{"id":2807,"date":"2005-08-23T05:08:25","date_gmt":"2005-08-23T05:08:25","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2005\/08\/23\/ha-um-golpe-em-marcha-no-pais\/"},"modified":"2017-10-02T21:42:13","modified_gmt":"2017-10-02T21:42:13","slug":"ha-um-golpe-em-marcha-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2005\/08\/23\/ha-um-golpe-em-marcha-no-pais\/","title":{"rendered":"H\u00e1 um golpe em marcha no pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>O golpe em marcha n\u00e3o \u00e9 contra o governo Lula: <br \/>\u00c9 apoiado por ele e quer perpetuar sua pol\u00edtica econ\u00f4mica<br \/>Carlos Eduardo Carvalho*, 22.07.05 <\/p>\n<p>H\u00e1 um golpe em marcha no pa\u00eds, sem d\u00favida, mas n\u00e3o \u00e9 contra Lula e seu<br \/>governo, como alardeiam seus defensores. O golpe tem o singelo nome de<br \/>d\u00e9ficit nominal zero. Esta \u00e9 a \u00fanica proposta no cen\u00e1rio pol\u00edtico atual que<br \/>implica mudan\u00e7as nas institui\u00e7\u00f5es: quer alterar a norma constitucional que<br \/>destina parcelas espec\u00edficas do gasto p\u00fablico para educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade e quer<br \/>introduzir na Constitui\u00e7\u00e3o a obrigatoriedade do d\u00e9ficit nominal zero.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o golpe a enfrentar. A Carta Magna \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es<br \/>fundamentais da Rep\u00fablica. Alterar a Constitui\u00e7\u00e3o por um casu\u00edsmo \u00e9 um<br \/>golpe. Alterar a Constitui\u00e7\u00e3o para defender uma op\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica econ\u00f4mica<br \/>\u00e9 um golpe. O golpe tem autor conhecido, o velho golpista Delfim Netto,<br \/>ministro da ditadura e not\u00f3rio defensor dos m\u00e9todos antidemocr\u00e1ticos e dos<br \/>interesses antipopulares.<\/p>\n<p>O objetivo do golpe \u00e9 perpetuar a pol\u00edtica econ\u00f4mica do governo Lula,<br \/>garantindo a ela uma &quot;blindagem constitucional&quot;. O objetivo \u00e9 mexer nas<br \/>institui\u00e7\u00f5es para penalizar a maioria dos brasileiros, em proveito de uma<br \/>reduzida minoria. Os perdedores ser\u00e3o os trabalhadores, os pobres em geral.<br \/>Os ganhadores ser\u00e3o os rentistas, os credores do estado e os banqueiros.<br \/>Trata-se de um golpe, sem d\u00favida, um golpe contra o povo brasileiro. Tem o<br \/>apoio do governo Lula.<\/p>\n<p>Os reais objetivos da proposta est\u00e3o dissimulados sob uma apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>&quot;t\u00e9cnica&quot;, como \u00e9 h\u00e1bito de seu mel\u00edfluo autor. Na base est\u00e1 o<br \/>reconhecimento de que a atual pol\u00edtica econ\u00f4mica \u00e9 perigosa. Os juros altos<br \/>impedem o crescimento sustentado, pressionam a d\u00edvida p\u00fablica, o<br \/>endividamento p\u00fablico n\u00e3o se reduz, o que \u00e9 o argumento para mais juros<br \/>altos, um c\u00edrculo vicioso que preocupa at\u00e9 os seus benefici\u00e1rios. Trata-se<br \/>ent\u00e3o de criar condi\u00e7\u00f5es para reduzir os juros. Esta declara\u00e7\u00e3o de bons<br \/>prop\u00f3sitos alivia as dores de consci\u00eancia de muitos petistas &quot;mais \u00e0<br \/>esquerda&quot; e atende aos reclamos de parte da sociedade.