{"id":2950,"date":"2007-02-12T16:04:06","date_gmt":"2007-02-12T16:04:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2007\/02\/12\/movimentos-populares-diante-do-governo-lula\/"},"modified":"2017-10-02T21:41:03","modified_gmt":"2017-10-02T21:41:03","slug":"movimentos-populares-diante-do-governo-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2007\/02\/12\/movimentos-populares-diante-do-governo-lula\/","title":{"rendered":"Movimentos populares diante do governo Lula"},"content":{"rendered":"<p>10\/1\/2007-&nbsp; Helder Gomes, mestre em Economia pela UFES e membro da equipe da Coopemult Consultoria.<\/p>\n<p>O Brasil caminha bem defasado em rela&ccedil;&atilde;o aos movimentos pol&iacute;ticos presentes em diversos pa&iacute;ses latino-americanos na atualidade. De um lado, observa-se uma guinada &agrave; direita das principais refer&ecirc;ncias pol&iacute;tico-partid&aacute;rias brasileiras. Personalidades constru&iacute;das a partir das mobiliza&ccedil;&otilde;es de resist&ecirc;ncia aos governos militares, mas que se encontram encasteladas nas v&aacute;rias inst&acirc;ncias governamentais, dando seq&uuml;&ecirc;ncia aos atos de subordina&ccedil;&atilde;o a Washington que tanto combateram no passado. De outro lado, ocorre no Brasil uma n&iacute;tida capitula&ccedil;&atilde;o da maioria das lideran&ccedil;as sindicais e de alguns outros movimentos populares, viciados no dogmatismo partid&aacute;rio, num momento em que a Am&eacute;rica Latina experimenta mais um est&aacute;gio de grandes mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais. <br \/>&Eacute; importante registrar que existem exce&ccedil;&otilde;es, mas, neste artigo procuro resgatar esse movimento mais geral e a apresentar um panorama da pol&iacute;tica brasileira na atualidade, a partir de tr&ecirc;s aspectos: a) o processo de degenera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das esquerdas brasileiras; b) as altera&ccedil;&otilde;es recentes na pr&aacute;tica cotidiana do chamado Novo Sindicalismo Brasileiro; e , c) as tentativas de alguns segmentos intelectuais e de algumas lideran&ccedil;as populares em buscar solu&ccedil;&otilde;es para a grave crise que abala as esquerdas brasileiras na atualidade. Com isso, o texto tenta apresentar o cen&aacute;rio constru&iacute;do nessa virada para o segundo mandato do Lula, procurando avaliar os limites e as possibilidades de aproxima&ccedil;&atilde;o das lutas populares de n&iacute;vel nacional com a onda de mobiliza&ccedil;&otilde;es existentes hoje na Am&eacute;rica Latina. <br \/>&nbsp;<br \/>Da ang&uacute;stia &agrave; autocr&iacute;tica <br \/>&nbsp;<br \/>Analisar a crise de dentro requer muito mais que a cantilena sobre as correla&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as adversas . &Eacute; preciso, de uma vez por todas, admitirmos que as esquerdas brasileiras em geral falham em n&atilde;o aproveitar a oportunidade hist&oacute;rica, de se expressar e atuar politicamente como for&ccedil;as efetivamente antag&ocirc;nicas aos movimentos pol&iacute;ticos da burguesia multinacional no Brasil. Ao contr&aacute;rio do que se pode supor, trata-se de um processo de amplas repercuss&otilde;es em todo o campo de esquerda, cuja degenera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica se manifesta como um processo gradativo e contagiante, que alcan&ccedil;ou as v&aacute;rias inst&acirc;ncias do PT e dos partidos tradicionalmente aliados. Em especial, envolveu o conjunto da milit&acirc;ncia, que antes atuava diretamente nos movimentos populares e que, pouco a