{"id":2801,"date":"2005-08-23T04:39:11","date_gmt":"2005-08-23T04:39:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2005\/08\/23\/o-brasil-precisa-de-projeto\/"},"modified":"2017-10-02T21:42:15","modified_gmt":"2017-10-02T21:42:15","slug":"o-brasil-precisa-de-projeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2005\/08\/23\/o-brasil-precisa-de-projeto\/","title":{"rendered":"O Brasil precisa de projeto"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Pedro Stedile<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\"> A sociedade brasileira est\u00e1 perplexa diante da &quot;nudez pol\u00edtica&quot; a quefoi exposto o Parlamento e a forma como funcionam as campanhaseleitorais no Brasil. Os partidos se abastecem nas empresas p\u00fablicas ouprivadas, em alguns bancos a fim de sustentar suas campanhas, obterprivil\u00e9gios pessoais e parlamentares, derrubando com isso as barreirasque separam as arrecada\u00e7\u00f5es legais das ilegais. Em troca, s\u00f3 Deus sabeo que \u00e9 oferecido.<\/div>\n<p>Certamente, o que causou mais perplexidade foi a pr\u00e1tica tradicional da direita agora ser comprovadamente realizada tamb\u00e9m pelo principal partido da esquerda. E a opini\u00e3o p\u00fablica espera que seja revelada a origem dos recursos, quem s\u00e3o os empres\u00e1rios pagadores e quais seus verdadeiros interesses. Afinal, ningu\u00e9m entrega milh\u00f5es de gra\u00e7a.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">Mas, para al\u00e9m dos casos de corrup\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso refletir sobre a natureza dessa crise. As evid\u00eancias s\u00e3o mais graves. Nosso pa\u00eds vive uma crise que abrange a economia. \u00c9 verdade que o PIB cresceu, ainda que mediocremente, que a infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 controlada, que as grandes corpora\u00e7\u00f5es e bancos t\u00eam lucros fant\u00e1sticos e que os saldos da balan\u00e7a comercial batem recordes.<\/p>\n<p>Mas a economia n\u00e3o est\u00e1 resolvendo os problemas b\u00e1sicos da popula\u00e7\u00e3o: emprego, renda e bem-estar social. H\u00e1 uma crise social. Nossos n\u00edveis de viol\u00eancia social s\u00e3o equiparados aos dos pa\u00edses em guerra. (Oxal\u00e1 nos lembremos disso na hora de votar contra a venda de armas no Brasil, em outubro!)<\/p>\n<p>H\u00e1 uma crise pol\u00edtica, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o se v\u00ea representada pelos pol\u00edticos e partidos, e uma crise ideol\u00f3gica. N\u00e3o h\u00e1 debate de id\u00e9ias, de projetos, de propostas para a sociedade. O neoliberalismo conseguiu reduzir e transformar a pol\u00edtica num mero mercado de votos, controlado por &quot;marqueteiros&quot; de aluguel que cobram fortunas para enganar o povo. Infelizmente, nenhuma for\u00e7a social organizada tem claro qual projeto quer para a sociedade. E as universidades e meios de comunica\u00e7\u00e3o, que seriam espa\u00e7os necess\u00e1rios para esse debate, tamb\u00e9m est\u00e3o alienados dos verdadeiros problemas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante desse quadro, a avalia\u00e7\u00e3o do MST, da Via Campesina e de outros movimentos sociais \u00e9 que a sa\u00edda para a crise n\u00e3o est\u00e1 apenas na puni\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de quem praticou corrup\u00e7\u00e3o. N\u00e3o basta pedir aos partidos que fa\u00e7am a autocr\u00edtica. N\u00e3o basta reduzir a quest\u00e3o a apoiar ou n\u00e3o o governo Lula. Os movimentos sociais, como o MST, devem manter sua autonomia em rela\u00e7\u00e3o ao governo, ao Estado e aos partidos.<\/p>\n<p>Onde est\u00e1 a sa\u00edda, ent\u00e3o? A sa\u00edda dessa crise requer diversas medidas, que abarcam aspectos econ\u00f4micos, pol\u00edticos e sociais.<\/p>\n<p>No campo econ\u00f4mico, \u00e9 preciso mudar essa pol\u00edtica econ\u00f4mica neoliberal que s\u00f3 beneficia os bancos e as grandes corpora\u00e7\u00f5es. A imensa maioria da sociedade \u00e9 contra a atual pol\u00edtica econ\u00f4mica -inclusive o vice-presidente da Rep\u00fablica. \u00c9 preciso subordinar a pol\u00edtica econ\u00f4mica aos interesses do povo e \u00e0 sociedade. \u00c9 preciso que o Estado oriente a economia para resolver prioritariamente o problema do desemprego e de renda de todos os brasileiros, como, por exemplo, aumentando o sal\u00e1rio m\u00ednimo. \u00c9 preciso priorizar os gastos p\u00fablicos na educa\u00e7\u00e3o, moradia, saneamento b\u00e1sico, sa\u00fade, reforma agr\u00e1ria e incentivo a uma pol\u00edtica de promo\u00e7\u00e3o de atividades culturais.<\/p>\n<p>O professor F\u00e1bio Konder Comparato j\u00e1 defendeu in\u00fameras vezes nas p\u00e1ginas desta Folha a necessidade de uma reforma pol\u00edtica que recupere o poder de decis\u00e3o do povo, incorporando o direito de convocar plebiscitos e referendos populares, o direito de revogar mandatos legislativos e executivos e o controle sobre os or\u00e7amentos p\u00fablicos -entre outras medidas da democracia direta.<\/p>\n<p>Na reforma agr\u00e1ria, o governo est\u00e1 em d\u00edvida conosco e com a sociedade, pois o Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria caminha a passos de tartaruga, enquanto 130 mil fam\u00edlias sobrevivem debaixo de lonas pretas ao longo das estradas brasileiras, indignando a todos.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio realizarmos um amplo mutir\u00e3o nacional de debate de um projeto para o pa\u00eds, como foi proposto pela semana social da CNBB e por todas as for\u00e7as sociais. O pa\u00eds precisa de um rumo, de um projeto de na\u00e7\u00e3o que recupere a soberania nacional e popular, que reoriente a economia para atender \u00e0s necessidades do povo. E isso s\u00f3 se constr\u00f3i debatendo, aglutinando for\u00e7as.<\/p>\n<p>Estamos convencidos de que qualquer outra &quot;sa\u00edda milagrosa&quot; (de constituinte, reelei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o-reelei\u00e7\u00e3o, candidatos suprapartid\u00e1rios ou esquerdistas&#8230;) n\u00e3o ser\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o se n\u00e3o debatermos um projeto e possibilitarmos a participa\u00e7\u00e3o efetiva da popula\u00e7\u00e3o na defini\u00e7\u00e3o dos rumos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<br \/>Jo\u00e3o Pedro Stedile, economista e especialista em economia agr\u00e1ria, \u00e9 membro da dire\u00e7\u00e3o nacional do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). <\/p>\n<p>Folha de S. Paulo, 15.08.2005, Tend\u00eancias\/ Debates<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Pedro Stedile A sociedade brasileira est\u00e1 perplexa diante da &quot;nudez pol\u00edtica&quot; a quefoi exposto o Parlamento e a forma como funcionam as campanhaseleitorais no Brasil. 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