{"id":2757,"date":"2005-05-24T08:28:45","date_gmt":"2005-05-24T08:28:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2005\/05\/24\/falta-coragem-entrevista-joao-pedro-stedile\/"},"modified":"2017-10-02T21:42:50","modified_gmt":"2017-10-02T21:42:50","slug":"falta-coragem-entrevista-joao-pedro-stedile","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2005\/05\/24\/falta-coragem-entrevista-joao-pedro-stedile\/","title":{"rendered":"Falta Coragem. Entrevista Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile"},"content":{"rendered":"<p>Correio Braziliense, 23.5.2005, Brasil<\/p>\n<p>O l\u00edder do MST diz que a marcha deu resultados e critica o governo por n\u00e3o<br \/>dar prioridade ao social<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Carravilla<br \/>Da equipe do Correio<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Pedro Stedile marchou em sil\u00eancio. Mochila nas costas, chinelo de<br \/>dedos e bon\u00e9 na cabe\u00e7a, o economista p\u00f3s-graduado no M\u00e9xico misturou-se aos<br \/>12 mil sem-terra na caminhada at\u00e9 Bras\u00edlia, que terminou na quarta-feira da<br \/>semana passada. Alegando que cada um tinha sua fun\u00e7\u00e3o _ e a dele n\u00e3o era<br \/>falar _ recusou-se a dar entrevistas \u00e0 imprensa. Quando quebrou o sil\u00eancio,<br \/>o ga\u00facho de Lagoa Vermelha foi pol\u00eamico: _Vamos dar um pau no Palocci_,<br \/>disse, sobre a atua\u00e7\u00e3o dos economistas do Movimento dos Trabalhadores<br \/>Rurais Sem Terra (MST) em um poss\u00edvel encontro com o ministro da Fazenda.<br \/>Dois dias depois do fim da marcha, Stedile concedeu, por e-mail, esta<br \/>entrevista ao Correio. Aqui, ele diz que as ocupa\u00e7\u00f5es a propriedades s\u00e3o a<br \/>forma mais eficaz de acelerar a reforma agr\u00e1ria e cobra mais investimentos<br \/>do governo. _O Minist\u00e9rio da Fazenda corta apenas os gastos sociais, mas<br \/>n\u00e3o corta os juros_, reclama. Tamb\u00e9m afirma que a imprensa brasileira \u00e9<br \/>preconceituosa com os sem-terra e critica o ministro da Agricultura,<br \/>Roberto Rodrigues: _Ele se comporta muito mais como presidente do sindicato<br \/>do agroneg\u00f3cio do que como um ministro de Estado_. A seguir, os principais<br \/>trechos da entrevista. <\/p>\n<p>CORREIO BRAZILIENSE _ A marcha mostrou resultados? <br \/>JO\u00c3O PEDRO STEDILE _ A marcha tinha como objetivos fazer com que a reforma<br \/>agr\u00e1ria voltasse a ser debatida pela opini\u00e3o p\u00fablica, debater com a<br \/>sociedade a natureza dos problemas brasileiros e a necessidade de se mudar<br \/>a pol\u00edtica econ\u00f4mica. Tamb\u00e9m busc\u00e1vamos resolver os problemas imediatos do<br \/>atraso da reforma agr\u00e1ria nos estados e levar o governo federal a<br \/>implementar medidas estruturantes. Na nossa avalia\u00e7\u00e3o, todos esses<br \/>objetivos foram alcan\u00e7ados. Portanto, apesar do sacrif\u00edcio das pessoas que<br \/>participaram, foi um sucesso absoluto. Demonstrou que existem energias na<br \/>sociedade brasileira que podem ser usadas para construirmos um projeto de<br \/>desenvolvimento para o pa\u00eds. <\/p>\n<p>CORREIO _ Qual a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a viol\u00eancia