pouco, foram ocupando cargos junto aos mandatos parlamentares, &agrave;s administra&ccedil;&otilde;es municipais e regionais e, agora, no governo federal; ou, numa outra dimens&atilde;o, desses cargos se servem para manter boa parte de suas atividades militantes. <br \/>&nbsp;<br \/>Assim, o mais grave nesse processo de degenera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica n&atilde;o est&aacute; nos casos de corrup&ccedil;&atilde;o amplamente divulgados. Para um projeto de esquerda, o inaceit&aacute;vel foi a perda de perspectiva sobre a organiza&ccedil;&atilde;o das classes trabalhadoras no sentido da transforma&ccedil;&atilde;o social. A a&ccedil;&atilde;o partid&aacute;ria original foi sendo substitu&iacute;da pela utiliza&ccedil;&atilde;o cada vez mais profissional dos instrumentos tradicionais da pol&iacute;tica brasileira. A corrup&ccedil;&atilde;o e o envolvimento das c&uacute;pulas partid&aacute;rias com as mais variadas formas de lavagem das famosas sobras de campanhas eleitorais s&atilde;o conseq&uuml;&ecirc;ncias de uma op&ccedil;&atilde;o program&aacute;tica pelo abandono dos princ&iacute;pios de funda&ccedil;&atilde;o &agrave; esquerda. <br \/>&nbsp;<br \/>A guinada do Novo Sindicalismo <br \/>&nbsp;<br \/>Exemplo marcante do cont&aacute;gio pol&iacute;tico degenerativo tem sido a situa&ccedil;&atilde;o da Central &Uacute;nica dos Trabalhadores (CUT). Ao longo de sua trajet&oacute;ria a CUT foi perdendo completamente sua autonomia em rela&ccedil;&atilde;o ao PT, contrariando um dos princ&iacute;pios program&aacute;ticos do chamado Novo Sindicalismo , cuja explica&ccedil;&atilde;o pode estar na dupla representa&ccedil;&atilde;o de seus principais dirigentes, que operavam numa via de m&atilde;o dupla, multiplicando sua pr&aacute;tica pol&iacute;tica, administrativa e de gest&atilde;o das finan&ccedil;as, tanto na m&aacute;quina sindical quanto na estrutura partid&aacute;ria. Atualmente, a ida de ex-presidentes da CUT para ocupar v&aacute;rios cargos no governo federal, inclusive em alguns minist&eacute;rios, determina um canal direto de coopta&ccedil;&atilde;o e de cumplicidade de membros da Central Sindical com a pol&iacute;tica governamental em v&aacute;rios campos, inclusive o estritamente trabalhista. <br \/>&nbsp;<br \/>O mais importante a assinalar tem sido a retra&ccedil;&atilde;o expl&iacute;cita das for&ccedil;as de esquerda no meio sindical. As principais lideran&ccedil;as sindicais n&atilde;o conseguiram resistir nas trincheiras tra&ccedil;adas desde a cria&ccedil;&atilde;o da CUT, que se contrapunha ao modelo sindical tutelado, e foram sucumbindo na ades&atilde;o &agrave;s novidades que eram impostas ao mundo do trabalho pelas novas regras do jogo. Gradativamente, as perspectivas de organiza&ccedil;&atilde;o das classes trabalhadoras para o enfrentamento das rela&ccedil;&otilde;es do capital, refletidas nas atividades de forma&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e nas hist&oacute;ricas mobiliza&ccedil;&otilde;es populares, foram substitu&iacute;das por instrumentos mais vinculados &agrave; abertura de espa&ccedil;os na sociedade. Passou-se a difundir acriticamente a proposta dos sindicatos buscarem o direito a uma suposta cidadania, em plena era de consolida&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias e das pol&iacute;ticas neoliberais, quando a cidadania passou a ser sin&ocirc;nimo de capacidade mercadol&oacute;gica de consumo. Al&eacute;m disso, v&aacute;rias lideran&ccedil;as passaram a se ocupar de atividades estranhas ao movimento sindical, ocupando