{"id":2756,"date":"2005-05-24T08:26:22","date_gmt":"2005-05-24T08:26:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mst\/2005\/05\/24\/analise-de-conjuntura-ponto-de-vista-da-igreja-brasilera\/"},"modified":"2017-10-02T21:42:51","modified_gmt":"2017-10-02T21:42:51","slug":"analise-de-conjuntura-ponto-de-vista-da-igreja-brasilera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/2005\/05\/24\/analise-de-conjuntura-ponto-de-vista-da-igreja-brasilera\/","title":{"rendered":"An\u00e1lise de Conjuntura. Ponto de vista da Igreja Brasilera."},"content":{"rendered":"<p>CONFER\u00caNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL<br \/>Conselho Episcopal de Pastoral&nbsp; _ 14\u00aa Reuni\u00e3o<br \/>Bras\u00edlia &#8211; DF, 10&nbsp; a 12 de maio&nbsp; de 2005<\/p>\n<p>An\u00e1lise de Conjuntura \/ Maio 2005<br \/>N\u00e3o \u00e9 documento oficial da CNBB<br \/>Apresenta\u00e7\u00e3o<br \/>Esta An\u00e1lise tem como focos a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo Lula ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o<br \/>da Mesa diretora da C\u00e2mara, o impasse dos movimentos sociais em confronto com a<br \/>pol\u00edtica econ\u00f4mica, e dentro das rela\u00e7\u00f5es internacionais, a instabilidade na<br \/>Am\u00e9rica Latina. Na conclus\u00e3o, destaca-se a aprecia\u00e7\u00e3o de projetos aprovados ou<br \/>em discuss\u00e3o no congresso.<br \/>1. Desalento pol\u00edtico em tempos severinos.<br \/>A elei\u00e7\u00e3o de Severino Cavalcanti para a presid\u00eancia da C\u00e2mara dos Deputados<br \/>antecipa a campanha eleitoral de 2006. Os setores sociais representados pelo<br \/>PSDB, PFL e parte do PMDB viram-se amea\u00e7ados pelo candidato governista Eduardo<br \/>Greenhalgh, cuja biografia de milit\u00e2ncia nos movimentos sociais e apoio ao MST,<br \/>sinalizava para uma C\u00e2mara mais comprometida com a necess\u00e1ria transforma\u00e7\u00e3o<br \/>social no pa\u00eds. Diante desta amea\u00e7a aos _donos do poder_, estes se articularam<br \/>e, tirando proveito da divis\u00e3o na base governista, impuseram uma importante<br \/>derrota ao Governo Lula. A elei\u00e7\u00e3o da Mesa Diretora da C\u00e2mara de Deputados<br \/>sinaliza que est\u00e1 em vigor a t\u00e1tica &quot;do quanto pior, melhor&quot;.<br \/>Na posi\u00e7\u00e3o de Presidente da C\u00e2mara, Severino Cavalcanti pode criar muitos<br \/>obst\u00e1culos \u00e0 tramita\u00e7\u00e3o de projetos origin\u00e1rios do Executivo. Sua oposi\u00e7\u00e3o<br \/>dissimulada &quot;amarra&quot; o Governo, que dever\u00e1 &quot;pagar caro&quot; cada aprova\u00e7\u00e3o de<br \/>proposi\u00e7\u00f5es que lhe interessem. Imobiliza-se, assim, o governo Lula nos dois<br \/>anos em que ele poderia assegurar sua reelei\u00e7\u00e3o. Com Lula enfraquecido, os<br \/>_donos do poder_, embora satisfeitos com a manuten\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica,<br \/>poder\u00e3o buscar outro nome para a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<br \/>Todavia, os deputados que elegeram Severino n\u00e3o contavam com a rea\u00e7\u00e3o da<br \/>sociedade brasileira. A avalanche de mensagens eletr\u00f4nicas contra a proposta de<br \/>aumento salarial para os deputados federais e at\u00e9 mesmo o dia de luto como forma<br \/>de protesto, demonstram que a sociedade brasileira n\u00e3o vai assistir ap\u00e1tica ao<br \/>que acontece no Congresso Nacional.<br \/>\u00c0 luz desses acontecimentos, a derrota do PT na C\u00e2mara traz de volta a quest\u00e3o<br \/>que por muito tempo o pr\u00f3prio partido se fez: _Para chegar ao poder, n\u00e3o se<br \/>deve antes organizar a sociedade?_ A via eleitoral foi escolhida para abrir<br \/>espa\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do povo, sendo as campanhas eleitorais uma<br \/>forma de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ao priorizar a vit\u00f3ria eleitoral, o PT conquistou a<br \/>Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, mas, como disse Lula, n\u00e3o conquistou o poder. Com o<br \/>passar do tempo, vai perdendo autonomia de a\u00e7\u00e3o, ref\u00e9m de acordos e alian\u00e7as<br \/>que impediram a prevista reforma ministerial e acabaram trazendo para o<br \/>Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia um senador suspeito de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>Tudo isso provoca desalento e descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Neste clima,<br \/>a m\u00eddia, instrumentalizada e dominada pelas oligarquias nacionais, tudo faz para<br \/>jogar na vala comum as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que _ bem ou mal _ garantem a<br \/>democracia. Toda mobiliza\u00e7\u00e3o social \u00e9 desincentivada, enquanto a _baixaria_ s\u00f3<br \/>faz aumentar. As oligarquias brasileiras, que sempre colocaram os poderes<br \/>p\u00fablicos a seu servi\u00e7o _ como se o legislativo, o executivo e o judici\u00e1rio n\u00e3o<br \/>fossem mais que postos onde alocam seus subordinados (o Brasil j\u00e1 foi definido<br \/>como um _Estado cartorial_), desfrutam de uma enorme autonomia e organizam-se<br \/>de modo corporativo. A cultura patrimonialista que legitima a apropria\u00e7\u00e3o<br \/>indevida pelas elites dos or\u00e7amentos e dos bens p\u00fablicos, torna _normal_ o<br \/>funcionamento do sistema pol\u00edtico a base de nepotismo, clientelismo, pol\u00edticas<br \/>de favores e outras formas patol\u00f3gicas do exerc\u00edcio do poder, que se aparentam<br \/>aos processos de corrup\u00e7\u00e3o.