<\/p>\n<p>Delfim e outros representantes do grande capital t\u00eam medo de que haja<br \/>descontrole na economia, no caso de uma crise externa, e a d\u00edvida p\u00fablica<br \/>se torne inadministr\u00e1vel. T\u00eam medo tamb\u00e9m de que o desgaste do governo Lula<br \/>d\u00ea lugar a outro governo, o qual seria imprevis\u00edvel, e poderia at\u00e9 mesmo<br \/>tentar romper a ditadura dos credores e dos rentistas sobre o estado<br \/>brasileiro. A quest\u00e3o crucial \u00e9 garantir que os juros da d\u00edvida p\u00fablica<br \/>ser\u00e3o pagos com a pontualidade e a generosidade de hoje, por muitos anos \u00e0<br \/>frente. Trata-se de estabelecer uma camisa-de-for\u00e7a: garantir, em preceito<br \/>de natureza constitucional, que o pagamento dos juros da d\u00favida p\u00fablica<br \/>ter\u00e1 preced\u00eancia absoluta sobre todos os demais compromissos do estado<br \/>brasileiro.<\/p>\n<p>Nada disso pode ser dito \u00e0s claras, \u00e9 \u00f3bvio. A proposta \u00e9 justificada com a<br \/>necessidade de baixar os juros. Entra aqui a pitada de lugar-comum, de bom<br \/>senso de almanaque: o pa\u00eds precisa de &quot;contas em ordem&quot;, de &quot;equil\u00edbrio<br \/>fiscal&quot;. \u00c9 o truque de sempre: fica impl\u00edcito que os juros s\u00e3o altos por<br \/>conta do d\u00e9ficit fiscal. Esta tese nunca foi demonstrada. Sustentamos<br \/>durante anos que o d\u00e9ficit cresceu nos governos tucanos por conta da<br \/>pol\u00edtica cambial e da estrat\u00e9gia de estabiliza\u00e7\u00e3o do Plano Real. Os juros<br \/>s\u00e3o altos porque a d\u00edvida cresceu, porque a posi\u00e7\u00e3o cambial do pa\u00eds \u00e9<br \/>vulner\u00e1vel e porque a pol\u00edtica de Malan e Palocci \u00e9 &quot;comprar&quot; o apoio dos<br \/>mercados &quot;pagando&quot; com juros imorais. Para n\u00e3o reabrir esta pol\u00eamica, vamos<br \/>analisar a proposta dentro do pressuposto impl\u00edcito dos seus autores, de<br \/>que o problema \u00e9 de natureza fiscal.<\/p>\n<p>Em 2004, ano de grande crescimento econ\u00f4mico, o setor p\u00fablico gerou<br \/>super\u00e1vit prim\u00e1rio de R$ 80 bilh\u00f5es. Este \u00e9 o resultado corrente de todos<br \/>os n\u00edveis de governo: receitas tribut\u00e1ria menos despesas de custeio,<br \/>pol\u00edticas p\u00fablicas, investimentos, previd\u00eancia. O gasto com juros ficou<br \/>pouco acima de R$ 128 bilh\u00f5es, 7,3% do PIB brasileiro. Da\u00ed resultou R$ 47<br \/>bilh\u00f5es (2,7% do PIB) de d\u00e9ficit nominal, o resultado final de todo o setor<br \/>p\u00fablico, inclusive gasto com juros.<\/p>\n<p>A proposta de Delfim \u00e9 eliminar este d\u00e9ficit nominal, por meio de corte de<br \/>despesas corrente do governo. Prop\u00f5e para isso que seja reduzida em 20% a<br \/>destina\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de recursos para Educa\u00e7\u00e3o e Sa\u00fade, prevista na<br \/>Constitui\u00e7\u00e3o, e que a exig\u00eancia de equil\u00edbrio no resultado nominal se torne<br \/>uma regra constitucional. Feito isso, nenhum governo poder\u00e1 repor a<br \/>obrigatoriedade das verbas sociais sem nova emenda constitucional.<\/p>\n<p>Em troca, oferecem o qu\u00ea? A promessa de que os juros cair\u00e3o &quot;naturalmente&quot;<br \/>\u00c9 isso mesmo: uma promessa, uma simples promessa! Nenhuma exig\u00eancia de que<br \/>os juros caiam, nenhum compromisso pr\u00e9vio, nenhum prazo. E se o BC n\u00e3o<br \/>baixar os juros, porque o petr\u00f3leo subiu ou caiu, porque houve seca ou<br \/>inunda\u00e7\u00f5es, por causa do efeito estufa ou da guerra no Iraque? Bem, neste<br \/>caso, o pov\u00e3o ter\u00e1 que esperar um pouco at\u00e9 que haja condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis<br \/>para que os juros caiam enfim, como todos querem. Enquanto isso os<br \/>rentistas e os banqueiros continuar\u00e3o recebendo pontualmente suas rendas<br \/>usur\u00e1rias, a remunera\u00e7\u00e3o de que precisam para manter a credibilidade do<br \/>governo.