registrada no \u00faltimo dia<br \/>da marcha? <br \/>STEDILE _ O MST sempre teve um bom relacionamento com a Pol\u00edcia Militar do<br \/>Distrito Federal. J\u00e1 disputamos com eles at\u00e9 partidas de futebol. Mas temos<br \/>consci\u00eancia que h\u00e1 setores dentro da pol\u00edcia do GDF que s\u00e3o manipulados<br \/>pela direita e pelos conservadores. Esses setores, que envergonham a<br \/>pol\u00edcia, ficaram todo tempo provocando um clima de tens\u00e3o, para gerar algum<br \/>conflito que pudesse tirar o sucesso da chegada da marcha, pelo menos na<br \/>imprensa. E, infelizmente, conseguiram. N\u00f3s nos iludimos com as boas<br \/>rela\u00e7\u00f5es que fizemos com o comando e subestimamos a capacidade desses<br \/>setores nos aprontarem alguma. E aprontaram. O epis\u00f3dio foi claramente<br \/>provocado. No ato, viu-se que um carro da pol\u00edcia civil tentou passar pelo<br \/>meio da multid\u00e3o, embora n\u00e3o tivesse nada que fazer l\u00e1. Dai, alguns punks e<br \/>sect\u00e1rios agrediram o carro. Imediatamente, a pol\u00edcia reagiu contra toda<br \/>multid\u00e3o. Impressionante a rapidez com que a cavalaria estava a postos. Deu<br \/>a impress\u00e3o de que estavam esperando para agredir a todos. Em seguida, o<br \/>helic\u00f3ptero fez v\u00f4os rasantes e aumentou o clima de tens\u00e3o. <\/p>\n<p>CORREIO _ O caminh\u00e3o de som n\u00e3o estimulou os manifestantes a vaiar a<br \/>pol\u00edcia montada? <br \/>STEDILE _ N\u00e3o somos idiotas. Nunca pregamos o confronto com a pol\u00edcia como<br \/>forma de resolver problemas. O objetivo das manifesta\u00e7\u00f5es do MST \u00e9<br \/>pressionar para resolver os problemas do pa\u00eds. Os jornalistas s\u00e3o<br \/>testemunhas que os carros de som orientaram para evitar as provoca\u00e7\u00f5es dos<br \/>policiais e dos punks. O epis\u00f3dio revela que setores da pol\u00edcia deveriam<br \/>voltar \u00e0 escola e terem um pouco mais de dignidade com o tratamento do povo. <\/p>\n<p>CORREIO _ O acordo com o governo n\u00e3o falha ao apresentar uma lista de<br \/>promessas sem indicar a fonte de recursos? <br \/>STEDILE _ Dinheiro n\u00e3o falta, o que falta \u00e9 dar prioridade \u00e0 \u00e1rea social.<br \/>De onde vir\u00e3o os recursos, isso \u00e9 uma quest\u00e3o t\u00e9cnica, menor. Isso \u00e9 com os<br \/>burocratas do governo. Mas posso garantir que o governo recolhe muitos<br \/>recursos p\u00fablicos de impostos. No entanto, infelizmente, a prioridade \u00e9<br \/>apenas pagar juros e atender os compromissos com as elites. Esperamos que o<br \/>governo honre com os compromissos assumidos e assinados publicamente. N\u00f3s<br \/>fizemos um acordo pol\u00edtico com o governo, que reconheceu estar em d\u00edvida<br \/>com os sem-terra e com o povo brasileiro. O governo n\u00e3o vinha cumprindo a<br \/>meta de assentamento. Tamb\u00e9m n\u00e3o cumpria suas obriga\u00e7\u00f5es nos acampamentos e<br \/>assentamentos. <\/p>\n<p>CORREIO _ O governo n\u00e3o deveria ter dito qual ser\u00e1 o valor do projeto de<br \/>suplementa\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria que enviar\u00e1 ao Congresso at\u00e9 o dia 31 de maio ? <br \/>STEDILE _ N\u00e3o. O que queremos \u00e9 