<br \/>Exemplo desse poder olig\u00e1rquico \u00e9 o avan\u00e7o do agroneg\u00f3cio na Amaz\u00f4nia. O<br \/>desmatamento, que foi de 20 milh\u00f5es de Ha por ano entre 2001-2003, passou a 23<br \/>milh\u00f5es em 2003-2004, dado que provavelmente vai repetir-se este ano. N\u00e3o se<br \/>trata apenas de uma devasta\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica (no ritmo atual, a floresta<br \/>desaparecer\u00e1 em 25 anos), mas de um avan\u00e7o do capitalismo, no qual madeireiros,<br \/>carvoeiros, pecuaristas e plantadores de soja aquecem o mercado de terras, hoje<br \/>negociadas at\u00e9 por internet. Sob o olhar impotente ou complacente do Estado, a<br \/>_terra de neg\u00f3cio_ vai tomando o lugar da _terra de trabalho_ dos pobres.<br \/>Seguros do seu poder, os realmente ricos&nbsp; sabem que s\u00f3 uma forte organiza\u00e7\u00e3o<br \/>popular, vinda das bases, ser\u00e1 capaz de quebrar esse secular sistema de<br \/>domina\u00e7\u00e3o, e tudo fazem para impedir essa organiza\u00e7\u00e3o, ou, quando n\u00e3o o<br \/>conseguem, para cooptar seus l\u00edderes. Aqui situa-se o desafio do renascimento<br \/>dos movimentos sociais.<br \/>2. O Renascimento da sociedade civil e o impasse econ\u00f4mico<br \/>A experi\u00eancia dos movimentos sociais, ao longo dos \u00faltimos 50 anos, ensina que<br \/>somente a press\u00e3o pol\u00edtica, social ou moral pode conquistar melhorias na sua<br \/>vida cotidiana. Desde o fim do _populismo_ varguista, quando algumas concess\u00f5es<br \/>foram feitas antes mesmo que houvesse reivindica\u00e7\u00f5es massivas, eles aprenderam,<br \/>pela experi\u00eancia de acertos e erros, que as conquistas sociais e econ\u00f4micas n\u00e3o<br \/>s\u00e3o uma benevol\u00eancia dos poderosos, mas concess\u00f5es que eles se v\u00eaem obrigados a<br \/>fazer para se manterem no poder.<br \/>Apesar da propaganda oficial exaltar os valores do nosso povo, a pr\u00e1tica do<br \/>governo Lula n\u00e3o tem valorizado a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o do povo, que<br \/>esperava ser seu parceiro no projeto de mudan\u00e7as. Sua prioridade pol\u00edtica tem<br \/>sido a articula\u00e7\u00e3o parlamentar no \u00e2mbito do Congresso. Dadas as limita\u00e7\u00f5es da<br \/>democracia representativa em nosso pa\u00eds (a reforma pol\u00edtica, como veremos<br \/>adiante, est\u00e1 emperrada) seu di\u00e1logo com a sociedade civil \u00e9 restrito a f\u00f3runs,<br \/>conselhos e confer\u00eancias, onde o governo mais fala do que escuta .<br \/>Isso fica evidente no que se refere \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria e \u00e0 Agricultura Familiar.<br \/>Os movimentos sociais organizados t\u00eam consci\u00eancia de que as reivindica\u00e7\u00f5es<br \/>populares s\u00f3 poder\u00e3o ser atendidas quando for mudado o rumo da pol\u00edtica<br \/>econ\u00f4mica, at\u00e9 hoje a servi\u00e7o do grande capital, como mostra, com fina ironia,<br \/>o texto seguinte.<\/p>\n<p>Do pau-brasil \u00e0 soja: um milagre econ\u00f4mico \u00e0s avessas<br \/>Quando da independ\u00eancia das Treze Col\u00f4nias da Nova Inglaterra, o deputado<br \/>liberal da velha, Adam Smith (o pai Adam de todos os economistas) observou aos<br \/>pares que a perda n\u00e3o era tr\u00e1gica. Ruim seria Londres perder suas ilhas das<br \/>Cara\u00edbas.<br \/>O Brasil tem contado com o aplauso da finan\u00e7a internacional por se haver tornado<br \/>uma Jamaica semicontinental atualizada. De maneira moderna, a rela\u00e7\u00e3o externa<br \/>aprofunda progressivamente sua hegemonia sobre nossa economia e pol\u00edtica<br \/>econ\u00f4mica.<br \/>Nos tempos coloniais, quando o a\u00e7\u00facar fazia Pernambuco e Para\u00edba terem renda per<br \/>caput mais alta que a daqueles pobres e atrasados ianques, a _l\u00f3gica_ era a da<br \/>vantagem comparativa. Hoje, \u00e9 a da _integra\u00e7\u00e3o realista e din\u00e2mica na<br \/>globaliza\u00e7\u00e3o_ (a mesma, formulada mais sofisticadamente).<br \/>A taxa de juros continua subindo (sob pretexto de conter a infla\u00e7\u00e3o). Tornar o<br \/>Brasil atraente para _o mercado_ \u00e9 o que se quer. O sucesso no fluxo financeiro<br \/>faz com que o d\u00f3lar cujo valor real (em termos de mercadorias) seria ao redor de<br \/>R$ 3,20, esteja a menos de R$ 2,60 no mercado, tornando mais dif\u00edcil a<br \/>exporta\u00e7\u00e3o de produtos industriais brasileiros, porque encarecidos em moeda<br \/>externa.<br \/>Talvez o principal seja a op\u00e7\u00e3o preferencial pelo agroneg\u00f3cio. A cana de outrora<br \/>\u00e9 soja no s\u00e9culo XXI. H\u00e1 que exportar a todo o custo e no item gr\u00e3os para<br \/>alimento (sobretudo animal) o Brasil tem vantagem comparativa.