cargos no gerenciamento de fundos de pens&atilde;o, cooperativas de cr&eacute;dito, entre outras. <br \/>&nbsp;<br \/>Agora, ex-sindicalistas est&atilde;o no poder. Passaram a adotar as pol&iacute;ticas neoliberais que antes atacavam, prometendo ampliar o acesso &agrave; cidadania negada, dentro da ordem burguesa, a partir de medidas assistencialistas e da coopta&ccedil;&atilde;o de lideran&ccedil;as do movimento popular. A pauta limitada &agrave;s negocia&ccedil;&otilde;es em torno de reajustes no Sal&aacute;rio M&iacute;nimo e na Tabela do Imposto de Renda, bem como a forma como seus resultados s&atilde;o divulgados, como grandes conquistas, ilustram bem essa situa&ccedil;&atilde;o. <br \/>&nbsp;<br \/>Pauta limitada <br \/>&nbsp;<br \/>O mais grave disso tudo tem sido a ades&atilde;o de algumas lideran&ccedil;as de v&aacute;rios outros movimentos populares a essa pauta de reivindica&ccedil;&otilde;es restritivas. Grave, por se tratar de um contexto em que se aprofundam as contradi&ccedil;&otilde;es do capitalismo em n&iacute;vel mundial, em que a Am&eacute;rica Latina volta a apresentar p&oacute;los de resist&ecirc;ncia aos planos de controle imperialista na administra&ccedil;&atilde;o de uma crise estrutural que se retro-alimenta desde a virada para os anos 1970. Mas, grave, tamb&eacute;m, porque algumas das principais lideran&ccedil;as do movimento popular brasileiro parecem n&atilde;o se dar conta da dimens&atilde;o dessa crise. Assim, parecem n&atilde;o perceber as conseq&uuml;&ecirc;ncias perversas que suas manifesta&ccedil;&otilde;es p&uacute;blicas, limitadas por uma agenda (inorg&acirc;nica aos movimentos de base) adequada &agrave; ordem pol&iacute;tico-partid&aacute;ria, possam ter na organicidade das mobiliza&ccedil;&otilde;es populares, que essas pr&oacute;prias lideran&ccedil;as populares, diga-se, entendem como condi&ccedil;&atilde;o para um enfrentamento mais direto com as contradi&ccedil;&otilde;es do capital. <br \/>&nbsp;<br \/>A agenda pautada pela ordem atual no Brasil imp&otilde;e um debate reduzido entre a ortodoxia do Banco Central e a possibilidade de flexibilidade da atual pol&iacute;tica econ&ocirc;mica. V&aacute;rias lideran&ccedil;as do movimento popular embarcam nessa discuss&atilde;o, acreditando que o atual governo Lula pode alterar a rigidez fiscal, reduzindo o perfil da d&iacute;vida p&uacute;blica e ampliando o horizonte de retomada dos investimentos p&uacute;blicos de infra-estrutura econ&ocirc;mica e social. Para isso, reivindicam uma redu&ccedil;&atilde;o ainda maior nas taxas de juros internas e algum controle sobre os fluxos de capital, o que diminuiria a necessidade de gera&ccedil;&atilde;o de super&aacute;vits prim&aacute;rios nos patamares atuais. Pode ser at&eacute; que algo parecido ocorra, apesar de os procedimentos oficiais indicarem o contr&aacute;rio: a continuidade da atual pol&iacute;tica de metas fiscais e de transfer&ecirc;ncia de riquezas para o exterior. Mas, acontece que n&atilde;o deveria ser este o debate a pautar os movimentos populares nos dias de hoje, at&eacute; porque as alternativas colocadas em pauta s&atilde;o as mesmas que v&ecirc;m sendo remo&iacute;das h&aacute; tempos pela ala nacional-desenvolvimentista, mais afinada &agrave; parcela do PMDB, do PSDB etc. Esta &eacute; a quest&atilde;o de fundo. <br \/>&nbsp;<br \/>Fundamentos para esta cr&iacute;tica <br \/>&nbsp;<br \/>Boa parte dos mecanismos alternativos de pol&iacute;tica econ&ocirc;mica citados acima pode voltar a ser colocada na ordem do dia. Contudo, uma nova etapa de