que o governo recomponha o Or\u00e7amento da<br \/>Uni\u00e3o j\u00e1 aprovado pelo Congresso, que previa os R$ 3,7 bilh\u00f5es para reforma<br \/>agr\u00e1ria. O que precisa apenas \u00e9 descontigenciar todos os recursos que s\u00e3o<br \/>para \u00e1rea social. <\/p>\n<p>CORREIO _ Qual sua avalia\u00e7\u00e3o da cobertura da imprensa sobre o acordo? <br \/>STEDILE _ O Minist\u00e9rio da Fazenda corta apenas os gastos sociais, mas n\u00e3o<br \/>corta os juros. No mesmo dia do final da marcha, o Banco Central aumentou<br \/>os juros de 19,5% para 19,75%. Isso vai aumentar os custos do governo ate o<br \/>final do ano em R$ 900 milh\u00f5es s\u00f3 em juros. Mas nenhum jornal perguntou se<br \/>o governo iria enviar medida para suplementa\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria para os<br \/>bancos. Os jornais e seus propriet\u00e1rios sempre s\u00e3o cr\u00edticos ao governo<br \/>quando quer fazer gastos sociais, mas ficam calados quando aumentam os<br \/>gastos com bancos e a transfer\u00eancia de lucros. <\/p>\n<p>CORREIO _ E a posi\u00e7\u00e3o do ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, em<br \/>rela\u00e7\u00e3o aos crit\u00e9rios de produtividade? <br \/>STEDILE _ Temos ouvido dentro do governo de que o ministro da Agricultura<br \/>se comporta muito mais como presidente do sindicato do agroneg\u00f3cio do que<br \/>como um ministro de Estado. Sua prioridade deveria ser o desenvolvimento de<br \/>todo pa\u00eds e de todo povo. Ele precisa de umas aulinhas sobre o que diz a<br \/>Constitui\u00e7\u00e3o a respeito do papel de um ministro. Est\u00e3o fazendo um cavalo de<br \/>batalha com os \u00edndices de produtividade como se fosse uma agress\u00e3o ao<br \/>latif\u00fandio. Ora, convenhamos, n\u00e3o \u00e9 o agroneg\u00f3cio que se orgulha de ter<br \/>mudado a agricultura brasileira. Dizem ter modernizado e sustentado o pa\u00eds.<br \/>Pois bem, os \u00edndices utilizados pelo Incra s\u00e3o de 1975. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9<br \/>atualizar os indicadores. Usar os dados levantados pelo IBGE em 1995. Isso<br \/>representa dez anos de atraso. Mesmo assim, reclamam. Reclamam, porque<br \/>querem manter o latif\u00fandio intoc\u00e1vel. Mas a Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 clara: toda a<br \/>grande propriedade, acima de 1.500 hectares, que n\u00e3o produzir e n\u00e3o cumprir<br \/>sua fun\u00e7\u00e3o social, deve ser desapropriada pelo Estado, em nome da<br \/>sociedade. O que est\u00e1 faltando \u00e9 um pouco mais de coragem ao governo para<br \/>fazer as mudan\u00e7as necess\u00e1rias. Na teoria, todo o governo \u00e9 a favor de<br \/>combater a pobreza e a desigualdade, mas cada vez que algu\u00e9m apresenta<br \/>propostas concretas que afetam a concentra\u00e7\u00e3o de terra e riqueza, n\u00e3o deixam. <\/p>\n<p>CORREIO _ O senhor afirmou aos militantes que _aumentem a consci\u00eancia e<br \/>intensifiquem as invas\u00f5es_. Isso n\u00e3o gera mais viol\u00eancia? <br \/>STEDILE _ Ao contr\u00e1rio. Quis dizer no discurso justamente que nossa<br \/>milit\u00e2ncia precisa estudar mais, compreender a conjuntura pol\u00edtica, a luta<br \/>de classes. Isso significa