<br \/>Preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas s\u00e3o atropeladas na urg\u00eancia de decis\u00f5es sobre<br \/>transg\u00eanicos. A floresta amaz\u00f4nica est\u00e1 sendo devastada. A prioridade \u00e0<br \/>propriedade familiar voltada para o mercado interno que se esbo\u00e7ava no apoio<br \/>t\u00e9cnico e financeiro do governo, \u00e9 interrompida como _ideol\u00f3gica_. A dire\u00e7\u00e3o da<br \/>EMBRAPA, que orientava as pesquisas para o apoio \u00e0 pequena unidade agr\u00edcola, era<br \/>_ideol\u00f3gica_. _T\u00e9cnico_, _pragm\u00e1tico_ \u00e9 o servi\u00e7o da EMBRAPA ao agroneg\u00f3cio, que<br \/>vai bem e tem sido aplaudido pelos credores.<br \/>Neste contexto, perde sentido falar da Reforma Agr\u00e1ria, ainda mais _ideol\u00f3gica_<br \/>que o apoio t\u00e9cnico da EMBRAPA \u00e0 pequena propriedade. Por que raz\u00e3o _desviar_<br \/>da exporta\u00e7\u00e3o terras que ela pode vir a usar?<\/p>\n<p>Na medida em que se difunde a consci\u00eancia de que o atendimento \u00e0s demandas<br \/>populares requer mudan\u00e7a de rumo da pol\u00edtica econ\u00f4mica, se torna mais dif\u00edcil a<br \/>rela\u00e7\u00e3o entre o governo Lula (que j\u00e1 disse, reiteradamente, acreditar no seu<br \/>acerto) e os movimentos populares. Eles precisam politizar sua base social e<br \/>elevar o n\u00edvel de seu discurso, para enfrentarem os condicionamentos impostos<br \/>pela equipe econ\u00f4mica. Mas isso implica maior radicaliza\u00e7\u00e3o e traz o desafio de<br \/>virem a ser acusados de enfraquecer o governo Lula. Neste contexto dois fatos<br \/>s\u00e3o marcantes.<br \/>O primeiro foi o Acampamento Terra Livre, em Bras\u00edlia, reunindo cerca de 800<br \/>lideran\u00e7as ind\u00edgenas _ muitos jovens _, de quase 90 povos, de todas as regi\u00f5es<br \/>do pa\u00eds. Defenderam seus direitos constitucionais e mostraram conhecer de perto<br \/>as quest\u00f5es que afligem as comunidades: terra, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, sustentabilidade<br \/>ambiental etc. Entre as principais conquistas do _Abril Ind\u00edgena_ est\u00e1 a<br \/>perspectiva de cria\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Pol\u00edtica Indigenista, proposta<br \/>consensual e estrat\u00e9gica do movimento ind\u00edgena. Mesmo sabendo que os inimigos<br \/>dos povos ind\u00edgenas tentar\u00e3o anular essa conquista no governo federal, no<br \/>Congresso, na m\u00eddia e junto \u00e0 sociedade nacional, o Acampamento Terra Livre<br \/>demonstrou o protagonismo pol\u00edtico dos povos ind\u00edgenas no Brasil.<br \/>O segundo fato \u00e9 a Marcha Nacional pela Reforma Agr\u00e1ria, que est\u00e1 mobilizando<br \/>milhares de pessoas a caminho de Bras\u00edlia, onde chegar\u00e3o no dia 17 de maio. Ela<br \/>poder\u00e1 levar o governo a resolver os problemas pendentes em centenas de<br \/>acampamentos de sem-terra esparramados pelo pa\u00eds, a melhorar a qualidade de<br \/>vida das fam\u00edlias assentadas e tamb\u00e9m propiciar as condi\u00e7\u00f5es para que seja<br \/>retomado o Plano Nacional de Reforma Agr\u00e1ria e se cumpra a meta de assentar 430<br \/>mil fam\u00edlias at\u00e9 2006. Mas tal \u00eaxito depende de uma grande organiza\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o<br \/>\u00e9 f\u00e1cil quando os movimentos de massas, no seu sentido mais amplo, se encontram<br \/>fragilizados pelo ide\u00e1rio neoliberal, pelo desemprego e subemprego, pela<br \/>perplexidade pol\u00edtica de suas lideran\u00e7as e pela falta de um partido pol\u00edtico<br \/>que as represente (pois o PT tornou-se um partido do governo e s\u00f3 um resto<br \/>ainda se alinha com esses movimentos sociais).<br \/>Por outro lado, essa radicaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais no sentido de mudar o<br \/>rumo da pol\u00edtica econ\u00f4mica, pode ser capitalizada pelos setores conservadores,<br \/>que, em defesa dos seus interesses, j\u00e1 est\u00e3o pedindo que o governo mostre sua<br \/>autoridade reprimindo-os. Exemplo disso \u00e9 o aumento da viol\u00eancia e da repress\u00e3o<br \/>contra o Movimento dos Atingidos por Barragens, como a pris\u00e3o de sete<br \/>agricultores, acusados de provocarem anarquia e desordem social, em Campos<br \/>Novos _ SC, a repress\u00e3o da PM a um protesto de agricultores contra a constru\u00e7\u00e3o<br \/>da barragem de Jurumirim, em Rio Casca &#8211; MG e a opera\u00e7\u00e3o do Ex\u00e9rcito na Usina<br \/>Hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed, no Par\u00e1, para prevenir manifesta\u00e7\u00f5es no local. Na base<br \/>desses conflitos est\u00e1 o fato de as empresas propriet\u00e1rias n\u00e3o quererem adotar o<br \/>crit\u00e9rio de terra por terra aos desalojados. Quando as fam\u00edlias reclamam, as<br \/>empresas acionam a Pol\u00edcia e o poder Judici\u00e1rio para a repress\u00e3o.<br \/>Essa criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais encontra eco favor\u00e1vel m\u00eddia, que<br \/>pinta as lideran\u00e7as populares como baderneiros interessados em beneficiar-se \u00e0s<br \/>custas de pobres que eles dizem representar. \u00c9 nesse dif\u00edcil contexto que os<br \/>movimentos sociais, apesar de tudo, renascem e se articulam, mesmo sem o apoio<br \/>do governo no qual muitos deles continuam teimosamente acreditando.