira destacou que a escolha de St&eacute;dile como personalidade a proferir a Aula Magna, evento que abre oficialmente o ano letivo de 2008, foi um reconhecimento da import&acirc;ncia de saberes distintos, que n&atilde;o aqueles produzidos e disseminados na universidade: &ldquo;o que n&oacute;s, universidade, fazemos n&atilde;o &eacute; &uacute;nico. H&aacute; uma s&eacute;rie de outras formas de conhecimento que n&atilde;o dominamos e que s&oacute; o faremos quando derrubarmos os muros invis&iacute;veis que cercam a universidade&rdquo;.<br \/> &#39;Multa contra mim &eacute; uma idiotice&#39; <br \/> St&eacute;dile diz que a&ccedil;&otilde;es do movimento n&atilde;o v&atilde;o parar e faz amea&ccedil;as <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Notificado ontem da decis&atilde;o da Justi&ccedil;a do Rio, o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile, disse que a medida judicial obtida pela Vale n&atilde;o vai alterar a a&ccedil;&atilde;o do movimento e classificou a multa de idiotice. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">&#8211; N&atilde;o vai mudar de jeito nenhum. N&oacute;s ficamos mais bravos ainda. Eles vivem com essas paran&oacute;ias porque t&ecirc;m culpa no cart&oacute;rio &#8211; afirmou St&eacute;dile, que ironizou: &#8211; Deveriam contratar um especialista em movimento social para compreender que ningu&eacute;m se mobiliza contra uma empresa, uma &aacute;rea de latif&uacute;ndio, se n&atilde;o tiver uma raz&atilde;o. Eles que procurem descobrir por que &eacute; que o povo l&aacute; do Par&aacute;, vira e mexe, p&aacute;ra o trem. Eles que pesquisem isso e parem de usar esses m&eacute;todos que s&atilde;o da &eacute;poca da ditadura. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">Ele afirmou n&atilde;o ter se surpreendido com a a&ccedil;&atilde;o, que classificou de &quot;medida desesperadora da dire&ccedil;&atilde;o, que est&aacute; em d&iacute;vida com o povo brasileiro&quot;. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">&#8211; O seu (Roger) Agnelli (presidente da Vale) &eacute; um preposto do Bradesco, mas a Vale pertence ao povo brasileiro. Ent&atilde;o ele tem todo o direito de espernear. E n&oacute;s temos o direito de continuar a luta para reestatizar a Vale. A Vale est&aacute; em d&iacute;vida com v&aacute;rias comunidades onde atua, n&atilde;o honra suas obriga&ccedil;&otilde;es. N&oacute;s s&oacute; fizemos essas a&ccedil;&otilde;es para pressionar a Vale a cumprir suas obriga&ccedil;&otilde;es e abandonar projetos prejudiciais ao meio ambiente &#8211; disse St&eacute;dile. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">&quot;Multar a mim n&atilde;o vai convencer o povo a n&atilde;o parar o trem&quot; <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">St&eacute;dile, que participou ontem de aula magna no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fund&atilde;o, Zona Norte do Rio, afirmou ainda que tem multas muito mais altas em outros processos e que multar o MST para tentar conter o movimento &quot;&eacute; uma idiotice&quot;: <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">&#8211; Voc&ecirc; acha honestamente que &eacute; o fato de ter uma multa de R$50 (na verdade, R$5 mil) contra mim que vai convencer o povo do Par&aacute; a n&atilde;o parar o trem? Isso &eacute; uma idiotice. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">O MST divulgou nota no fim da tarde sobre a liminar, afirmando que a diretoria da Vale &quot;deveria trabalhar para resolver os problemas sociais e ambientais das &aacute;reas onde est&aacute; instalada, prejudicando comunidades em Minas Gerais, Maranh&atilde;o e Par&aacute;, em vez de criar obst&aacute;culos para a realiza&ccedil;&atilde;o de manifesta&ccedil;&otilde;es leg&iacute;timas que fazem parte da democracia&quot;. <\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">O MST destaca que &eacute; um movimento formado por trabalhadores rurais sem-terra em 24 estados do pa&iacute;s que se organizam para lutar pela reforma agr&aacute;ria, por direitos sociais e transforma&ccedil;&otilde;es estruturais que criem condi&ccedil;&otilde;es para o desenvolvimento social e igualdade.<\/span><\/p>\n<p class=\"MsoNormal\"><span style=\"font-size: 9pt\">&nbsp;<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi com essa frase que Jo&atilde;o Pedro St&eacute;dile, economista, ativista social e atual dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), demonstrou a satisfa&ccedil;&atilde;o diante do convite do reitor Alo&iacute;sio Teixeira para proferir a Aula Magna 2008. 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