conhecimento, consci\u00eancia da realidade, para n\u00e3o<br \/>cair nas provoca\u00e7\u00f5es baratas de policiais ou de setores conservadores. E,<br \/>portanto, evitar a viol\u00eancia, evitar confrontos. Em geral, as pessoas de<br \/>menor consci\u00eancia \u00e9 que caem mais f\u00e1cil nas provoca\u00e7\u00f5es. Nosso rem\u00e9dio<br \/>contra a viol\u00eancia \u00e9 o estudo, o conhecimento. <\/p>\n<p>CORREIO _ As invas\u00f5es s\u00e3o mesmo necess\u00e1rias ? <br \/>STEDILE _ Veja como voc\u00eas s\u00e3o preconceituosos. Sempre falamos ocupa\u00e7\u00f5es,<br \/>porque \u00e9 bem diferente de invas\u00e3o. Invas\u00e3o \u00e9 um ato de apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita<br \/>de um bem para aproveitamento privado, particular. \u00c9 o que fazem os<br \/>fazendeiros quando invadem terra p\u00fablica e terra de \u00edndios, para seu uso e<br \/>enriquecimento pessoal. Ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma mobiliza\u00e7\u00e3o de massa, que entra numa<br \/>\u00e1rea, para pressionar o governo a aplicar a lei, a desapropri\u00e1-la. Esses<br \/>conceitos est\u00e3o na sociologia pol\u00edtica e est\u00e3o num acordo do pr\u00f3prio STJ<br \/>(Superior Tribunal de Justi\u00e7a). Mas voc\u00eas, jornalistas, insistem em usar<br \/>mal as palavras, o que leva a preconceitos. Sempre defendemos, desde o<br \/>inicio, h\u00e1 21 anos, as ocupa\u00e7\u00f5es massivas realizadas pelos pobres do campo.<br \/>Infelizmente \u00e9 a \u00fanica forma eficaz de pressionar o governo para aplicar a<br \/>lei. Foi a forma usada por todas as fam\u00edlias que hoje est\u00e3o assentadas.<br \/>Nenhuma recebeu por benesse de algum pol\u00edtico ou iniciativa do governo.<br \/>Todas elas tiveram que se organizar, lutar e ocupar a terra para ent\u00e3o o<br \/>Estado agir. <\/p>\n<p>CORREIO _ O senhor tinha a expectativa de que, no governo Lula, as invas\u00f5es<br \/>diminu\u00edssem? <br \/>STEDILE _ Claro. N\u00f3s organizamos ocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o porque gostamos, porque<br \/>seja um passeio, um piquenique, n\u00f3s s\u00f3 organizamos ocupa\u00e7\u00f5es porque o<br \/>Estado n\u00e3o funciona. O Estado brasileiro est\u00e1 organizado apenas para manter<br \/>os privil\u00e9gios dos ricos. Sempre chega tarde para atender os pobres. Nenhum<br \/>pobre gosta de ficar na fila do INSS de madrugada. Lula tinha como<br \/>prioridade a reforma agr\u00e1ria, n\u00f3s acredit\u00e1vamos que as ocupa\u00e7\u00f5es<br \/>diminuiriam. Certa ocasi\u00e3o, em reuni\u00e3o com os ministros, o presidente Lula<br \/>disse que suas duas prioridades m\u00e1ximas eram o combate \u00e0 fome e a reforma<br \/>agr\u00e1ria. Se ele de fato conseguisse que o Minist\u00e9rio da Fazenda pensasse<br \/>assim tamb\u00e9m, certamente as ocupa\u00e7\u00f5es, os conflitos sociais no campo<br \/>diminu\u00edriam. <\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Correio Braziliense, 23.5.2005, Brasil O l\u00edder do MST diz que a marcha deu resultados e critica o governo por n\u00e3odar prioridade ao social Andr\u00e9 CarravillaDa equipe do Correio Jo\u00e3o Pedro Stedile marchou em sil\u00eancio. 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