<br \/>O Mutir\u00e3o por um Novo Brasil, patrocinado pelas Igrejas, pastorais e movimentos<br \/>sociais associados \u00e0 4\u00aa Semana Social Brasileira, quer retomar com vigor as<br \/>lutas de massa, na perspectiva de ac\u00famulo das for\u00e7as sociais, como caminho<br \/>vi\u00e1vel na constru\u00e7\u00e3o de um projeto acertado para a Na\u00e7\u00e3o Brasileira. Ele quer<br \/>superar o momento de desagrega\u00e7\u00e3o da esquerda e dos movimentos de massa, e<br \/>real\u00e7ar o protagonismo dos Movimentos Sociais na constru\u00e7\u00e3o de um projeto de<br \/>cidadania ativa para o Brasil. O processo da 4\u00aa SSB est\u00e1 a caminho do grande<br \/>encontro nacional em outubro pr\u00f3ximo. O ac\u00famulo de debates, mobiliza\u00e7\u00f5es e<br \/>articula\u00e7\u00f5es, realizados em todos os estados do Brasil ser\u00e3o a base para a<br \/>plataforma de acordos e compromissos comuns das principais for\u00e7as sociais do<br \/>Pa\u00eds, que ter\u00e3o ampla participa\u00e7\u00e3o neste encontro.<br \/>3. A inser\u00e7\u00e3o do Brasil no mundo<br \/>O Governo Lula montou sua pol\u00edtica externa a partir da estrat\u00e9gia de conquistar<br \/>aliados os mais diversos, para buscar a supera\u00e7\u00e3o da desigualdade nas rela\u00e7\u00f5es<br \/>econ\u00f4micas e mundiais e assim eliminar a fome e a mis\u00e9ria. Sua pol\u00edtica<br \/>interna, por\u00e9m, \u00e9 determinada por alian\u00e7as que impedem a realiza\u00e7\u00e3o dos<br \/>direitos sociais inscritos na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Essa contradi\u00e7\u00e3o coloca em<br \/>quest\u00e3o se a pol\u00edtica externa trar\u00e1 bases s\u00f3lidas para as necess\u00e1rias reformas.<br \/>As pol\u00edticas do governo Lula se inscrevem num contexto internacional que, em<br \/>parte, as determina. O processo de globaliza\u00e7\u00e3o crescente refor\u00e7a a<br \/>interdepend\u00eancia. Nenhum pa\u00eds pode ignorar o novo \u00e2mbito mundial na defini\u00e7\u00e3o<br \/>de suas pol\u00edticas. Lula procura refor\u00e7ar a presen\u00e7a do pa\u00eds no com\u00e9rcio<br \/>internacional, aumentar a influ\u00eancia pol\u00edtica do Brasil e conquistar certa<br \/>lideran\u00e7a entre os pa\u00edses do _Sul_ na perspectiva duma nova ordem<br \/>internacional. Esses objetivos devem ser situados no panorama internacional<br \/>atual, onde tr\u00eas elementos se destacam.<br \/>Unilateralismo<br \/>A \u00faltima d\u00e9cada viu a hegemonia econ\u00f4mica, ideol\u00f3gica e militar dos EUA se<br \/>refor\u00e7ar sensivelmente. A _guerra geral_ contra o terrorismo (Afeganist\u00e3o,<br \/>Iraque e Palestina) aumentou as tens\u00f5es nas rela\u00e7\u00f5es internacionais e a<br \/>desconfian\u00e7a da opini\u00e3o p\u00fablica. As nomea\u00e7\u00f5es feitas ap\u00f3s a reelei\u00e7\u00e3o do<br \/>presidente Bush n\u00e3o assinalam uma _distens\u00e3o_ , mas sim um novo equil\u00edbrio<br \/>mundial sob a lideran\u00e7a dos EUA e da China, com a Europa e o Jap\u00e3o em secundo<br \/>plano. Iniciativas multilaterais, como a limita\u00e7\u00e3o de emiss\u00e3o de gazes de<br \/>_efeito estufa_ (hoje inquestion\u00e1vel) e o reconhecimento do Tribunal Penal<br \/>Internacional, est\u00e3o fora da agenda de Bush. O Brasil, que teme se opor ao<br \/>poderoso vizinho do Norte, est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel, embora sua voz<br \/>tenha sido mais ouvida hoje do que nos oito anos de FHC.<br \/>Guerras<br \/>A guerra _preventiva_ ao terrorismo levou ao aumento do or\u00e7amento militar dos<br \/>EUA (mais de 400 bilh\u00f5es de d\u00f3lares em 2004, sem incluir as despesas de guerra<br \/>contra o Iraque e o Afeganist\u00e3o) e a hegemonia dos _falc\u00f5es_ em Washington. As<br \/>elei\u00e7\u00f5es no Afeganist\u00e3o e no Iraque n\u00e3o criaram estabilidade pol\u00edtica, pois a<br \/>_paz_ \u00e9 mantida pelas armas. Na Palestina continua a constru\u00e7\u00e3o do _muro da<br \/>vergonha_ para isolar a Cisjord\u00e2nia e agora, tamb\u00e9m Jerusal\u00e9m, apesar da<br \/>condena\u00e7\u00e3o pela Corte Internacional de Justi\u00e7a a Israel. Na \u00c1frica, os<br \/>conflitos (atr\u00e1s dos quais h\u00e1 interesses de grandes empresas) continuam fazendo<br \/>v\u00edtimas na popula\u00e7\u00e3o civil. As grandes pot\u00eancias t\u00eam meios para resolv\u00ea-los, mas<br \/>preferem n\u00e3o intervir. J\u00e1 morreram, na \u00faltima d\u00e9cada, mais de 2 milh\u00f5es de<br \/>pessoas. S\u00f3 em Darfur, prov\u00edncia ocidental do Sud\u00e3o, 180.000 morreram nos<br \/>\u00faltimos dezoito meses e 700.000 tiveram que refugiar-se.<br \/>Mis\u00e9ria.<br \/>O crescimento da mis\u00e9ria em muitos pa\u00edses ficou escondido sob a ligeira melhoria<br \/>nas estat\u00edsticas da ONU, devida aos bons resultados da luta contra a pobreza na<br \/>China, e em menor medida, na \u00cdndia. Na Am\u00e9rica Latina o n\u00famero de pobres<br \/>aumentou em 11 milh\u00f5es nos tr\u00eas \u00faltimos anos. O presidente Lula tenta criar na<br \/>ONU, junto com outros chefes de Estado, um fundo contra a fome e mis\u00e9ria, mas<br \/>encontra pouco apoio. O Banco Mundial, o FMI, a OMC e agora o F\u00f3rum Econ\u00f4mico<br \/>Mundial de Davos juram lutar contra a pobreza e mis\u00e9ria, mas as medidas<br \/>concretas n\u00e3o seguem as boas inten\u00e7\u00f5es. A globaliza\u00e7\u00e3o financeira sem limites<br \/>nem controle s\u00f3 tem aumentado as desigualdades entre grupos sociais e entre<br \/>pa\u00edses, a pobreza, a exclus\u00e3o e a mis\u00e9ria.