desenvolvimento capitalista exigiria uma ruptura com a l&oacute;gica de domina&ccedil;&atilde;o do capital especulativo parasit&aacute;rio (CARCANHOLO, NAKATANI, 2006), a partir de um novo arranjo pol&iacute;tico capaz de regenerar a capacidade de investimentos produtivos na escala exigida para a revers&atilde;o da crise atual em sua verdadeira dimens&atilde;o. Contudo, a possibilidade de uma nova onda longa de reprodu&ccedil;&atilde;o ampliada do capital pouco pode interessar &agrave;s classes trabalhadoras em seu conjunto, pois a id&eacute;ia de inclus&atilde;o social a partir de uma nova retomada de n&iacute;veis de crescimento econ&ocirc;mico, como ocorreu no per&iacute;odo P&oacute;s-Guerra , est&aacute; totalmente defasada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s novas formas que assumem as contradi&ccedil;&otilde;es do capital nos dias de hoje. Vejamos isso mais de perto. <br \/>&nbsp;<br \/>Recorro a dois economistas marxistas de nosso tempo, que apontam alguns caminhos para nossa reflex&atilde;o sobre esse tema. Tratando teoricamente do atual est&aacute;gio de acumula&ccedil;&atilde;o capitalista, Carcanholo e Nakatani (2006) alertam que a possibilidade de uma solu&ccedil;&atilde;o para a crise estrutural, dentro da ordem capitalista, levaria a humanidade a um processo ainda mais avassalador de explora&ccedil;&atilde;o do trabalho. <br \/>&nbsp; &nbsp;<br \/>A eventual nova etapa capitalista n&atilde;o poder&aacute; fazer concess&otilde;es aos trabalhadores. Ao contr&aacute;rio, s&oacute; ser&aacute; poss&iacute;vel sobre a base de uma explora&ccedil;&atilde;o ainda maior. Se a etapa especulativa implica uma grande trag&eacute;dia para a humanidade (pelo menos para parcela importante da humanidade) e se a transi&ccedil;&atilde;o para uma eventual nova etapa implicar&aacute; um aprofundamento e uma extens&atilde;o dessa trag&eacute;dia, o capitalismo que sobreviver s&oacute; o far&aacute; impondo trag&eacute;dia superior. Isso &eacute; resultado da tend&ecirc;ncia decrescente da taxa de lucro que, apesar do efeito contrariante dos lucros fict&iacute;cios, segue vigente e operante e, na eventualidade de uma nova etapa capitalista, com o capital fict&iacute;cio contido dentro de estreitos limites, s&oacute; poder&aacute; encontrar atenuante em um n&iacute;vel ainda maior de explora&ccedil;&atilde;o do trabalho. A etapa do capitalismo especulativo, se ele sobreviver, s&oacute; poder&aacute; ser substitu&iacute;da pelo capitalismo funesto (CARCANHOLO, NAKATANI, 2006, p. 11). <br \/>&nbsp;<br \/>Projetando essas contradi&ccedil;&otilde;es mais gerais da mundializa&ccedil;&atilde;o do capital para o caso brasileiro, penso ser dif&iacute;cil imaginar que poder&iacute;amos retomar agora o velho sonho dos militares, os quais em plena crise econ&ocirc;mica mundial se esfor&ccedil;avam para nos convencer que valia o sacrif&iacute;cio de esperar crescer o bolo , pois, estariam construindo uma ilha de tranq&uuml;ilidade num mar revolto . Lembram? <br \/>&nbsp;<br \/>Retomando o pensamento dos dois professores citados acima chegamos &agrave; conclus&atilde;o de que, nos dias atuais, n&atilde;o basta a simples substitui&ccedil;&atilde;o da agenda neoliberal pela pauta nacional-desenvolvimentista. Os movimentos populares devem se voltar para a recupera&ccedil;&atilde;o das perspectivas de organiza&ccedil;&atilde;o das classes trabalhadoras, sem perder a dimens&atilde;o internacional do desafio, para que sejam capazes de aglutinar as condi&ccedil;&otilde;es objetivas para o enfrentamento que se anuncia. Em outras