<br \/>Vamos supor que os movimentos sociais e os remanescentes da esquerda<br \/>organizada decidissem recuperar sua independ\u00eancia pol\u00edtica e decidissem<br \/>tomar iniciativas pr\u00f3prias para buscar uma sa\u00edda pela esquerda da crise<br \/>atual. Poderiam discutir a proposta de Delfim com algumas exig\u00eancias m\u00ednimas:<br \/>a) limita\u00e7\u00e3o imediata do gasto do setor p\u00fablico com juros; se o objetivo \u00e9<br \/>&quot;economizar&quot; R$ 47 bilh\u00f5es, propor que 75% deste corte de gastos seja feito<br \/>na conta de juros; assim, o gasto anual com juros deveria encolher em R$<br \/>35,3 bilh\u00f5es at\u00e9 o final de 2006 e n\u00e3o poderia superar 5,28% do PIB, ou R$<br \/>92,7 bilh\u00f5es a pre\u00e7os de 2004;<br \/>b) corte de despesas correntes, no montante necess\u00e1rio para cobrir os 25%<br \/>do d\u00e9ficit nominal, ocorreria apenas em 2006, com revers\u00e3o autom\u00e1tica em 2007;<br \/>c) aprova\u00e7\u00e3o imediata do princ\u00edpio do or\u00e7amento obrigat\u00f3rio, ou seja, o<br \/>Executivo fica obrigado a executar o or\u00e7amento anual, sem a prerrogativa de<br \/>retardar despesas ou de n\u00e3o realiz\u00e1-las.<br \/>O sentido da proposta \u00e9 simples: tratar da mesma forma as despesas<br \/>correntes e as despesas com juros. Se os gastos com educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade podem<br \/>ser contingenciados, que o sejam tamb\u00e9m os gastos com juros. Se o BC quiser<br \/>praticar juros muito altos, os encargos n\u00e3o ser\u00e3o pagos e o BC que se<br \/>entenda com os mercados. Na pr\u00e1tica, isto obrigaria o BC a cortar os juros<br \/>de imediato, aquilo que o autor da proposta &quot;promete&quot;.<\/p>\n<p>Em troca do sacrif\u00edcio adicional dos gastos sociais at\u00e9 o final de 2006, a<br \/>sociedade receberia a garantia de que o or\u00e7amento ser\u00e1 cumprido de fato e<br \/>de que os cidad\u00e3os ter\u00e3o os mesmos direitos aos recursos p\u00fablicos hoje<br \/>atribu\u00eddo apenas a banqueiros e a rentistas.<\/p>\n<p>Uma proposta assim exigiria um posicionamento diferente dos movimentos<br \/>sociais e dos remanescentes da esquerda. Ao inv\u00e9s de denunciar &quot;o<br \/>golpismo&quot;, sem explicar do que se trata, deveriam lan\u00e7ar um movimento em<br \/>defesa da legalidade e da Constitui\u00e7\u00e3o. Este movimento teria como alvo a<br \/>proposta de Delfim e quaisquer tentativas semelhantes, al\u00e9m de barrar o<br \/>suposto golpe contra Lula que muitos petistas acreditam existir.<\/p>\n<p>Uma proposta assim ajudaria a exigir do governo Lula a mudan\u00e7a da pol\u00edtica<br \/>econ\u00f4mica como condi\u00e7\u00e3o para apoi\u00e1-lo. Se Lula n\u00e3o quer mudar a pol\u00edtica<br \/>econ\u00f4mica, que governe ent\u00e3o com Palocci, Meirelles, os tucanos, a Febraban<br \/>e o FMI, como tem feito. Dar apoio a Lula sem exigir a mudan\u00e7a da pol\u00edtica<br \/>econ\u00f4mica \u00e9 dar solidariedade a esta gente.<\/p>\n<p>*Carlos Eduardo Carvalho &#8211; Economista, professor da PUCSP <br \/>Artigo publicado na Revista Espa\u00e7o Acad\u00eamico, www.espa\u00e7oacademico.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O golpe em marcha n\u00e3o \u00e9 contra o governo Lula: \u00c9 apoiado por ele e quer perpetuar sua pol\u00edtica econ\u00f4micaCarlos Eduardo Carvalho*, 22.07.05 H\u00e1 um golpe em marcha no pa\u00eds, sem d\u00favida, mas n\u00e3o \u00e9 contra Lula e seugoverno, como alardeiam seus defensores. O golpe tem o singelo nome ded\u00e9ficit nominal zero. 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