<br \/>A \u00c1frica \u00e9 o continente mais abandonado a seu triste destino: ali est\u00e3o 39 dos<br \/>61 pa\u00edses mais pobres do mundo. Os investimentos orientam-se unicamente para a<br \/>explora\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, sem beneficiar a popula\u00e7\u00e3o. As d\u00edvidas<br \/>asfixiam qualquer possibilidade de desenvolvimento. Neste contexto, os Estados<br \/>_ grande parte deles em desmantelamento _ n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de lutar contra o<br \/>flagelo da AIDS, que dizima a popula\u00e7\u00e3o.<br \/>Em 1995 a ONU estabeleceu como meta reduzir pela metade a pobreza no mundo nos<br \/>vinte pr\u00f3ximos anos. Os _Objetivos do Mil\u00eanio para o Desenvolvimento_ s\u00e3o o<br \/>maior projeto hist\u00f3rico para reduzir a mis\u00e9ria, e sua aprova\u00e7\u00e3o expressa o<br \/>avan\u00e7o da consci\u00eancia mundial, deixando claro que _vivemos num mundo indiviso,<br \/>onde os ricos n\u00e3o podem mais ignorar os pobres_ (Amartya Sem). Mas seus<br \/>resultados s\u00e3o decepcionantes e provavelmente os objetivos n\u00e3o ser\u00e3o atingidos,<br \/>porque o _Norte Global_ (os ricos, independentemente de seu pa\u00edses) n\u00e3o v\u00ea<br \/>motivos para partilhar seus bens com o _Sul Global_ (o conjunto dos pobres do<br \/>mundo).<br \/>O contexto sul-americano<br \/>A transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica bem sucedida ao fim das ditaduras nos anos 1980 abriu o<br \/>caminho para a elei\u00e7\u00e3o de presidentes com um projeto social e democr\u00e1tico, em<br \/>oposi\u00e7\u00e3o ao neoliberalismo hegem\u00f4nico dos anos 1990. Essa onda reformista, que<br \/>representa a insatisfa\u00e7\u00e3o com as conseq&uuml;\u00eancias da globaliza\u00e7\u00e3o, em particular o<br \/>aumento da mis\u00e9ria, deu a vit\u00f3ria a candidatos de perfil nacionalista, popular<br \/>ou at\u00e9 mesmo de esquerda em muitos pa\u00edses da regi\u00e3o.<br \/>Eleitos, por\u00e9m, eles dificilmente conseguem promover reformas sociais e s\u00e3o<br \/>levados a manter a ortodoxia macroecon\u00f4mica. As situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o diversas. No<br \/>Equador e Peru, L\u00facio Gutierrez e Alejandro Toledo, abandonaram at\u00e9 o projeto<br \/>de reformas sociais. Gutierrez foi deposto por uma irreprim\u00edvel onda de<br \/>protestos populares. Na Argentina, a situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica da economia e uma<br \/>insurrei\u00e7\u00e3o popular latente, n\u00e3o deram a Kirchner outro alternativa sen\u00e3o<br \/>enfrentar os credores e o FMI, at\u00e9 agora com sucesso. No Chile e no Brasil,<br \/>Lagos e Lula prometem reformas, mas sem tocar nas estruturas pol\u00edticas e<br \/>econ\u00f4micas vigentes. No Uruguai, Tabar\u00e9 V\u00e1zquez ainda n\u00e3o mostrou como se<br \/>posicionar\u00e1 diante dos poderosos interesses financeiros. A Bol\u00edvia apresenta<br \/>uma situa\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel, pois os movimentos ind\u00edgenas, bem organizados, resistem<br \/>eficazmente contra a virada neoliberal do governo. J\u00e1 na Venezuela, Hugo Ch\u00e1vez<br \/>apoia-se na mobiliza\u00e7\u00e3o popular e promove importantes reformas sociais,<br \/>inclusive a reforma agr\u00e1ria e diminui o poder concentrado nas m\u00e3os duma<br \/>minoria. N\u00e3o por coincid\u00eancia, aumentam a hostilidade de Bush e a solidariedade<br \/>de Cuba.<br \/>Reais transforma\u00e7\u00f5es sociais, de f\u00f4lego, n\u00e3o poder\u00e3o acontecer sem a integra\u00e7\u00e3o<br \/>da regi\u00e3o. A ALCA, na qual muitos pa\u00edses perceberam o risco do neocolonialismo<br \/>institucionalizado, operou uma certa aproxima\u00e7\u00e3o entre os v\u00e1rios pa\u00edses,<br \/>levando os EUA \u00e0 estrat\u00e9gia de _dividir para reinar_. Unidos no Mercosul,<br \/>Brasil, Argentina e Paraguai _V\u00e1zquez est\u00e1 questionando a validade do acordo<br \/>assinado por seu antecessor _resistem \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o norte-americana e querem<br \/>refor\u00e7ar e ampliar o Mercosul para construir a Comunidade Latino-Americana das<br \/>Na\u00e7\u00f5es.<br \/>Cabe mencionar aqui a situa\u00e7\u00e3o do Haiti. Um ano depois da destitui\u00e7\u00e3o de<br \/>Aristide, o desastre humanit\u00e1rio e a confus\u00e3o pol\u00edtica s\u00f3 fazem aumentar. Os<br \/>_capacetes azuis_, sob comando brasileiro, s\u00f3 parcialmente cumprem sua miss\u00e3o.<br \/>N\u00e3o conseguem impedir as viol\u00eancias na sociedade ou entre grupos armados, nem<br \/>preparar um ambiente favor\u00e1vel para as elei\u00e7\u00f5es gerais em novembro deste ano.<br \/>Instabilidade estrutural.<br \/>A instabilidade regional ficou evidente neste m\u00eas de abril. Na cidade de M\u00e9xico<br \/>houve mega-manifesta\u00e7\u00f5es em favor do seu prefeito e principal advers\u00e1rio<br \/>pol\u00edtico do presidente Vicente Fox. A vit\u00f3ria eleitoral de Obrador parece<br \/>doravante muito prov\u00e1vel. Na Nicar\u00e1gua, o aumento do pre\u00e7o do transporte foi um<br \/>pretexto para muitos protestos contra a pol\u00edtica do presidente Enrique Bola\u00f1os,<br \/>pedindo a sua ren\u00fancia.