palavras, aos que se reivindicam socialistas n&atilde;o basta hastear a bandeira antineoliberal neste momento, pois, qualquer sa&iacute;da dessa crise, com base na preserva&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o burguesa, levar&aacute; uma parte consider&aacute;vel da humanidade a ficar ainda mais pr&oacute;xima da barb&aacute;rie absoluta. Os dois professores sugerem que a alternativa seja constru&iacute;da, ent&atilde;o, pelas massas populares, numa perspectiva de ruptura da ordem de explora&ccedil;&atilde;o vigente: <br \/>&nbsp; &nbsp;<br \/>O que deve ser considerado fundamental &eacute; que a revolu&ccedil;&atilde;o seja efetivamente popular e democr&aacute;tica, com ampla participa&ccedil;&atilde;o das massas em todos os n&iacute;veis de decis&atilde;o. Isso porque a constru&ccedil;&atilde;o consciente de uma nova sociedade ir&aacute; exigir a organiza&ccedil;&atilde;o de um sistema de planifica&ccedil;&atilde;o central, participativo e democr&aacute;tico, sem a forma&ccedil;&atilde;o de uma burocracia estatal. Por isso, h&aacute; a necessidade de um amplo estudo e uma profunda avalia&ccedil;&atilde;o dos sistemas de planifica&ccedil;&atilde;o que foram constru&iacute;dos nas experi&ecirc;ncias dos pa&iacute;ses que tentaram a constru&ccedil;&atilde;o do socialismo e regrediram para o capitalismo. <br \/>&nbsp;<br \/>Enfim, o socialismo s&oacute; ser&aacute; uma realidade no futuro quando a maioria das na&ccedil;&otilde;es do mundo tiver realizado as suas revolu&ccedil;&otilde;es e as novas rela&ccedil;&otilde;es sociais tiverem sido amplamente disseminadas por todo o planeta. Mas, esse n&atilde;o ser&aacute; jamais o resultado espont&acirc;neo do desenvolvimento capitalista. A constru&ccedil;&atilde;o do socialismo exige um enfrentamento contra as poderosas for&ccedil;as do capital que, mesmo enfraquecidas, mant&ecirc;m a hegemonia em todo o mundo (CARCANHOLO, NAKATANI, 2006, p. 24). <br \/>&nbsp;<br \/>Pensando assim, percebe-se a armadilha em que se encontram o capital e o trabalho na atualidade, bem como a dimens&atilde;o dos desafios colocados para os movimentos sociais, tanto no que tange a sua organiza&ccedil;&atilde;o interna, quanto &agrave; imprescindibilidade de sua integra&ccedil;&atilde;o internacional, especialmente nas rela&ccedil;&otilde;es latino-americanas. <br \/>&nbsp;<br \/>Um debate em efervesc&ecirc;ncia <br \/>&nbsp;<br \/>Nem tudo est&aacute; perdido. Restou muita gente sem um cont&aacute;gio integral. Mas, as iniciativas por retomar a organiza&ccedil;&atilde;o de lideran&ccedil;as regionais para as discuss&otilde;es de formas alternativas de solu&ccedil;&atilde;o para a crise das esquerdas brasileiras ainda est&atilde;o bastante incipientes, apesar de algumas das principais lideran&ccedil;as do movimento popular participar de v&aacute;rias dessas inst&acirc;ncias de debates e de tentativas de mobiliza&ccedil;&otilde;es. Existem no Brasil pelo menos tr&ecirc;s iniciativas de maior express&atilde;o no sentido dessa organiza&ccedil;&atilde;o de movimentos populares, entre tantas outras de menor peso pol&iacute;tico: a Assembl&eacute;ia Popular, a Coordena&ccedil;&atilde;o dos Movimentos Sociais e a Consulta Popular. Participam dessas iniciativas lideran&ccedil;as da Via Campesina e de v&aacute;rios movimentos populares urbanos, mas, existem grandes diverg&ecirc;ncias entre suas formula&ccedil;&otilde;es. <br \/>&nbsp;<br \/>A Consulta Popular procura manter sua independ&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o aos partidos formalmente constitu&iacute;dos. Em