<br \/>Mas foi, evidentemente, no Equador, que o descontentamento profundo da popula\u00e7\u00e3o<br \/>se expressou mais diretamente. O Coronel L\u00facio Guti\u00e9rrez, eleito em novembro de<br \/>2002, levantou uma grande esperan\u00e7a num pa\u00eds onde as condi\u00e7\u00f5es de vida da<br \/>maioria da popula\u00e7\u00e3o, ind\u00edgena, muito se deterioraram na \u00faltima d\u00e9cada. O<br \/>embargo total dos EUA sobre a economia e a maioria das institui\u00e7\u00f5es do pa\u00eds fez<br \/>que em poucos meses ele mudasse de lado. Ao nomear uma corte suprema<br \/>subserviente, desagradou \u00e0s for\u00e7as armadas. Buscou o apoio dos EUA, dizendo-se<br \/>o _principal aliado de G.W. Bush na Am\u00e9rica Latina_ e firme partid\u00e1rio dos<br \/>tratados de livre com\u00e9rcio. Foi condecorado pelo chefe das for\u00e7as armadas<br \/>norte-americanas na AL pela imunidade conferida a suas tropas no Equador.<br \/>Cresceu a dist\u00e2ncia entre o presidente e o conjunto do pa\u00eds e uma nova alian\u00e7a<br \/>parlamentar precipitou a crise. O povo ind\u00edgena, que muito tinha contribu\u00eddo<br \/>para a elei\u00e7\u00e3o do presidente, desceu \u00e0s ruas. Pressionado pelos levantes<br \/>populares, o Parlamento dep\u00f4s o presidente. Foi o terceiro em 8 anos. Ignorando<br \/>o descontentamento da popula\u00e7\u00e3o, a secretaria de Estado Condoleezza Rice instou<br \/>por novas elei\u00e7\u00f5es. A OEA _ voz dos EUA _ endossou a recomenda\u00e7\u00e3o. Mas a crise<br \/>\u00e9 muito profunda para ser resolvida apenas por elei\u00e7\u00f5es. O povo est\u00e1 revoltado<br \/>contra a submiss\u00e3o do Pa\u00eds aos interesses estrangeiros, e o pa\u00eds est\u00e1 se<br \/>decompondo. S\u00e3o os movimentos ind\u00edgenas que ainda mant\u00eam uma certa coes\u00e3o. Por<br \/>quanto tempo?<br \/>4. Ecos do Congresso Nacional<br \/>Uma quest\u00e3o crucial no Legislativo de hoje: o instituto da Medida Provis\u00f3ria<br \/>(MP) congestiona continuamente a pauta dos trabalhos. A MP foi estabelecida<br \/>pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 como instrumento a servi\u00e7o do Presidente da Rep\u00fablica<br \/>em casos de relev\u00e2ncia e urg\u00eancia. A maioria dos assuntos das Medidas<br \/>Provis\u00f3rias n\u00e3o t\u00eam sido, de fato, nem de relev\u00e2ncia nem de urg\u00eancia. Fazem a<br \/>transfer\u00eancia do Legislativo para o Executivo na fun\u00e7\u00e3o de legislar, gerando<br \/>paralisia na pr\u00e1tica parlamentar. Os \u00faltimos governos t\u00eam abusado desta<br \/>prerrogativa. Est\u00e3o em discuss\u00e3o propostas de novo rito de tramita\u00e7\u00e3o, atrav\u00e9s<br \/>de uma comiss\u00e3o mista. Propostas em estudo: a) j\u00e1 h\u00e1 entendimento de que \u00e9<br \/>indispens\u00e1vel que haja altern\u00e2ncia no ingresso das MP &#8211; Senado ou C\u00e2mara; b) a<br \/>admissibilidade passaria a ser analisada e decidida apenas pela casa em que a<br \/>MP ingressa; c) redefini\u00e7\u00e3o dos prazos para a tramita\u00e7\u00e3o das MPs.<br \/>Projetos de leis de Bio\u00e9tica e afins<br \/>A vota\u00e7\u00e3o do Projeto de Biosseguran\u00e7a, com todas as ambig&uuml;idades conhecidas,<br \/>deixou muitas li\u00e7\u00f5es para o nosso trabalho de acompanhamento aos Projetos de<br \/>lei do mesmo teor. Alguns aspectos merecem aten\u00e7\u00e3o:<br \/>a) O processo de vota\u00e7\u00e3o revelou que estamos diante de um novo quadro da<br \/>evolu\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, ainda com interroga\u00e7\u00f5es. De um lado, percebemos que se<br \/>descortinam esperan\u00e7as para a popula\u00e7\u00e3o, como no caso das c\u00e9lulas-tronco<br \/>adultas, ao mesmo tempo urge um r\u00edgido discernimento \u00e9tico em suas<br \/>prerrogativas (como no caso do uso de embri\u00f5es para pesquisa);<br \/>b) Da\u00ed a necessidade de maior preparo para enfrentamento desses temas _ tanto<br \/>por parte das nossas Igrejas como por parte dos parlamentares. Vivemos uma<br \/>cultura onde a subjetividade exacerbada, atenta para solu\u00e7\u00f5es imediatas, \u00e9<br \/>movida mais pelas emo\u00e7\u00f5es do que pelo desejo de crit\u00e9rios em defesa da vida;<br \/>c) Tamb\u00e9m a experi\u00eancia dessa vota\u00e7\u00e3o mostrou que a palavra do Magist\u00e9rio<br \/>eclesial perdeu for\u00e7a junto aos legisladores do pa\u00eds. A laicidade do Estado tem<br \/>sido alegada para desqualificar a palavra da Igreja sobre temas de bio\u00e9tica: no<br \/>Legislativo, no Executivo (Minist\u00e9rio da Sa\u00fade) e no Judici\u00e1rio;<br \/>d) Esta nova realidade est\u00e1 exigindo que a Igreja reformule suas estrat\u00e9gias de<br \/>forma\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os (a quest\u00e3o mais profunda ultrapassa o embate jur\u00eddico).<br \/>Torna-se necess\u00e1rio nova forma de di\u00e1logo com os parlamentares e pol\u00edticos em<br \/>geral, sobretudo no \u00e2mbito das Igrejas locais, onde eles t\u00eam suas bases<br \/>pol\u00edticas e est\u00e3o mais sens\u00edveis \u00e0s propostas e aos reclamos da sociedade.<br \/>H\u00e1 no Congresso um grande n\u00famero de Projetos de Bio\u00e9tica e afins (cf. em anexo<br \/>uma lista de projetos em tramita\u00e7\u00e3o) revelando a nova sensibilidade da<br \/>sociedade e dos parlamentares. Est\u00e1 marcada na sede da CNBB, no dia 31\/05, uma<br \/>reuni\u00e3o de um grupo de parlamentes para estudar esta lista de projetos, o seu<br \/>andamento e estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o.<br \/>Est\u00e1 em fase de prepara\u00e7\u00e3o um Conselho de Bio\u00e9tica que consiste numa inst\u00e2ncia<br \/>de refer\u00eancia para an\u00e1lise e discuss\u00e3o de temas de Bio\u00e9tica. Tem como<br \/>atribui\u00e7\u00e3o atuar como um balizador moral ao dar visibilidade e enunciar<br \/>corretamente quest\u00f5es de dif\u00edcil compreens\u00e3o tanto para a sociedade como para<br \/>os governantes e o pa\u00eds, revelando toda a complexidade de seus efeitos e<br \/>implica\u00e7\u00f5es. Ser\u00e1 um \u00f3rg\u00e3o consultivo de assessoramento ao Presidente da<br \/>Rep\u00fablica, sem personalidade jur\u00eddica pr\u00f3pria, mas com autonomia relativa para<br \/>que disponha de uma dota\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria, independente de programas de governo,<br \/>com membros indicados pela sociedade civil e nomeados pelo poder p\u00fablico.<br \/>A proposta original foi apresentada pela CNBB ao Presidente Lula. Esta proposta,<br \/>estudada por uma comiss\u00e3o articulada pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, est\u00e1 na Casa<br \/>Civil que dever\u00e1 encaminh\u00e1-la como Projeto de Lei ao Congresso Nacional.<br \/>A Reforma Pol\u00edtica<br \/>No momento, a palavra _Reforma_ ganha espa\u00e7o: pol\u00edtica, tribut\u00e1ria, sindical e<br \/>trabalhista&#8230; No entanto, o Projeto da Reforma Pol\u00edtica, em tramita\u00e7\u00e3o na<br \/>C\u00e2mara, parece ser a mais fundamental e urgente, diante dos desafios prementes<br \/>dos processos eleitorais que amea\u00e7am a pr\u00f3pria democracia. O objetivo deste<br \/>Projeto \u00e9 refor\u00e7ar o partido como institui\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da<br \/>sociedade junto ao Estado. Para isso, ele prop\u00f5e: fidelidade partid\u00e1ria,<br \/>financiamento p\u00fablico das campanhas, listas preordenadas de candidatos,<br \/>cl\u00e1usula de barreira e proibi\u00e7\u00e3o de coliga\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias. Embora as<br \/>lideran\u00e7as digam que a Reforma Pol\u00edtica poder\u00e1 ser logo aprovada, a correla\u00e7\u00e3o<br \/>de for\u00e7as no Congresso faz que s\u00f3 uns poucos parlamentares apostem na aprova\u00e7\u00e3o<br \/>integral do texto ainda este ano. Com exce\u00e7\u00e3o da fidelidade partid\u00e1ria, os<br \/>outros pontos importantes da Reforma s\u00e3o controversos. Uma das alternativas<br \/>para evitar a paralisa\u00e7\u00e3o da Reforma \u00e9 a sua vota\u00e7\u00e3o em partes, ou, ent\u00e3o,<br \/>votar o texto de uma \u00fanica vez, mas estabelecendo prazos diferenciados para sua<br \/>entrada em vigor. Nas elei\u00e7\u00f5es de 2006 come\u00e7ariam a valer mecanismos que<br \/>fortalecem a fidelidade partid\u00e1ria, como o estabelecimento de prazos de<br \/>filia\u00e7\u00e3o de candidatos. As quest\u00f5es mais pol\u00eamicas &#8211; o voto em lista partid\u00e1ria<br \/>e o financiamento p\u00fablico da campanha &#8211; s\u00f3 entrariam em vigor mais tarde. Nossos<br \/>grupos da Igreja v\u00eam insistindo na urg\u00eancia do aperfei\u00e7oamento do arcabou\u00e7o<br \/>jur\u00eddico das institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas como condi\u00e7\u00e3o para a consolida\u00e7\u00e3o da<br \/>democracia. Da\u00ed a for\u00e7a moral da Lei 9840 contra a corrup\u00e7\u00e3o eleitoral, apesar<br \/>de continuamente amea\u00e7ada.<br \/>Numa vis\u00e3o mais ampla de reforma pol\u00edtica, em busca de uma nova cultura<br \/>pol\u00edtica, o Professor F\u00e1bio Comparato, com o apoio da OAB e da CNBB, est\u00e1<br \/>liderando uma Campanha, para um Projeto de Lei que regulamente o art. 14 da<br \/>Constitui\u00e7\u00e3o Federal, em mat\u00e9ria de plebiscito, referendo e iniciativa popular.<br \/>A motiva\u00e7\u00e3o do projeto: o povo brasileiro tem o direito de votar em elei\u00e7\u00f5es,<br \/>mas n\u00e3o tem como exigir que o governo respeite os seus direitos sociais. O povo<br \/>tampouco tem o direito de rejeitar emendas constitucionais, leis ou tratados<br \/>internacionais, que prejudicam o pa\u00eds. Al\u00e9m disso, as leis propostas pelo povo<br \/>podem ser alteradas ou revogadas sem consentimento do povo. Este projeto de lei<br \/>se prop\u00f5e corrigir esses abusos. A proposta, apresentada pela OAB \u00e0 Comiss\u00e3o de<br \/>Legisla\u00e7\u00e3o Participativa, da C\u00e2mara dos Deputados, foi aprovada por<br \/>unanimidade. Segue agora a tramita\u00e7\u00e3o regular dos projetos de lei. O trabalho<br \/>de coleta de assinaturas ser\u00e1 um apoio popular que dar\u00e1 legitimidade ao<br \/>projeto.<br \/>C\u00e2mara avalia Referendo popular sobre as armas<br \/>H\u00e1 grande expectativa quanto ao Projeto de Decreto Legislativo sobre o Referendo<br \/>popular, previsto no Estatuto do Desarmamento (Lei 10826\/03) para outubro deste<br \/>ano, para decidir sobre a proibi\u00e7\u00e3o da venda de armas de fogo e muni\u00e7\u00f5es no<br \/>Brasil. O Estatuto do Desarmamento j\u00e1 restringiu o porte de armamentos.