seu conte&uacute;do de discuss&otilde;es, faz uma cr&iacute;tica contundente &agrave;s op&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas do governo Lula e tra&ccedil;a uma abordagem mais audaciosa: a necessidade de se colocar na ordem do dia dos movimentos populares debates e formula&ccedil;&otilde;es anticapitalistas, no sentido de buscar novas formas de organiza&ccedil;&atilde;o e de mobiliza&ccedil;&atilde;o. A partir dessa concep&ccedil;&atilde;o tem proposto um movimento nacional em torno do tema: Alternativas para o Poder Popular . <br \/>&nbsp;<br \/>Documentos divulgados pela Assembl&eacute;ia Popular, por seu turno, apontam um caminho mais adaptado ao contexto de crises, a partir do diagn&oacute;stico de que o pa&iacute;s experimenta um est&aacute;gio de descenso das mobiliza&ccedil;&otilde;es populares. Assim, prop&otilde;em debates e formas de press&atilde;o com um car&aacute;ter mais voltado ao enfrentamento &agrave;s pol&iacute;ticas neoliberais. Numa linha parecida procura atuar a Coordena&ccedil;&atilde;o dos Movimentos Sociais, iniciativa esta com grande peso das lideran&ccedil;as populares urbanas, inclusive de sindicalistas vinculados &agrave; CUT. Ao contr&aacute;rio da primeira posi&ccedil;&atilde;o, estas duas mant&ecirc;m entre seus membros lideran&ccedil;as nitidamente vinculadas ao PT e a outros partidos tidos como do campo da esquerda brasileira. <br \/>&nbsp;<br \/>Contudo, a forma&ccedil;&atilde;o de novos movimentos sociais no Brasil tamb&eacute;m parece fomentar uma contraposi&ccedil;&atilde;o ao papel desempenhado pela maioria sindicalista nos dias atuais. A Rede Brasil sobre Institui&ccedil;&otilde;es Financeiras Multilaterais, por exemplo, tem apresentado um trabalho interessante, exatamente por possibilitar a identifica&ccedil;&atilde;o dessas novas refer&ecirc;ncias para a reflex&atilde;o dos movimentos populares. O trabalho da Rede Brasil tem atra&iacute;do para seus debates, reuni&otilde;es e cursos de forma&ccedil;&atilde;o, tanto o Movimento dos Atingidos por Barragens (hidrel&eacute;tricas), quanto a Via Campesina, a Rede Alerta Contra o Deserto Verde (que atua contra as monoculturas do eucalipto e pinus), a Marcha Mundial das Mulheres e v&aacute;rios outros agrupamentos de ecologistas e militantes sociais. Movimentos estes que procuram organizar as fam&iacute;lias trabalhadoras imediatamente atingidas pelos impactos provocados pelas pol&iacute;ticas oficiais de integra&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica regional da Am&eacute;rica Latina e, por isso mesmo, trazem a possibilidade de resist&ecirc;ncia e, qui&ccedil;&aacute;, de busca de outras formas de relacionamento internacional dos povos latino-americanos. <br \/>&nbsp;<br \/>Tal posi&ccedil;&atilde;o acirra o debate sobre a pol&iacute;tica externa do governo Lula. Muitos intelectuais das esquerdas defendem a posi&ccedil;&atilde;o atual do governo brasileiro, argumentando que nunca o pa&iacute;s esteve t&atilde;o voltado para a consolida&ccedil;&atilde;o da integra&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica regional. Contra essa argumenta&ccedil;&atilde;o, a Rede Brasil reafirma a necessidade de se refletir sobre a qualidade efetiva desses acordos de coopera&ccedil;&atilde;o e de liberaliza&ccedil;&atilde;o comercial, fundados na id&eacute;ia de se constituir uma grande economia, competitiva, a partir da integra&ccedil;&atilde;o das Am&eacute;ricas (o caminho para a ALCA). Cr&iacute;tica feroz da atual pol&iacute;tica do governo Lula, a milit&acirc;ncia da Rede