<br \/>Pesquisas recentes constatam que um cidad\u00e3o armado tem 57% de chances a mais de<br \/>ser assassinado do que os n\u00e3o possuem armas de fogo _ isto num pa\u00eds onde se<br \/>morre mais por arma de fogo (27%) do que por acidente de tr\u00e2nsito (25%).<br \/>O Projeto do Decreto precisa ser votado logo, para que o Referendo se realize<br \/>neste ano. Requerimento assinado por 8 l\u00edderes, representando 290 deputados,<br \/>pediu urg\u00eancia na vota\u00e7\u00e3o. O presidente da C\u00e2mara ressaltou que vai atend\u00ea-lo.<br \/>O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Carlos Velloso, \u00e9<br \/>favor\u00e1vel: &quot;Devemos fazer tudo para que este referendo saia. Que o povo<br \/>brasileiro seja esclarecido para que o verdadeiro titular do poder &#8211; que \u00e9 o<br \/>pr\u00f3prio povo &#8211; decida se \u00e9 a favor ou contra o projeto que pro\u00edbe a compra de<br \/>armas&quot;. A CNBB, nas pegadas da Campanha da Fraternidade deste ano, est\u00e1<br \/>empenhada na realiza\u00e7\u00e3o deste Referendo como instrumento de paz.<br \/>Frente prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o do Parlamento Mundial<br \/>Foi instalado na C\u00e2mara dos Deputados uma Frente Parlamentar com o objetivo de<br \/>criar um Parlamento Mundial. Este F\u00f3rum Parlamentar prop\u00f5e um espa\u00e7o para que<br \/>as na\u00e7\u00f5es possam conversar e buscar solu\u00e7\u00f5es para os conflitos e assuntos que<br \/>ultrapassam as fronteiras de cada pa\u00eds. Os integrantes da Frente j\u00e1 aprovaram a<br \/>realiza\u00e7\u00e3o de um semin\u00e1rio internacional em Bras\u00edlia, em junho deste ano, com a<br \/>participa\u00e7\u00e3o de parlamentares de v\u00e1rios pa\u00edses e lideran\u00e7as da sociedade civil<br \/>para discutir e pensar o Parlamento Mundial. A iniciativa acontece em boa hora<br \/>quando \u00e9 evidente o esgotamento da ONU na democratiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es<br \/>internacionais. Este Parlamento Mundial pode tornar-se uma alternativa<br \/>internacional, no caso em que a ONU venha a tomar decis\u00f5es sem respeitar os<br \/>anseios do mundo democr\u00e1tico. A id\u00e9ia est\u00e1 em sintonia com as propostas do 5\u00ba.<br \/>F\u00f3rum Social Mundial que reuniu, em Porto Alegre,&nbsp; 180 mil pessoas de 151<br \/>pa\u00edses.<br \/>Renda b\u00e1sica de Cidadania<br \/>Em janeiro de 2005, o Presidente da Rep\u00fablica sancionou a Lei que instituiu a<br \/>renda b\u00e1sica da Cidadania, como direito de todos os brasileiros residentes no<br \/>Pa\u00eds e estrangeiros residentes h\u00e1 pelo menos 5 anos, receberem, anualmente, um<br \/>benef\u00edcio monet\u00e1rio. Esta quantia dever\u00e1 ser alcan\u00e7ada em etapas, a crit\u00e9rio do<br \/>Poder Executivo, priorizando-se as camadas mais necessitadas da popula\u00e7\u00e3o. O<br \/>pagamento do benef\u00edcio deve ser de igual valor para todos, e suficiente para<br \/>atender \u00e0s despesas m\u00ednimas de cada pessoa com alimenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade,<br \/>considerando para isso o grau de desenvolvimento do Pa\u00eds e as possibilidades<br \/>or\u00e7ament\u00e1rias. Diz a Lei que o Poder Executivo consignar\u00e1 dota\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria<br \/>suficiente para implementar a primeira etapa do Projeto.<\/p>\n<p>Bras\u00edlia, 10 de maio de 2005<\/p>\n<p>Contribu\u00edram para esta an\u00e1lise Pe. Ant\u00f4nio Abreu, Bernardo Lestienne,<br \/>Daniel Seidel, Ir. Delci Franzen. Pe. Ernanne Pinheiro e Pe. Thierry Linard.<\/p>\n<p>Pedro A. Ribeiro de Oliveira<br \/>Professor na Universidade Cat\u00f3lica de Bras\u00edlia e<br \/>Assessor da Comiss\u00e3o Episcopal para o Laicato.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CONFER\u00caNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASILConselho Episcopal de Pastoral&nbsp; _ 14\u00aa Reuni\u00e3oBras\u00edlia &#8211; DF, 10&nbsp; a 12 de maio&nbsp; de 2005 An\u00e1lise de Conjuntura \/ Maio 2005N\u00e3o \u00e9 documento oficial da CNBBApresenta\u00e7\u00e3oEsta An\u00e1lise tem como focos a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do governo Lula ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3oda Mesa diretora da C\u00e2mara, o impasse dos movimentos sociais em [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":151,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[6],"class_list":["post-2756","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-publicaciones","tag-articulos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2756","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/users\/151"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2756"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2756\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4761,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2756\/revisions\/4761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2756"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2756"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.sindominio.net\/mstmadrid\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2756"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}