Brasil prop&otilde;e que os movimentos populares brasileiros passem a interagir mais organicamente com os demais movimentos similares da Am&eacute;rica Latina, no sentido de recuperar as proposi&ccedil;&otilde;es de uma integra&ccedil;&atilde;o alternativa &agrave;quela proposta pelo Banco Mundial e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento. A integra&ccedil;&atilde;o alternativa latino-americana deve basear-se na autodetermina&ccedil;&atilde;o dos povos, no resgate do conceito de soberania, num outro padr&atilde;o de produ&ccedil;&atilde;o, de distribui&ccedil;&atilde;o e de consumo, longe das determina&ccedil;&otilde;es do imperialismo estadunidense. <br \/>&nbsp;<br \/>Assim&#8230; <br \/>&nbsp;<br \/>Como se v&ecirc; s&atilde;o v&aacute;rios os caminhos trilhados at&eacute; aqui pela milit&acirc;ncia dos movimentos populares no Brasil. Parcela consider&aacute;vel persiste cega no doutrinamento partid&aacute;rio, resistindo a qualquer formula&ccedil;&atilde;o cr&iacute;tica, especialmente no que tange &agrave; avalia&ccedil;&atilde;o do governo Lula. Outra parte das lideran&ccedil;as come&ccedil;a a buscar alternativas de manifesta&ccedil;&atilde;o de suas ang&uacute;stias, mas, ainda vacila frente ao desafio de abandonar toda a sua trajet&oacute;ria pol&iacute;tica e a esperan&ccedil;a depositada num projeto de partido dirigente, que parece n&atilde;o existir mais, procurando por alguma chance de sensibilizar os antigos companheiros para que retornem a suas origens populares. Mas, frente &agrave; rigidez da trajet&oacute;ria degenerativa dos partidos de esquerda e de suas representa&ccedil;&otilde;es governamentais, uma outra parcela de lideran&ccedil;as populares j&aacute; perdeu totalmente a perspectiva de que o governo Lula possa formular uma transi&ccedil;&atilde;o para um governo democr&aacute;tico e popular. Entretanto, essas lideran&ccedil;as ainda n&atilde;o conseguiram formular um projeto capaz de atrair para seus espa&ccedil;os de debates e de formula&ccedil;&otilde;es um contingente significativo de outras lideran&ccedil;as, para se apresentar como uma for&ccedil;a pol&iacute;tica alternativa de fato. <br \/>&nbsp;<br \/>Diante desse debate interno em aberto e, tamb&eacute;m, da press&atilde;o exercida pela experi&ecirc;ncia hist&oacute;rica de alguns movimentos populares na Am&eacute;rica Latina, espera-se que as lideran&ccedil;as dos movimentos populares brasileiros percebam a necessidade de cuidarem, urgentemente, de caminhar em busca da intera&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica com as mobiliza&ccedil;&otilde;es sociais que hoje agitam o continente. <br \/>&nbsp; <br \/>&#8212;&#8212;&#8212;-<br \/>&nbsp; <\/p>\n<p>REFER&Ecirc;NCIAS: <br \/>&nbsp;<br \/>CARCANHOLO, Reinaldo A., NAKATANI, Paulo. Capitalismo Especulativo e Alternativas. In: XI Encontro Nacional de Economia Pol&iacute;tica (Anais &ndash; CD Room). Vit&oacute;ria: UFES\/Departamento de Economia\/Programa de P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o em Pol&iacute;tica Social , jun.\/2006.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>10\/1\/2007-&nbsp; Helder Gomes, mestre em Economia pela UFES e membro da equipe da Coopemult Consultoria. O Brasil caminha bem defasado em rela&ccedil;&atilde;o aos movimentos pol&iacute;ticos presentes em diversos pa&iacute;ses latino-americanos na atualidade. De um lado, observa-se uma guinada &agrave; direita das principais refer&ecirc;ncias pol&iacute;tico-partid&aacute;rias brasileiras. 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